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Centopeia de Néon – Edival Lourenço

25/07/2011

Os escritores se perderam. Sim: se perderam. Escrevem livros vazios, que não mais dizem nada, que não possuem mensagem alguma, exceto uma: quero seu dinheiro. Dentro da lavra de escritores brasileiros contemporâneos a coisa fica mais feia. Poucos salvam-se desse mar de má qualidade literária. Contudo, eu tive a grata oportunidade de vislumbrar um autor que não se pode classificar de outra forma que não seja de: talentoso.

Edival Lourenço, natural de Iporá – GO, é um escritor de mão cheia, e já vou afirmando isso após a leitura de apenas um de seus livros, tamanho foi o fascínio que este autor me causou. Ele já é o grande nome da literatura goiana, e já está encontrando seu espaço dentro do panteão de revelações na literatura brasileira. Edival é um fenômeno.

Quero aqui falar de seu livro que, segundo muitos de seus críticos, pode ser considerada sua obra-prima em prosa: Centopeia de Néon.

Tive o privilégio de o próprio Edival ter me presenteado esse livro. Mas isso não fez com que eu olhasse a obra com parcialidade. Sou muito arisco com autores novos. Sempre fico com um pé atrás e quase nunca o primeiro livro que leio desse autor costuma me agradar. Edival se mostrou uma exceção.

Centopeia de Néon deu-me uma forte impressão sobre a escrita edivalina (ou seria melhor lourenciana?): ele criva muito as palavras. Edival parece-me ser um escritor que demorar passar de uma página para outra, que prolonga-se na escolha das palavras, das frases, dos adjetivos, do pronomes, do verbos. Ele parece demorar-se num parágrafo com se estivesse pintando um quadro que foi encomendado por um monarca exigente. Essa meticulosidade linguística de Edival faz com que sua obra seja degustada e não lida. Centopeia de Neon é um tipo raro de livro agora: um livro que te força a mastigar cada frase, o enredo, e está longe de se encaixar dentro deste padrão industrial de literatura mastigada e deglutida que nos deparamos atualmente.

Dividindo-se em quatro partes, cada parte com a narração de uma personagem, Centopeia de Néon mostra o que está por trás dos panos, aponta os defeitos humanos que se manifestam nos insólitos (porém tão familiares) seres que povoam o universo da obra. Usando-se de um humor sutil, Edival critica o modelo de nossa corrupta política, a ideia absurda de Deus, esse modelo de jogo de interesses na obtenção de um privilégio, a hipocrisia e a dissimulação, como os humanos se tornaram descartáveis e como somos falsos uns com os outros. Centopeia de Neon é uma obra completa, com personagens que marcam qualquer leitor, tais quais Sidrake de Thorteval Gahy e a lindíssima Romã que, talvez, sejam pontos altos do livro. Com uma presença, mesmo sendo de baixa estatura, forte e de uma inteligência aguçada, Sidrake é o grande protagonista de Centopeia. Sendo um lobby-man profissional, a personagem conhece todo o emaranhado da corrupta rede que permeia o mundo dos políticos, empresários e outros que fazem parte desse escuso, mas milionário, grupo dos gafanhotos do nosso país e do mundo, pois a obra de Edival, mesmo sendo situada na imaginária Piambaia, é de cunho universal, e explora de forma pessimista o modo como o humano leva adiante sua existência. Romã, a linda pseudo-jornalista, é uma espécie de metáfora de como precisa-se de pouco hoje para conseguir galgar na vida. Ela é um claro exemplo de como vale a imagem, o superficial, e a textura externa para se obter algo. Ela evolui de forma espantosa dentro da trama de mera putinha para uma espécie de Virgem Maria, e Edival retrata de forma cômica essa evolução, como uma forma de dizer: não, a humanidade não tem redenção que a redima dessa sua situação esdrúxula e deplorável.

Não revelarei nenhum detalhe do inventivo enredo criado por Edival Lourenço, pois seu livro deve ser lido sempre na expectativa de surpreende-se no virar de cada folha. E não tenha medo, pois as surpresas serão muitas. Cada página de Centopeia de Néon é uma risada a mais, uma parada para refletir o que estamos fazendo e como estamos nos comportando. Nessa mistura de humor e profundidade, Edival Lourenço nos presenteia com uma obra cheia de possibilidades de interpretações e de uma inteligência pouco vista em nossas atuais letras.

2 comentários leave one →
  1. Oliveira permalink
    06/03/2013 1:41

    Esse com certeza foi um dos mais especiais e surpreendentes livros que já li (e, olha, não foram poucos os ótimos livros que tive o prazer de ler… cito “O evangelho segundo Jesus Cristo”, de Saramago, “O Chefão”, de Mario Puzzo, “Musashi”, de Yoshikawa, “Cem anos de solidão”, Garcia Marques, para esclarecer o nível de literatura de que estou falando).

    Definitivamente, “Centopéia de Neon” é um livro para grandes leitores.

    • sandro permalink
      30/12/2014 3:02

      o livro é no máximo bonzinho! não consigo até agora entender o sucesso de crítica. ele é pretencioso e banal, os personagens são clichês e sem consistência e as técnicas de narrativa não tem nada demais. o livro é bem escrito e entretem, não nego (isso paulo coelho tbm faz), mas de bem escrito pra grande obra (como cem anos de solidão que vc citou) tah longe pra caralho!

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