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Tecedor de Palavras (Ajkem Tzij) – Humberto Ak’abal

10/06/2011

tecedordepalavrasTalvez esse nome seja novo para você. Se for, sem problema, muitos leitores brasileiros não conhecem a obra do Humberto Ak’abal. Você não está sozinho. Ele realmente é pouquíssimo conhecido por aqui. Mas felizmente, ele está entre nós. E tem grandes entusiastas de sua obra por aqui.

Ak’abal é um poeta gualtemateco, nascido Momostenango, Totonicapán, obviamente na Guatemala. Ele escreve de na sua língua natal: o quiché, que depois ele mesmo verte para o espanhol.

Conheci Ak’abal através de um livro que um amigo me presenteou. A única obra que tenho dele, o único livro dele que li. Mas foi o suficiente para que ele me cativasse a ponto de eu poder me denominar seu fã.

Humberto Ak’abal não é um poeta no sentido que costumamos ter quando pronunciamos (ou lemos) essa palavra tão cheia de significados, mas que (quase) sempre vemos sob os olhares ferinos dos poetas clássicos; ele não está dentro da imagem tradicional que temos de um poeta. Ele vem de uma cultura distinta, que fala e se expressa de outra forma. Outro poeta conseguiu expressar muito melhor do que eu conseguiria, se tentasse, que é o Afonso Romano de Sant’Anna (que um grande admirador e o compilador do livro-título deste post), como se deve encarar os poemas de Ak’abal: “Para lê-lo temos que mudar nossa perspectiva de recepção”. Um poeta índio maia, que escreve sem estar na sombra dos canonizados. Nada de Baudelaire, Maiakovski, Mallarmé, Camões. Eles não influenciam em nada (o que pode parecer um exagero da minha parte, sei) a obra de Ak’abal. Ele vem de outra tradição poética, tem outra dicção, outra maneira de escrever, sob a influência da poesia índia pré-colombiana.

No livro Tecedor de Palavras (Melhoramentos Livraria, 2006), uma seleção de poemas feita por Afonso Romano de Sant’Anna numa edição bilíngüe no português e o quiché, Humberto Ak’abal mostra a beleza comovente e simples de sua poesia. Com imagens que remetem cenas sentimentais, o poeta nos sensibiliza (até um coração duro, igual ao meu, dá uma derretida ao ler os poemas). Ak’abal é um poeta do cotidiano, que faz anotações em poemas que lembram os hai-kais, que possuem uma simplicidade complexa. São poemas que podem até ser chamados de infantis, sem pretensão alguma, sem floreios lingüísticos, sem grandes elaborações semânticas. Humberto usa palavras comuns para nos reensinar a ver a beleza das coisas que nos ocorrem todos os dias.

Vou dar um exemplo do que estou a dizer:

“Amanhece.

O Sol come a neblina

e começa a pintar

caminhos,

árvores,

casinhas,

animais,

pessoas…

E a cada um

lhe põe sombra.” (poema A Cada Um, p. 45)

Esse poeta gualtemateco, expressa seus sentimentos através da natureza e não da cultura (como os grandes ícones da poesia ocidental). Vale senti-lo, vale lê-lo. Com essa quebra de paradigma de leitura literária, esse poeta-índio tem muito mais a nos ensinar com suas simples palavras em curtos poemas do que imaginamos.

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