O retrato da decadência

Um título simples pode revelar um projeto narrativo poderoso, alegórico e múltiplo. Acre, de Lucrecia Zappi, é este tipo de romance de costura tão bem trançada que fazer o desnovelo das suas possibilidades é mais do que apenas uma experiência de leitura, é um prazeroso exercício de cavar interpretações e de descoberta de múltiplos níveis narrativos que podem estar na óbvia superfície dos acontecimentos do enredo ou nas entrelinhas que não se dão de bandeja para o leitor mais afoito.

O segundo romance de Zappi é um ping pong da memória. Ao contar a história de Oscar e Marcela — ele o narrador, ela a protagonista dúbia —, a autora nascida na Argentina radicada brasileira, e que hoje mora nos Estados Unidos, vai desnudar temas clássicos da literatura nacional — a insegurança masculina, o ciúme, a decadência moral e ética de uma classe média emergente — com bastante segurança. Continuar a ler

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Um Típico Grunberg

Ao ler Tirza, ficava clara a metáfora da inadequação e a forma como Grunberg conduz isso na costura da trama permite coletar diversos indicativos de uma estrutura completamente voltada para a clausura em que o leitor se enreda e da qual não consegue se desvencilhar.

No seu segundo romance, publicado no Brasil pela Rádio Londres com tradução de Mariângela Guimarães, a sensação é a mesma. A claustrofobia no centro nervoso do enredo continua imperando. Ao contrário do homem de meia idade de Tirza, em O homem sem doença encontramos o jovem Samarendra, arquiteto nascido em Zurique que aparenta acreditar na arquitetura como elemento de impacto social positivo. Tem uma namorada, mora com a mãe e a irmã que sofre de uma síndrome rara que lhe impossibilita os movimentos do corpo. Porém, sua vida não tem nada muito fora da curva da normalidade. Continuar a ler

O exorcismo dos afetos

Um amor incômodo é o primeiro romance de Elena Ferrante. Sua leitura vale exatamente como uma análise dos elementos que comporiam a melhor parte da obra da escritora italiana. Todos os recursos que se tornariam clássicos nos romances de Ferrante já estão de forma embrionária neste seu primeiro, mesmo que seja numa elaboração menos complexa: as lembranças como gatilhos para reflexões da vida, o conflito pessoal da protagonista, fortes conclusões sobre o sentimento amoroso, a posição das mulheres, sua necessidade de enfrentamento de demônios do passado, seus exorcismos e suas relações com os ambientes de infância, sempre em primeira pessoa e com uma narradora feminina.

Lançado no Brasil pela editora Intrínseca na tradução de Marcello Lino, Um amor incômodo é a história de Delia que volta para sua terra natal, Nápoles, já uma senhora nos seus quarenta anos, para cumprir uma missão fúnebre: enterrar a própria mãe. A relação de Delia com a mãe Amalia, fora envolta numa série de problemas e não era das mais agradáveis e ternas. Contudo, na sua estadia em Nápoles para providenciar os detalhes para o enterro de Amalia, Delia entra em contato com vários acontecimentos que revelam como foram os últimos dias de sua mãe e muito sobre os seus erros do passado. Continuar a ler

A Fluidez da Estranha Existência

Maggie Nelson e os caminhos para entender o que é a existência queer

Antoine Roquetin, personagem-narrador de A Náusea de Jean-Paul Sartre, imerso em suas reflexões a respeito dos problemas que envolvem o fato de existir diz que “o essencial é a contingência (…) Existir é simplesmente estar aqui”. Encuca muito pensar nessa afirmação feita num dos mais importantes romances do século passado. O que define uma existência? Há na Filosofia muitas respostas para essa pergunta. Muitas delas nos suscitam mais indagações, algumas — que se pretendem definitivas — deixam a sensação da ausência de algo, e outras não dizem nada apesar ocupar imensos volumes de tratados filosóficos. Porém é a resposta sartreana que parece sintetizar a ideia de que certas complexidades que infligimos sobre o existir não passam de recursos de aprisionamento, que na verdade existir, essencialmente, é um processo mais simples. É somente estar existindo.

Dar conta deste problema, com suas labirínticas implicações, não é tarefa que tenha alguma facilidade. É um dolorido processo. Processo esse que é atravessado pelo signo da mutabilidade. Porque assim como o existir, conseguir responder aos problemas da existência é tentar resolver um quebra cabeça cuja a imagem a ser montada muda a cada encaixe das peças. Mesmo que a resposta de Roquetin, no seu monólogo existencialista, sumarize a questão, o seu processo de pensar nela é doloroso — e apaixonado. Há uma intensa paixão — não aquela que consola, afaga, mas a paixão dilacerante — no romance do filósofo francês. Continuar a ler

Os Excluídos da História – Michelle Perrot

A concepção de que a História — esta com H maiúsculo —, enquanto entidade detentora do poder de narrativa que apresenta às gerações posteriores os feitos, os principais acontecimentos, conquistas e processos evolucionais (tecnológicos e sociais) das gerações anteriores é tido como um ponto pacífico. Nos últimos 60 anos principalmente — com a ressalva das tentativas que foram pioneiras e que constam de pelo menos um século antes — tem-se contestado essa perspectiva. Se a história é o registro dos fatos que atravessam-na, hoje se trabalha com o conceito de “local de fala”, que altera por completo as ideias basilares da narrativa histórica clássica.

Tão familiar ao leitor que singra os tenebrosos setores das redes sociais, o conceito de “local de fala” se popularizou. Como todo conceito fechado nas áreas de discussão da academia, o da fala e do seu posicionamento sócio-econômico-cultural sofreu distorções que se flexibilizaram de acordo com os objetivos do grupos que lhe fizeram uso. No entanto, não é intenção deste curto e introdutório texto entrar no debate do conceito e resguarda-se de não fazer caminho nesta seara. O que nos interessa aqui é tão somente a compreensão de que também a história foi composta a partir de uma perspectiva social específica — uma outra não-novidade. Continuar a ler