Skip to content

Noves Fora: nada – Carlos William Leite

25/07/2011

Ler poesia não é coisa fácil não. Você tem pegar os trejeitos linguísticos do poeta, sua métrica, sua sonoridade, às vezes até a intenção daquele verso meio fora de prumo dentro do poema, tem que perceber as nuances sutis que se apresentam num verso mais “escondido” no corpo da poesia. Não, raro leitor, ler poesia não é fácil. Tem que ter olho treinado, entender um pouco dessas coisas que se passam na cabeça dos poetas. Essa coisa de poesia é complicada. Se já mostra-se difícil ler poesia, agora imagine o desafio que é escrever poesia. Não falo daquela poesia confessional que nos arriscamos a fazer em nossa adolescência apaixonada, não falo daqueles versos desengonçados com rimas vergonhosas (quem nunca rimou “amor” com “dor”?), falo de poesia que supere o limite do comum, do superficial. Falo de poesia de qualidade, que nos mostre mais coisas do que está escrito no papel.

Encontrar poetas que não façam parte do grupo dos consagrados, mas que façam poesia boa e legível é de uma dificuldade enorme. Principalmente agora que todo mundo acha que pode denominar-se poeta e sai rabiscando baboseiras em livros sofríveis. Mas, modestamente, como sou um leitor criterioso e sortudo, eis que esbarro com uma grata surpresa: Carlos Willian Leite.

Conversava com Carlos há algum tempo, conhecia um pouco de seu trabalho como editor, mas não sabia que ele poetava. Quando o encontrei pela primeira vez, ele deu-me para ler um livro seu, o Noves fora: nada. Sempre que recebo o livro de um autor que conheço pessoalmente fico sem ação, desarmado. Pra falar a verdade não sei bem o que dizer. Mas aprendi com esse curto tempo que estou por aqui, a separar as coisas: se não escreve bem tenho que ser sincero em dizer isso, e se for talentoso desço elogios sem dó. O Carlos faz parte do segundo grupo. E vou dizer por quê.

Noves fora: nada é o poeta dando à cara a tapa, se arriscando. Um risco calculado, com versos bem construídos, enxutos, indo ao ponto sem floreios. Um risco de quem sabe arriscar, e sabe como fazê-lo. Com imagens lindas, construídas com uma coesão concentrada, Carlos elabora poesias que tratam do singelo de forma grandiosa, como só bons poetas sabem fazer. As cenas que se formam em cada verso são (com a licença do clichê, por favor) de tirar o fôlego:

os minutos gritam as léguas que trago nas mãos

 

há muito me tenho delinquido

e nada mais divino

do que ergue o próprio corpo

em brinde ao nada

 

 

e saber-se efêmero, sendo ambíguo

e fazer-se pleno, quando estrada”

 

O leitor que já leu bons poetas nessa sua vida ledora vai saber, só com esses versos, que o autor de Noves fora: nada é um poeta pra se dá um olhar mais demorado, uma leitura mais pausada, mais concentrada.

Um ponto que vale frisar nos poemas que compõe Noves fora é a maneira como o poeta encontra para rimar os versos. Em alguns poemas, Carlos se utiliza do tradicional sistema AA/BB/AA/BB (ou seja, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo com o quarto e assim sucessivamente, dependendo de quantos versos existem na estrofe). Mas Carlos também se utiliza de uma rima oblíqua, mais diagonal, onde um verso só encontra sua rima algumas linhas depois:

“fátua  fauna de árvores e homens

de pássaros que conduzem

os ventos

sobre as fibras secas do coração

 

velhas caves de silêncio e palha

de um rio que não volta à nascente

mesmo carregado nos ombros:

 

os escombros áridos dessa solidão”

 

Isso dá um ar de que o poeta domina seus versos, que ele está no comando das palavras, de que ele sabe onde está pondo cada rima. Também devo dizer que em alguns versos existem algumas palavras que parecem quebrar o ritmo do poema, que rompem a métrica dos versos, mas esses são poucos. Crescendo na qualidade a cada página, Noves fora: nada é um livro que te exige mais leituras (e o li umas 4 vezes em dois dias), para que você possa usufruir de cada verso que o poeta goiano deu-se ao árduo trabalho de montar numa escrita que precisa de uns poucos melhoramentos, mas que no geral encontra-se impecável.

Deixo para o final um dos mais belos versos que li no livro de Carlos:

“faiçaville 9 da manhã

o quarto seco o corpo adrede

 

eu indo rumo ao epicentro

perdido de uma rua do centro

pensava na sua boca

e tinha sede

 

e quantos deuses invento

no minuto em que conspiro

se quer saber se te respiro

basta olhar-me por dentro”

 

Esses versos fazem parte do poema que Carlos dedica a sua esposa, e são, mesmo com sua simplicidade, de uma força poética monstruosa.

Para finalizar só tenho uma coisa a dizer para os leitores deste humilde diário de leituras: Carlos Willian Leite é um poeta para ser (re)lido.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: