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naqueles morros, depois da chuva

21/09/2011

Fazer comparações em literatura é sempre um risco que não gosto de correr. Muitas vezes costuma-se falhar vertiginosamente quando se faz isso. Em outras é quase inevitável isso. Existem alguns autores que andam lado a lado na sua maneira de escrever, não importa qual seja o motivo disso. Outras vezes a comparação se dá de forma involuntária na cabeça do leitor, que vai traçando semelhanças entre essa e aquela obra. Mas não farei comparações, contudo acho que se faz necessária uma análise paralela da obra do escritor goiano Edival Lourenço, Naqueles Morros, depois da chuva com outros livros que possuem semelhanças narrativas ao seu.

O bastardo filho de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, narra a saga de Luis de Assis Mascarenhas, governador da província de São Paulo e Minas de Goyazes, que está indo para o Arraial de Santana com a função de fazer com que a Minas de Goyazes tenha autonomia administrativa. Ele está acompanhado de uma ampla comitiva, composta pelos mais diversos personagens, desde um padre medroso até um “encantador” de serpentes, o narrador-bastardo. A viagem é pontuada por acontecimentos insólitos e alguns um tanto quanto sinistros, que vão dando a narrativa uma eloquência que não nos fazer perder o interesse pela história que está sendo contada. Mesmo diante de todos os percalços do cerrado, de todos os contratempos que permeiam a viagem toda, a comitiva chega ao seu objetivo, com uma recepção acalorada e fogosa dos moradores de Arraial de Santana. Um passo dado para mais uma página da história do Brasil.

O romance de Edival é histórico, mas diferente do enfado que alguns autores desse tipo de romance nos colocam, ele não tem a monótona linguagem que se esforça em mostrar que a pesquisa foi feita colocando dentro da narrativa uma quantidade maçante de informações de cunho muito mais acadêmicas do que literárias. A escrita de Naqueles morros, depois da chuva  está muito longe disso. Não que a pesquisa do autor não tenha sido bem feita; ela foi, mas ele soube dosar as quantidades de modo que a literatura e a história de diluíram, ambas, para se tornarem uma mistura tão homogênea que não existe possibilidade, dentro da trama edivalina, das duas ser separadas, porque caso isso ocorra todo o enredo fica descambado. Dentro dessa acepção, o romance foi milimetricamente bem construído. A reconstituição histórica feita pelo escrevente goiano é de um fôlego soberbo (mesmo sendo um livro pequeno). O leitor pode ver todo o ambiente, o cerrado, no qual estão a caminhar a comitiva de Dom Luís, com seu calor infernal, sua aridez, seus caminhos tortuosos. E, além disso, os costumes e hábitos deste rincão são descritos com precisão, seja na figura dos padres, dos personagens mais diagonais (os que aparecem pouco), ou ainda na imagem do próprio narrador, que talvez seja o espelho mais claro de como se pensava naquela época, apesar de toda sua desenvoltura intelectual. E esse personagem é um dos pontos de destaque do livro.

Retomando as primeiras linhas. Como disse, o livro dá a possibilidade de fazer um paralelo com algumas outras obras que seguem essa mesma linha de um narrador que conta uma história para um interlocutor que não aparece nunca, acentuadamente os livros Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa e Sargento Getúlio de João Ubaldo Ribeiro. O romance de Edival lembra em alguns aspectos esses outros dois romances, muito mais na forma como a narrativa é montada do que do jeito que ela é contada. Vale frisar que o escritor goiano não tem, em termos da estilística da escrita, nenhuma semelhança nem com o escrevente mineiro e nem com o baiano, respectivamente. As únicas semelhanças que encontrei entre eles foi a da montagem da história: de ter um narrador que está a dizer tudo para alguém que não aparece em momento nenhum e o apelo linguístico aflorado. Contudo existem diferenças cabais entre os três: os romances de Ubaldo e Guimarães são quase uma espécie de complementação um do outro, talvez a grande distinção seja a ambientação e o tamanho dos enredos, e também o fato de que no livro de Ubaldo há divisão de capítulos enquanto na obra de Guimarães existe apenas um grande monólogo sem pausas, e já no livro de Edival existe uma distância desses outros dois autores no que concerne a forma como seu narrador vai contando a história. Diferente dos narradores de Rosa e Ribeiro, que são meio “destrambelhados” em suas coloquialidades, o de Edival, carrega mesmo com seus ares de jagunço, certo tom de erudição com suas tiradas sarcásticas, uma ironia de um refinamento delicado, e até algumas citações em latim. O narrador de Edival é esclarecido, sabido dessas coisas do mundo e do sertão.

Além do narrador peculiar, Naqueles morros, depois da chuva possui um ritmo narrativo que dá conta perfeitamente da descrição de uma viagem: ora rápido, ora lento, assim mesmo, na velocidade do caminhar da comitiva, com capítulos curtos e outros mais longos. Ritmo magistralmente concebido para dar conta do enredo. Ponto relevante também se dá no fator linguagem. O livro de Edival é uma verdadeira proeza neste aspecto por não se prender a um regionalismo pueril e nem deixar com que a escrita seja anacrônica para um leitor sem familiaridade com o vernáculo. Acerta em cheio quando resolve descrever as paisagens num tom poético, numa linguagem que é da época, mostrando mais uma vez que sua exaustiva pesquisa foi bem executada. Sem dúvida ele deve ter lido uma quantidade considerável de documentos de cronistas de viagem, para poder fazer com que a narrativa tivesse esse ar barroco, dando verossimilhança aos termos empregados, o que faz o leitor sentir-se numa viagem espaço-temporal para a época retratada. Uma sacada de um ótimo escritor, que não se perdeu no meio do caminho linguístico, que soube preparar um bom romance.

Depois de quase 20 anos da publicação do genial Centopeia de Néon, Edival Lourenço volta ao gênero romance com fôlego novo (em cada romance existe um escritor diferente), confirmando sua importância dentro do cenário literário nacional; e mostrando sua perspicácia narrativa, sua inteligência linguística, seu esmero ficcional. Sendo o primeiro de uma já planejada trilogia, Naqueles morros, depois da chuva é um grande romance, que retrata com letras únicas uma parcela importante da história do nosso país; um romance construído sobre o signo da meticulosidade (tão característica da obra de Edival Lourenço), que arrebata seu leitor, me perdoe o clichê, da primeira a última página, sempre com aquele desejo de que cada página se multiplique em outras.

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  1. edival lourenço permalink
    21/09/2011 10:46

    Prezado Ricardo, acabo de ler sua resenha. E vou ler outras vezes. Fiquei realmente de queixo caído, pela sua lucidez. Por que não dizer de sua generosidade para com este velho escriba. Falei com o nosso amigo Carlos Willian da possibilidade de publicá-la no Opção Cultural. Ontem, eu e o Carlos ainda lembramos de vc. A gente falava que vc tem um potencial extraordinário. O carlos até comparou vc com o Pio Vargas, com a diferença de ser uma pessoa mais “centrada” com paciência para estudar, estudar muito, e vir a ser um intelectual completo e não apenas (mas também) um criador poderoso (como foi o Pio). Obrigadão e um grande abraço.

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