A forma e a disforma

Se é árdua a tarefa da leitura de poesia — os prazeres têm seus enganosos meandros —, a de escrevê-la é tecer a costura de um tecido que não tem fim, o diálogo entre tantas imagens, cenas e figuras, pretendentes de uma saga penelopiana que se revela por meio de pistas e chaves de interpretação.

O livro de Laura Erber, publicado ano passado pela Relicário, é esse jogo de pistas e chaves. A Retornada é um pequeno e imenso livro. Como se fosse um pequeno rio, onde não desconfiamos, à primeira vista, da sua profundidade. O livro de Erber é exatamente assim: este pequeno rio que, na hora do mergulho, revela-se uma imersão profunda e sem volta.

A epígrafe do livro é o ponto de revelação das costuras feitas por Laura: “Posso escrever poemas? Por uma espécie de contágio?”. A frase de Sylvia Plath é a chave que abre as possibilidades de leitura da obra. O conceito de contágio é este em que se transmite algo — quase sempre uma doença — pelo contato. Continuar a ler

A anatomia de uma relação amorosa

Kundera talvez seja um dos maiores romancistas vivos da Europa. Autor do inolvidável “A insustentável leveza do ser”, clássico de proporções gigantescas e uma das mais fortes ficções que desmembra as relações humanas e suas complexidades, Mila Kundera é, tal qual Roland Barthes e o seu “Fragmentos de um discurso amoroso”, um leitor das relações amorosas. Isso fica claro e notório no seu curto romance “A identidade” (Companhia de Bolso, 2009. Traducão de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca).

Como toda boa narrativa, o título de Kundera não vem aleatório. Ao falar da história do casal Jean-Marc e Chantal, o escritor promove um conjunto de reflexões sobre as formas em que as relações amorosas se dão. Jean-Marc e Chantal são um casal que habituaram-se um com o outro e vivem agora a monotonia de uma relação instável – porém sem conflitos apoteóticos, tudo está ali na sutileza das reflexões. Continuar a ler

Uma temporada no escuridão

A vida comum e nada espetacular de um norueguês narrada em detalhes. Eis o resumo, a grosso modo, do que é a série “Minha Luta” escrita por Karl Ove Knausgård e que conquistou o público e a crítica, transformando-se num curioso fenômeno. Curioso porque não há nada de especial na vida do escritor que auto-ficcionaliza sua história. Sem grandes reviravoltas, sem cenas de tirar o fôlego. É apenas a sua vida, às vezes irritantemente monótona, que encontramos no seu calhamaço dividido em seis volumes.

Editado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Guilherme da Silva Braga direto do norueguês, a autobiografia ficcional – ou, no uso do termo mais corrente, auto-ficção – de Karl Ove destrincha sua própria vida de forma crua, revelando uma existência com todas as contradições e reflexões que ela pode carregar. E isso fica nítido com a vinda à lume do quarto volume da série, Uma temporada no escuro. Enquanto o primeiro volume, A morte do Pai, Karl fala de períodos diversos e não-cronológicos da sua vida, no segundo, sob o título Um outro amor, retrata detalhes do seu casamento e da experiência da paternidade, e no terceiro, A ilha da infância, fala do seu tempo de infância e da conturbada e dúbia relação com seu pai; no quarto volume, Uma temporada no escuro, o recorte temporal é da sua fase jovem, saindo da adolescência, com seus recém chegados dezoito anos, e com a responsabilidade de saber lidar com todas as decisões que vai precisar fazer a partir daí. Continuar a ler

A vida dos filhos da elite do nazismo

O nazismo é desses fenômenos desviantes que se engendram de forma paulatina e se imiscuem de justificativas, se enreda baseado no desespero e no medo, mira num bode expiatório e faz dele o seu alvo principal, o inimigo de todos e o transforma no eixo fortalecedor do seu discurso.

Sabemos que todo fascismo se alimenta disso. O nazismo foi essa tenebrosa entidade que entranhou-se no nosso imaginário — mesmo que hoje exista um farto processo de esmaecimento desse episódio histórico — e nos impulsiona para questionamentos básicos, tais quais: como pode ter surgido, ter ido tão longe e ter sido aceito de forma tão poderosa? As razões para o surgimento e fortalecimento dos ideais nazistas estão fartamente documentadas numa bibliografia tão enorme quanto confusa, mas bastante clara no que concerne aos contornos atrozes do que foi feito nesse período. Continuar a ler

A polifonia da transformação através do luto

A morte está entre esses íntimos mistérios que afligem a humanidade. O fim definitivo da existência continua a ser motivo de inconformidade. Ainda é um processo doloroso, mesmo que esperado, mesmo que se saiba que ele pode acontecer a qualquer momento. A perda peremptória mantém-se inaceitável. Como lidar com uma perda irreversível? Pode ser que essa ainda seja uma das perguntas fundamentais da existência.

Explorar essa seara é uma tarefa hercúlea e, por vezes, ingrata. A filosofia se ocupou e ofereceu alternativas reflexivas sobre o tema, a religião pegou seu bom bocado e formulou suas próprias concepções, mas é na literatura que existem as mais desconcertantes perspectivas. Talvez uma das mais comoventes expressões literárias das últimas décadas sobre esse tópico esteja tematizado no livro “Lincoln no Limbo” (Companhia das Letras, 2018, tradução de Jorio Dauster), de George Saunders. Continuar a ler