A explosão de Ricardo Adolfo em Maria dos Canos Serrados

A Baikal é uma arma de extremo impacto, que atinge seu alvo e o dilacera instantaneamente. Arma de caça, pode derrubar grandes alvos sem a menor dificuldade. E se ficar cara a cara com alguém, é capaz dessa pessoa perder completamente sua dignidade ao implorar pela própria vida. Baikal é sinônimo de avassalamento sem limites, não há estratégia possível que a possa conter. Sem contar um fato inusitado: a arma é de uma estrutura belíssima, com seus duplos canos destruidores.

Beleza e capacidade destrutiva. Dois elementos que facilmente podem ser utilizados para falar da Baikal, como também encaixam-se perfeitamente na descrição de Maria, a protagonista-narradora de “Maria dos Canos Serrados”, este romance-acontecimento escrito por Ricardo Adolfo. Continuar a ler

A potência do amor que não se perde

Até onde aquela primeira experiência amorosa nos molda como seres humanos? Onde habita a potência afetiva que permite com que aquele sentimento não se perca nos emaranhados da memória? É o amor, afinal, o sentimento que define nossa humanidade?

São questões assim que borbulham na cabeça do leitor ao percorrer as curtas páginas de O Amor dos Homens Avulsos, romance publicado em 2016 pela Companhia das Letras e que foi finalista do prêmio Oceanos em 2017.

O romance de Victor Heringer — jovem e potente escritor morto esse ano — é de uma ternura tremenda.

Narrado em primeira pessoa, O Amor dos Homens Avulsos é o relato que busca resgatar as lembranças adolescentes de Camilo e o seu amor juvenil, Cosme. Camilo é um jovem criado na aba protetora dos pais e vive em situação confortável no bairro do Queím, no Rio de Janeiro dos anos 70. Situação muito diferente dos demais amigos de infância, todos marcados — na psicologia e na carne — pela precariedade de suas vidas. Continuar a ler

O fascismo europeu e o Vaticano

Em 2002 o papa João Paulo II autoriza a abertura dos arquivos correspondentes ao papado de Pio XI. Esta foi a oportunidade para o cientista social David Kertzer explorar a relação da Igreja Católica com os acontecimentos que explodiram no mundo nas décadas de 1920/1930 que desembocariam na Segunda Guerra Mundial. Este momento da história é particularmente delicado para a Igreja Católica e suscita debates acalorados entre historiadores de diferentes correntes na leitura da postura da igreja nesse período.

Delimitando como campo de pesquisa a relação da Igreja com o nascimento e recrudescimento do fascismo europeu, acentuadamente o italiano, Kertzer passou sete anos investigando os arquivos liberados pela Igreja e escreveu O Papa e Mussolini, que ganhou o prêmio Pulitzer de Biografia. Traçando uma linha cronológica muito bem estruturada, o pesquisador americano narra o surgimento tanto de Papa XI, o caminho que trilhou para sua chegada no papado, quanto de Mussolini e como ele se tornou produto de uma Itália em frangalhos, desacreditada, e encarnou a esperança de uma renovação nos rumos do país. Continuar a ler

O tempo que não nos pertence

No livro O palácio da memória (Todavia, 2017), o radialista Nate DiMeo narra a história do fascínio que o pai do rádio, o italiano Guglielmo Marconi, com a ideia de que as vibrações do som propagavam-se eternamente, apenas perdendo um pouco da intensidade com o tempo e que, mesmo assim, captando na frequência certa, seria possível ouvir tudo o que já foi dito no mundo — Shakespeare ensaiando com um ator ou o sermão da montanha tal como fora proclamado por Jesus.

Marconi era defensor da ideia da eternidade do som, da sua perenidade, como se todas as palavras ditas no mundo formassem um palimpsesto sonoro ainda possível de se montar e remontar, e ser ouvido ad infinitum. A história de Marconi evoca esta concepção que encara a passagem do tempo como um acumulador de experiências, onde tudo se constitui e se formata por um eco temporal tal qual um efeito borboleta. Continuar a ler

A Zona de Conflito Amorosa

O protagonista do mais recente romance do escritor brasileiro Bernardo Carvalho atua há mais de trinta anos em zonas de conflito ao redor de mundo, como funcionário de uma agência humanitária. Rato, nome do personagem, se vê, depois de anos em áreas de alto nível de periculosidade, posto diante de uma missão peculiar: resgatar um misterioso refém, mas sob condições completamente adversas. Dessa vez ele não iria negociar com os sequestradores, não iria entrar em contato com eles de forma direta, não iria como funcionário da agência para qual trabalhou quase toda a vida. Iria só, sem qualquer auxilio ou recurso de emergência.

Absorto ao ouvir do diretor da agência a proposta quase suicida de resgate, Rato também aceita a condição cabal para executar a nova missão que lhe fora designada: para desatrelar qualquer ligação sua com a agência e os países que a financiam, ele precisa ser demitido. A aceitação de Rato para o absurdo que lhe é proposto é completamente subserviente. Continuar a ler