100 anos de literatura holandesa: uma entrevista com Daniel Dago

A literatura holandesa ainda tem pouca guarida em terras brasileiras. É uma língua com poucos tradutores, e com autores que raramente são traduzidos em qualquer idioma. Expandir os horizontes de alcance da literatura produzida na terra dos batavos tem se configurado num desafio hercúleo. Desafio esse que o tradutor Daniel Dago assumiu como missão de vida. O tradutor lança agora, pela Zouk, a edição de Contos Holandeses (1839-1939) que introduz diversos nomes fundamentais da literatura da Holanda aos leitores brasileiros.

Dago conversou com o blog um pouco sobre o processo de produção da antologia, sobre os ossos do seu ofício, seus projetos futuros, mercado do livro no Brasil e dos colegas de trabalho que admira. Confira a entrevista: Continuar a ler

Uma noite na praia — Elena Ferrante

Celina é a boneca preferida de Mati. É também a protagonista que narra em primeira pessoa essa curta história de abandono. Mati, como toda criança, tem um brinquedo preferido. O dela, é a boneca Celina, que carrega para todo lugar e com quem estabelece uma ligação íntima. Como é habitual, numa das idas da família à praia, Mati leva Celina a tira-colo. Mas a rotina de diversão das duas é quebrada quando o pai de Mati chega com um gato na cena e dá para a garota de presente. É aí que o cenário muda. Celina, até então, a favorita de Mati, de repente se vê posta de lado. É esquecida, abandonada.

Único trabalho, conhecido até agora, infanto-juvenil da autora italiana Elena Ferrante, Uma noite na praia (Intríseca, tradução de Marcello Lino e ilustrado pela Mara Cerri) é o tipo de obra que você vai querer evitar que o seu filho leia antes dos 18 anos. Não é necessariamente uma leitura leve, porém para uma obra direcionada ao público infantil, está longe de ser uma platitude doce e deglutível, o que não implica numa depreciação das qualidades que Ferrante consegue imprimir no livro. É uma leitura que foge da abordagem óbvia e puxa para reflexões pouco infantis, num ambiente sombrio, triste, e melancólico. A escrita não perde o viço, justo por estar atravessada pela limpidez de palavras simples, mais diretas — porque, para todos os efeitos, a obra é para crianças. Continuar a ler

Mensur – Rafael Coutinho

O quadrinho nacional tem caminhado bem. Obras monumentais, traduções correndo à solta e um fluxo de criação e qualidade bastante acima da média. Isso é um excelente sinal. Indica maturidade de uma arte que até bem pouco tempo contava com escassos nomes dando conta da produção. Um dos grandes nomes nesse segmento é Rafael Coutinho, conhecido por produzir, junto com o escritor Daniel Galera, a HQ Cachalote, um sucesso de crítica e público.

Coutinho estava ausente dos holofotes nos últimos anos. Alguns poucos títulos vieram depois de Cachalote, mas nada muito relevante. Nos últimos sete anos, no entanto, ele esteve trabalhando nessa que talvez possa ser considerada uma das suas melhores obras: Mensur, que acaba de sair do prelo através do selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras. Continuar a ler

Irregularidade não é um pecado

Um breve perfil do escritor português José Saramago e da sua poderosa e inconstante obra

José Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, prefiro o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa da pressão e todo aquele bláblá corriqueiro.

Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia estúpida de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas. Continuar a ler

Tirza – Arnon Grunberg

roedortirzatextpoUm pai controlador, um editor de livros medíocre, um marido apagado, retraído, com tons neuróticos de percepção do mundo. Esse é Jörgen Hofmeester, que vive com a filha mais nova num bairro de classe média, típico da Europa. Jörgen prepara uma festa para Tirza, sua caçula, pois ela está preste a terminar os estudos e irá, antes de entrar na faculdade, para uma viagem para África. A festa de despedida precisa ser perfeita. Ela representa não apenas um ato afetivo de um pai para a filha, mas a confirmação de que ele não é um derrotado – algo que o leitor vai confirmando a cada página virada.

A festa que Jörgen dá para Tirza é o pontapé para um romance que começa em tons leves e vai adotando tons sombrios a medida que o enredo desenvolve-se. O holandês Arnon Grunberg pega elementos aparentemente comuns para traçar um romance visceral. É a visceralidade lenta e parcimoniosa que consome o leitor em cada página. Jörgen é o espectro da normalidade forçada. Com duas filhas, Tirza e Ibi – essa segunda que logo desvencilha-se do seio familiar e toma para si a independência -, e uma esposa que o abandona para viver aventuras amorosas juvenis – e que depois retorna como se nada houvesse acontecido, Hofmeester vive sob a pressão do acaso. Revela-se um pessimista – que lê Dostoiévski todos os dias para sua caçula antes de dormir, como forma de educá-la para o mundo. É um desacreditado do mundo (e talvez por todo mundo). Continuar a ler