Irregularidade não é um pecado

Um breve perfil do escritor português José Saramago e da sua poderosa e inconstante obra

José Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, prefiro o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa da pressão e todo aquele bláblá corriqueiro.

Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia estúpida de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas. Continuar a ler

Tirza – Arnon Grunberg

roedortirzatextpoUm pai controlador, um editor de livros medíocre, um marido apagado, retraído, com tons neuróticos de percepção do mundo. Esse é Jörgen Hofmeester, que vive com a filha mais nova num bairro de classe média, típico da Europa. Jörgen prepara uma festa para Tirza, sua caçula, pois ela está preste a terminar os estudos e irá, antes de entrar na faculdade, para uma viagem para África. A festa de despedida precisa ser perfeita. Ela representa não apenas um ato afetivo de um pai para a filha, mas a confirmação de que ele não é um derrotado – algo que o leitor vai confirmando a cada página virada.

A festa que Jörgen dá para Tirza é o pontapé para um romance que começa em tons leves e vai adotando tons sombrios a medida que o enredo desenvolve-se. O holandês Arnon Grunberg pega elementos aparentemente comuns para traçar um romance visceral. É a visceralidade lenta e parcimoniosa que consome o leitor em cada página. Jörgen é o espectro da normalidade forçada. Com duas filhas, Tirza e Ibi – essa segunda que logo desvencilha-se do seio familiar e toma para si a independência -, e uma esposa que o abandona para viver aventuras amorosas juvenis – e que depois retorna como se nada houvesse acontecido, Hofmeester vive sob a pressão do acaso. Revela-se um pessimista – que lê Dostoiévski todos os dias para sua caçula antes de dormir, como forma de educá-la para o mundo. É um desacreditado do mundo (e talvez por todo mundo). Continuar a ler

Baseado em Fatos Reais – Delphine de Vigan

roedor-baseado-em-fatos-reaistextoA escritora francesa Delphine de Vigan goza de relativa fama. No seu país de origem é responsável pelo livro Rien ne s’oppose à la nuit, que se transformou num grande sucesso nas terras de Proust. Esse seu best seller conta a história de sua família e mescla ficção e realidade. Graças ao bem sucedido romance, Delphine se vê então encurralada por leitores que procuram saber quais aspectos do seu livro eram de fato reais e quais eram frutos de sua imaginação. Um tipo de reação comum no público que hoje consome com muita facilidade qualquer coisa que esteja sob o título de “baseado em fatos reais”. Há uma espécie de sede nessa identificação, de saber o que o “real” pode nos trazer de surpreendente, de estarrecedor, ou mesmo de entretenimento.

Delphine, após a explosão que foi Rien ne s’oppose à la nuit, se vê enjaulada, com extrema dificuldade de iniciar seu próximo romance. Foi graças a experiência de exposição e o sucesso que seu Rien… lhe trouxe que ela pôde montar o argumento principal do seu romance posterior e seu primeiro publicado no Brasil, Baseado em fatos reais (Intrínseca), cujo o título não esconde a ironia da inspiração. Continuar a ler

Salinger – David Shields e Shane Salerno

roedorsalingertexto“O que realmente me toca é um livro que, quando você acabou de ler, lhe dá o desejo de que o autor fosse um tremendo amigo seu e que você pudesse telefonar para ele sempre que sentisse vontade.”, diz em dado momento um dos personagens mais famosos da literatura universal, Holden Caulfield na narrativa de um dos mais expressivos romances norte-americanos, que todo leitor minimamente habituado ao cânone literário já deve ter ouvido falar, ou ter lido ou alimenta a curiosidade em ler: O apanhador no campo de centeio — que até hoje, em pleno 2017, ainda não recebeu uma tradução justa e que faça jus a força do livro. Por isso, me permita o parêntese logo no início dessa nossa conversa e se faça uma gentileza, leia The Catcher in the Rye no original, que é lá que reside toda a ironia e potência da escrita de Salinger. Curiosamente, a frase do personagem não parecia ser muito a vontade do autor em relação ao seus leitores.

Jerome David Salinger, compõe o grupo de raros autores em que a palavra “enigmático” pode ser aplicada com justeza. A imagem do escritor solitário, perdido em seus devaneios e criações, encaixam com Salinger de forma espontânea. Sobre essa vida silenciosa que se debruçaram por mais dez anos, o cineasta Shane Salerno e o jornalista David Shields. Na tentativa de encaixar algumas peças do quebra-cabeça que Salinger representa, entrevistaram durante esse período mais de 200 pessoas, algumas delas extremamente ligadas ao escritor autor de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira. Continuar a ler

Dias de Abandono – Elena Ferrante

dias-de-abandono-elena-ferrante-post“Uma tarde de abril, logo após o almoço meu marido me comunicou que queria me deixar.” É assim que Olga anuncia a determinação de Mario, seu marido por quinze anos, em lhe abandonar. A notícia chega inesperada, repentina em meio aos eventos corriqueiros da casa — as crianças brigando, o cachorro dormindo ao lado do aquecedor. Olga fica paralisada e assim é deixada por seu agora ex-marido, como uma “pedra ao lado da pia”.

Esse choque que atinge Olga não lhe atravessa somente no momento inicial da ruptura do seu casamento. Rupturas como essas não se findam de forma tão abrupta, elas perpassam em demorado tempo as entranhas mentais. E foi como Olga ficou, nesse primeiro momento: tentando reexaminar, numa visão em retrospectiva do relacionamento, quais os sinais indicados de uma crise que não foram percebidos. Esse sentimento se apossa de Olga que, de uma hora para outra, vê o outro lado da cama vazio, e se vê com o desafio de cuidar sozinha de uma casa, duas crianças e um cachorro. Continuar a ler