Lampião em detalhes

Virgolino Ferreira. Virgulino Ferreira. Capitão Virgulino. Capitão Lampião. Lampião. O nome, o título ou o apelido — não importa como se chame, mas, ao pronunciar o nome de Lampião, mesmo o mais inculto dos sujeitos saberá de quem se trata, saberá que estamos falando da lendária figura, do mítico cangaceiro, responsável pelas mais absurdas atrocidades e dono das histórias mais poderosas do passado recente do país.

Virgulino Ferreira é um dos personagens mais interessantes e ricos da história do país (analisado até pelo historiador britânico Eric Hobsbawm). Rodeado de lendas sobre si e seus feitos, a biografia de Lampião sempre careceu de veracidade. Muito sobre ele se fala, pouco de fato sobre ele se conhece.

Muitas vezes retratado como a maior figura do banditismo rural do começo do século passado, ladrão sanguinário e dado a crueldades, também teve sua trajetória retratada como a de um nordestino miserável que viu no crime a saída para as injustiças sociais pelas quais passou na vida. Continuar a ler

Testamento literário

Nostálgico e reflexivo, “Aqui de dentro” é o último suspiro de um dos maiores poetas de uma América prestes a desaparecer

O nome nos chega e a familiaridade é imediata. Samuel Shepard. Sam. O que carregava em si a difusão das múltiplas personalidades que o ocuparam a vida inteira neste ofício da atuação. Samuel Shepard Rogers III, o pomposo nome daquele foi soberano dentro e fora dos palcos.

Sam Shepard, o confessor de si, o que não tinha medo da autorrevelação — suas peças dizem muito claramente isso —, fez do seu último suspiro literário o palco de tantas outras confissões. E, para isso, escreveu o primeiro romance da sua carreira.

Lançado um pouco antes da sua morte no ano passado, Aqui de dentro é o único romance do percurso de escrita do dramaturgo e roteirista — responsável, entre outros, pelo roteiro do primoroso Paris Texas, de Wim Wenders.

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Uma leitura chomskyana do acúmulo de poder e riqueza

Quando Thomas Piketty publicou o seu estudo Capital no Século XXI, um dos maiores levantamentos da distribuição de renda numa linha histórica das últimas décadas, o resultado foi chocante, mas não surpreendente. O economista francês e a sua equipe constataram que estamos no ápice da desigualdade, com uma pequena parcela da população mundial acumulando um excedente de riqueza fora de qualquer projeção e sem qualquer forma de controle ou regulação sobre ela.

O sistema econômico capitalista absorveu anormalidades como essa de forma normatizada, tornando-se anomalias que seriam absurdas em outras configurações de um sistema de economia, mas que no seu seio se tornam características normais. Como essa riqueza e poder se acumularam concentrando-se somente nesse 1% super-rico, tornando-os, segundo a expressão de Adam Smith, “senhores da humanidade”? Continuar a ler

A forma e a disforma

Se é árdua a tarefa da leitura de poesia — os prazeres têm seus enganosos meandros —, a de escrevê-la é tecer a costura de um tecido que não tem fim, o diálogo entre tantas imagens, cenas e figuras, pretendentes de uma saga penelopiana que se revela por meio de pistas e chaves de interpretação.

O livro de Laura Erber, publicado ano passado pela Relicário, é esse jogo de pistas e chaves. A Retornada é um pequeno e imenso livro. Como se fosse um pequeno rio, onde não desconfiamos, à primeira vista, da sua profundidade. O livro de Erber é exatamente assim: este pequeno rio que, na hora do mergulho, revela-se uma imersão profunda e sem volta.

A epígrafe do livro é o ponto de revelação das costuras feitas por Laura: “Posso escrever poemas? Por uma espécie de contágio?”. A frase de Sylvia Plath é a chave que abre as possibilidades de leitura da obra. O conceito de contágio é este em que se transmite algo — quase sempre uma doença — pelo contato. Continuar a ler

A anatomia de uma relação amorosa

Kundera talvez seja um dos maiores romancistas vivos da Europa. Autor do inolvidável “A insustentável leveza do ser”, clássico de proporções gigantescas e uma das mais fortes ficções que desmembra as relações humanas e suas complexidades, Mila Kundera é, tal qual Roland Barthes e o seu “Fragmentos de um discurso amoroso”, um leitor das relações amorosas. Isso fica claro e notório no seu curto romance “A identidade” (Companhia de Bolso, 2009. Traducão de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca).

Como toda boa narrativa, o título de Kundera não vem aleatório. Ao falar da história do casal Jean-Marc e Chantal, o escritor promove um conjunto de reflexões sobre as formas em que as relações amorosas se dão. Jean-Marc e Chantal são um casal que habituaram-se um com o outro e vivem agora a monotonia de uma relação instável – porém sem conflitos apoteóticos, tudo está ali na sutileza das reflexões. Continuar a ler