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meu primeiro Borges

07/07/2011

Um livro velho de capa puída, demonstrando ser muito lido, muito folheado, emprestado por meu apaixonado professor de Filosofia, um fã tão descarado de Borges que me envergonho de conversar sobre esse autor com ele, foi meu primeiro contato com a obra do autor argentino. Borges é um autor que muito ouvi falar e nunca tinha sentado para ler. Já havia me debruçado sobre alguns de seus contos e poemas, mas nunca tinha dado-me a oportunidade de ler um livro de sua vasta obra. Hoje terminei deslumbrado esse seu O Livro de Areia (1978 pela Editora Globo, com tradução de Lígia Morrone Averbuck), que é um pequeno conjunto de contos fantásticos, que surpreendem o leitor desatento por sua inventividade. A erudição de Borges exprime-se em cada referência livresca que ele expõem em seus contos de forma humilde, sem sinal algum do habitual pedantismo dos eruditos. Mas não sei bem o que escrever, não sei bem como começar a analisar; talvez eu deva ler mais livros dele. Por causa dessa minha inabilidade para escrever sobre um monstro sagrado das letras, deixo com vocês, meus três leitores eventuais, o epílogo que Borges escreveu para seu livro:

“Escrever o prólogo de contos ainda não lidos é tarefa quase impossível, já que exige a análise de tramas que não convém antecipar. Prefiro, por conseguinte, um epílogo.

O relato inicial retoma o velho tema do duplo, que motivou tantas vezes a pena de Stevenson. Na Inglaterra, seu nome é fetch ou, de maneira mais livresca, wraith of the living, na Alemanha, doppelgaenger. Suspeito que um dos seus primeiros apelidos foi alter ego. Esta aparição espectral terá procedido dos espelhos do metal ou da água, ou simplesmente da memória, que faz de cada um um espectador e um ator. Meu dever era conseguir que os interlocutores fossem bastantes diferente para serem dois e bastante parecidos para serem um. Valerá a pena declarar que concebi a história
às margem do rio Charles, na Nova Inglaterra, cujo curso frio me lembrou o distante curso do Ródano?

O tema do amor é muito comum em meus versos; não assim em minha prosa, que não guarda outro exemplo senão Ulrica. Os leitores notarão a afinidade formal com O Outro.

O Congresso é, talvez, a mais ambiciosa das fábulas deste livro; seu tema é uma empresa tão vasta que se confunde ao fim com o cosmo e a soma dos dias. O opaco princípio quer imitar o das ficções de Kafka; o fim quer se elevar, sem dúvida em vão, aos êxtases de Chesterton ou de John Bunyan. Não mereci nunca semelhante revelação, mas procurei sonhá-la. Em seu decurso, entreteci, segundo é meu hábito, traços autobiográficos.

O destino que , segundo a fama, é inescrutável, não me deixou em paz enquanto não perpetrei um conto póstumo de Lovecraft, escritor que sempre julguei um parodista involutário de Poe. Acabei por ceder; o lamentável fruto se intitula There are more things.

A Seita dos Trinta, resgata, sem o menor apoio documental, a história de uma heresia possível.

A Noite das Dádivas é talvez o relato mais inocente, mais violento e mais exaltado que este volume merece.

A Biblioteca de Babel (1941) imagina um número infinito de livros; Undr e O Espelho e a Máscara, literaturas seculares que constam de uma só palavra.

Utopia de Um Homem Que Está Cansado é, a meu juízo, a peça mais honesta e melancólica da série.

Sempre me surpreende a obsessão ética dos americanos do Norte; O Suborno quer refletir esse traço.

Apesar de John Felton, de Charles Corday, da conhecida opinião de Rivera Indarte (“É ação santa matar Rosas”) e do Hino Nacional Uruguaiao (“Se tiranos, de Bruto o punhal”) não aprovo o assassinato político. Seja o que for, os leitores do solitário crime de Arredondo quererão saber seu fim. Luís Melían Lafinur pediu sua absolvição, mas os juízes Carlos Fein e Cristóbal Salvañac o condenaram a um mês de reclusão celular e a cinco anos de cárcere. Um das ruas de Montividéu leva agora seu nome.

Dois objetos adversos e inconcebíveis são a matéria dos últimos contos. O Disco é o circulo euclidiano, que admite somente uma face; O Livro de Areia, um volume de incalculáveis folhas.

Espero que as notas apressadas que acabo de ditar não esgotem este livro e que seus sonhos sigam se ramificando na hospitaleira imaginação dos que agora o fecham.

                                                                                                                                                       J. L. B.

                                                                                        Buenos Aires, 3 de fevereiro de 1975”

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  1. 20/08/2011 13:51

    Talita e o Cetro de Gárlia

    Autor: Orácio Felipe
    Sinopse:
    Uma menina, uma profecia, um reino. Segura em um lar adotivo uma princesa prepara-se para retornar ao seu reino mágico e liberta-lo das forças malignas. Uma longa preparação e um intenso amor pela liberdade de seu povo movem a princesa Talita. Mas o mal tem muitas faces e pretende governar o reino de Gárlia por toda a eternidade. O preço: Eliminar a princesa, a semente da libertação. Luz e trevas em combate. Amizade, fidelidade e honra. Talita e o cetro de Gárlia, um conto de aventura num reino distante.

    http://www.clubedosautores.com.br/backstage/my_books/45223

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