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a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe

30/09/2016

corpomaquinadefazerespanhoisA língua, sob a batuta do trabalho de grandes escritores, é capaz de tomar formas insuspeitadas; capaz de alterar a perspectiva de um fato, de narrar, sob o verniz da excelência, uma história e fazer dela um marco, um acontecimento. É o poder da criação narrativa. Narrar, em ficção, é essa capacidade de transpor os limites da realidade usando a própria realidade (ou não) como matéria prima; é usar as forças do real para compor o que dele foge. Nesse campo se divide os bons e maus narradores, aqueles que detém para si, de independentes formas, o poder da narrativa — dominando-a ou não. E essa ação é acertadamente chamada de “poder” porque nela há profundas capacidades de mudanças naquele que recebe sua influência. O poder, essa potência de domínio de uma linguagem — seja ela política, ficcional, institucional ou religiosa, ou mesmo uma mescla de todas as anteriores juntas — que exerce no outro uma espécie de controle — emocional, comportamental ou reflexivo, ou também a junção de todas essas numa só —, consensual ou não. Ler mais…

Uma Casa na Escuridão – José Luís Peixoto

28/09/2016

corpoescuridaoOs limites da idealização do outro, em sentimentos amorosos, parece sempre ser gasoso, sem contornos muito bem definidos. O sentimento apodera-se do apaixonado, do amante, e quando se dá conta, as consequências do sentimento — impulsionados por uma perspectiva romântica — já não se suporta sob qualquer limite da racionalidade. Nesse romance do português José Luís Peixoto, encontramos um escritor sem nome que narra a história de sua vida e de um amor que nutre por uma musa que nunca chega a dar as caras durante o enredo. Sabemos da sua existência porque ele conta, repetidas vezes da sua presença, que faz morada dentro de si e de um poderoso texto que ele guarda consigo sob cuidadosa proteção.

O período em que a trama se desenlaça não fica claro. O narrador, dotado de uma voz compassada e afeito a expressões carregadas de efeitos visuais, conta ao leitor das suas aventuras, e vai nos apresentando sua história em sete etapas, que começam na fase mais apaixonada em que fala do amor, de como esse sentimento lhe preenche a existência, até chegar na morte, fim trágico de todo verdadeiro amante. Ler mais…

A Viagem Vertical – Enrique Vila-Matas

20/09/2016

1corpoviagemO protagonista do romance a máquina de fazer espanhóis do português Valter Hugo Mãe define a velhice, esta derradeira etapa da vida, como um processo de retorno, em que desaprende-se ao invés de aprender, o que “faz todo sentido que assim seja para que nos afundemos na iminência do desaparecimento”, diz. É nesta idade terceira em que há o deslumbre — ou mesmo ilusão — de que a vida deva acalmar-se, que tudo que poderia ter sido feito já o foi e a espera do encontro com o fim é apenas uma questão de tempo; que o que deveria ser aprendido já aconteceu e que a viagem dessa existência deva chegar às suas últimas linhas muito em breve.

Era dessa forma que Federico Mayol já enxergava o seu percurso por essas etapas da vida. Bem sucedido, dono de uma farta gama de bens provindos da sua empresa de seguros, e ex-parlamentar do partido nacionalista catalão, Mayol nunca viu-se ocupado com questões intelectuais, jamais se viu interessado em assuntos que não fossem estritamente práticos. Estava ele no melhor que a zona de conforto pode oferecer. Essa vida confortável e encaixada na rotina dos findos dias é alterada de forma abrupta por Julia, sua esposa, que o expulsa de casa, pede a separação definitiva sob a justificativa de querer conhecer a si, de não mais viver na resignada função das necessidades do marido. Ler mais…

A Invenção de Morel – JP. Mourey e A. Bioy Casares

13/09/2016

1corpoainvencaodemorelUm fugitivo condenado à prisão perpétua pela Justiça chega sozinho a uma ilha deserta. Nos primeiros dias crê estar só na ilha, que não apresenta nenhum sinal de ocupação por outras pessoas, com exceção de algumas construções abandonadas. Contudo, passado alguns dias, depara-se com alguns veranistas finamente trajados que espalham-se pela ilha, um amplo complexo de construções, com máquinas imbricadas e de aspecto tecnológico avançado. Estranhando essas presenças inusitadas, o narrador da história passa a observar, à revelia, seus passos e percebe alguns padrões comportamentais se repetindo, como se todos os diálogos travados entre eles fossem ensaiados. Intrigado com essa repetição milimetricamente orquestrada, e influído por uma paixão cega pr uma das veranistas, o protagonista vasculha a labiríntica mansão instalada no meio da ilha e depara-se com a resposta para suas dúvidas. É então que um inteligente e imbrincado invento, criado pelo personagem Morel, desvela-se, colocando-o numa situação de escolha: quebrar com aquela perpetuidade ou mantê-la. Ler mais…

O Adulto – Gillian Flynn

07/09/2016

o-adulto-corpoUma jovem especializada numa modalidade de trabalho pouco usual: masturbadora profissional. “Parei de bater punheta para os outros não por ser boa. Parei de bater punheta por ser a melhor”. Eis a frase de abertura da narrativa curta da norte-americana Gillian Flynn. Essa jovem que precisou aprender os trejeitos da sobrevivência dos mais espertos e aptos nas ruas, aplicando pequenos golpes durante a infância e adolescência, é a narradora de O Adulto – publicado pela editora Intrínseca com tradução de Alexandre Martins. Depois desse percurso pelas ruas, ela calha de exercer a profissional que oferece resultado rápido e com pouco envolvimento, apesar da clientela fiel e variada. A narradora é uma típica personagem de Flynn: irônica, inteligente, sagaz e com tino para ler os sinais que as pessoas indicam ao conversar com ela.

Com problemas no punho por causa do exercício de sua profissão, que se dava nos fundos de uma Casa de Tarô, ela passa a atender, por exigência de Viveca — sua excêntrica patroa —, as demandas de adivinhações do lugar. Habilmente treinada nas ruas na arte de aplicar mentiras, a protagonista não vê muita dificuldade em atender o público da casa, composto basicamente de mulher ricas e estúpidas. É sob essas circunstâncias que encontra Susan Burke, mulher bem afeiçoada e rica da região que lhe vem, meio que a revelia, trazer suas dificuldades muito específicas. Enxergando nisso uma oportunidade de faturar, a falsa vidente masturbadora logo armar-se de seus truques fajutos para tentar enganar Susan o máximo de tempo que for possível. Vai até a sua mansão, um bangalô antigo modernamente reformado na área interna, que carrega uma suposta maldição. É aí que as coisas mudam de tom. Ler mais…