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Baseado em Fatos Reais – Delphine de Vigan

15/01/2017

roedor-baseado-em-fatos-reaistextoA escritora francesa Delphine de Vigan goza de relativa fama. No seu país de origem é responsável pelo livro Rien ne s’oppose à la nuit, que se transformou num grande sucesso nas terras de Proust. Esse seu best seller conta a história de sua família e mescla ficção e realidade. Graças ao bem sucedido romance, Delphine se vê então encurralada por leitores que procuram saber quais aspectos do seu livro eram de fato reais e quais eram frutos de sua imaginação. Um tipo de reação comum no público que hoje consome com muita facilidade qualquer coisa que esteja sob o título de “baseado em fatos reais”. Há uma espécie de sede nessa identificação, de saber o que o “real” pode nos trazer de surpreendente, de estarrecedor, ou mesmo de entretenimento.

Delphine, após a explosão que foi Rien ne s’oppose à la nuit, se vê enjaulada, com extrema dificuldade de iniciar seu próximo romance. Foi graças a experiência de exposição e o sucesso que seu Rien… lhe trouxe que ela pôde montar o argumento principal do seu romance posterior e seu primeiro publicado no Brasil, Baseado em fatos reais (Intrínseca), cujo o título não esconde a ironia da inspiração. Ler mais…

Salinger – David Shields e Shane Salerno

14/01/2017

roedorsalingertexto“O que realmente me toca é um livro que, quando você acabou de ler, lhe dá o desejo de que o autor fosse um tremendo amigo seu e que você pudesse telefonar para ele sempre que sentisse vontade.”, diz em dado momento um dos personagens mais famosos da literatura universal, Holden Caulfield na narrativa de um dos mais expressivos romances norte-americanos, que todo leitor minimamente habituado ao cânone literário já deve ter ouvido falar, ou ter lido ou alimenta a curiosidade em ler: O apanhador no campo de centeio — que até hoje, em pleno 2017, ainda não recebeu uma tradução justa e que faça jus a força do livro. Por isso, me permita o parêntese logo no início dessa nossa conversa e se faça uma gentileza, leia The Catcher in the Rye no original, que é lá que reside toda a ironia e potência da escrita de Salinger. Curiosamente, a frase do personagem não parecia ser muito a vontade do autor em relação ao seus leitores.

Jerome David Salinger, compõe o grupo de raros autores em que a palavra “enigmático” pode ser aplicada com justeza. A imagem do escritor solitário, perdido em seus devaneios e criações, encaixam com Salinger de forma espontânea. Sobre essa vida silenciosa que se debruçaram por mais dez anos, o cineasta Shane Salerno e o jornalista David Shields. Na tentativa de encaixar algumas peças do quebra-cabeça que Salinger representa, entrevistaram durante esse período mais de 200 pessoas, algumas delas extremamente ligadas ao escritor autor de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira. Ler mais…

Dias de Abandono – Elena Ferrante

30/12/2016

dias-de-abandono-elena-ferrante-post“Uma tarde de abril, logo após o almoço meu marido me comunicou que queria me deixar.” É assim que Olga anuncia a determinação de Mario, seu marido por quinze anos, em lhe abandonar. A notícia chega inesperada, repentina em meio aos eventos corriqueiros da casa — as crianças brigando, o cachorro dormindo ao lado do aquecedor. Olga fica paralisada e assim é deixada por seu agora ex-marido, como uma “pedra ao lado da pia”.

Esse choque que atinge Olga não lhe atravessa somente no momento inicial da ruptura do seu casamento. Rupturas como essas não se findam de forma tão abrupta, elas perpassam em demorado tempo as entranhas mentais. E foi como Olga ficou, nesse primeiro momento: tentando reexaminar, numa visão em retrospectiva do relacionamento, quais os sinais indicados de uma crise que não foram percebidos. Esse sentimento se apossa de Olga que, de uma hora para outra, vê o outro lado da cama vazio, e se vê com o desafio de cuidar sozinha de uma casa, duas crianças e um cachorro. Ler mais…

a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe

30/09/2016

corpomaquinadefazerespanhoisA língua, sob a batuta do trabalho de grandes escritores, é capaz de tomar formas insuspeitadas; capaz de alterar a perspectiva de um fato, de narrar, sob o verniz da excelência, uma história e fazer dela um marco, um acontecimento. É o poder da criação narrativa. Narrar, em ficção, é essa capacidade de transpor os limites da realidade usando a própria realidade (ou não) como matéria prima; é usar as forças do real para compor o que dele foge. Nesse campo se divide os bons e maus narradores, aqueles que detém para si, de independentes formas, o poder da narrativa — dominando-a ou não. E essa ação é acertadamente chamada de “poder” porque nela há profundas capacidades de mudanças naquele que recebe sua influência. O poder, essa potência de domínio de uma linguagem — seja ela política, ficcional, institucional ou religiosa, ou mesmo uma mescla de todas as anteriores juntas — que exerce no outro uma espécie de controle — emocional, comportamental ou reflexivo, ou também a junção de todas essas numa só —, consensual ou não. Ler mais…

Uma Casa na Escuridão – José Luís Peixoto

28/09/2016

corpoescuridaoOs limites da idealização do outro, em sentimentos amorosos, parece sempre ser gasoso, sem contornos muito bem definidos. O sentimento apodera-se do apaixonado, do amante, e quando se dá conta, as consequências do sentimento — impulsionados por uma perspectiva romântica — já não se suporta sob qualquer limite da racionalidade. Nesse romance do português José Luís Peixoto, encontramos um escritor sem nome que narra a história de sua vida e de um amor que nutre por uma musa que nunca chega a dar as caras durante o enredo. Sabemos da sua existência porque ele conta, repetidas vezes da sua presença, que faz morada dentro de si e de um poderoso texto que ele guarda consigo sob cuidadosa proteção.

O período em que a trama se desenlaça não fica claro. O narrador, dotado de uma voz compassada e afeito a expressões carregadas de efeitos visuais, conta ao leitor das suas aventuras, e vai nos apresentando sua história em sete etapas, que começam na fase mais apaixonada em que fala do amor, de como esse sentimento lhe preenche a existência, até chegar na morte, fim trágico de todo verdadeiro amante. Ler mais…