A América Nazista de Bolaño

Sempre que temos em mente a ideia de defensores do nazismo, o imaginário coletivo se responsabiliza em procurar a imagem mais estereotipada possível para nos apresentar este indivíduo abjeto que vê algum sentido num sistema de pensamento igualmente abjeto.

Nos vem a mente uma pessoa raivosa, descontrolada e absurda, que jorra ódio gratuito em toda e qualquer oportunidade sobre os grupos que ela constituiu como inimigas da sua visão de mundo perfeito.

E para os latino-americanos essa visão traz na sua própria essencialidade uma dimensão abstrata de distância: “eles”, os nazistas alemães, que estão “lá”, longe, distantes da efervescente realidade do continente americano. Continuar a ler

O poeta do chão firme

“O autor não responde pelos incômodos que seus escritos possam provocar”, diz Nicanor Parra em “Advertência ao Leitor”, poema do seu “Poemas e Antipoemas”, de 1954, obra responsável por uma tremenda revolução na poesia chilena.

O poema está na coletânea “Só Para Maiores de Cem Anos — Antologia (Anti)Poética” (288 páginas) — que reúne, em 75 poemas, uma parte expressiva da obra de um dos maiores nomes da poesia da literatura ibero-americana. Edição bilíngue publicada pela Editora 34, a obra foi traduzida por Cide Piquet e Joana Barossi, que assina um posfácio tocante e pessoal.

A tradução é um primoroso trabalho de manutenção da linguagem, da marcação, e da temporalidade do ritmo de Parra — que funciona perfeitamente alinhada com os poemas em idioma original, no qual o leitor pode cotejar e destrinchar o elaborado exercício formulado a quatro mãos por Barossi e Piquet. Um exercício que mantém um profundo respeito à poesia de Parra e à sua linguagem. Continuar a ler

Lampião em detalhes

Virgolino Ferreira. Virgulino Ferreira. Capitão Virgulino. Capitão Lampião. Lampião. O nome, o título ou o apelido — não importa como se chame, mas, ao pronunciar o nome de Lampião, mesmo o mais inculto dos sujeitos saberá de quem se trata, saberá que estamos falando da lendária figura, do mítico cangaceiro, responsável pelas mais absurdas atrocidades e dono das histórias mais poderosas do passado recente do país.

Virgulino Ferreira é um dos personagens mais interessantes e ricos da história do país (analisado até pelo historiador britânico Eric Hobsbawm). Rodeado de lendas sobre si e seus feitos, a biografia de Lampião sempre careceu de veracidade. Muito sobre ele se fala, pouco de fato sobre ele se conhece.

Muitas vezes retratado como a maior figura do banditismo rural do começo do século passado, ladrão sanguinário e dado a crueldades, também teve sua trajetória retratada como a de um nordestino miserável que viu no crime a saída para as injustiças sociais pelas quais passou na vida. Continuar a ler

Testamento literário

Nostálgico e reflexivo, “Aqui de dentro” é o último suspiro de um dos maiores poetas de uma América prestes a desaparecer

O nome nos chega e a familiaridade é imediata. Samuel Shepard. Sam. O que carregava em si a difusão das múltiplas personalidades que o ocuparam a vida inteira neste ofício da atuação. Samuel Shepard Rogers III, o pomposo nome daquele foi soberano dentro e fora dos palcos.

Sam Shepard, o confessor de si, o que não tinha medo da autorrevelação — suas peças dizem muito claramente isso —, fez do seu último suspiro literário o palco de tantas outras confissões. E, para isso, escreveu o primeiro romance da sua carreira.

Lançado um pouco antes da sua morte no ano passado, Aqui de dentro é o único romance do percurso de escrita do dramaturgo e roteirista — responsável, entre outros, pelo roteiro do primoroso Paris Texas, de Wim Wenders.

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Uma leitura chomskyana do acúmulo de poder e riqueza

Quando Thomas Piketty publicou o seu estudo Capital no Século XXI, um dos maiores levantamentos da distribuição de renda numa linha histórica das últimas décadas, o resultado foi chocante, mas não surpreendente. O economista francês e a sua equipe constataram que estamos no ápice da desigualdade, com uma pequena parcela da população mundial acumulando um excedente de riqueza fora de qualquer projeção e sem qualquer forma de controle ou regulação sobre ela.

O sistema econômico capitalista absorveu anormalidades como essa de forma normatizada, tornando-se anomalias que seriam absurdas em outras configurações de um sistema de economia, mas que no seu seio se tornam características normais. Como essa riqueza e poder se acumularam concentrando-se somente nesse 1% super-rico, tornando-os, segundo a expressão de Adam Smith, “senhores da humanidade”? Continuar a ler