Skip to content

Quase Noite – Alice Sebold

10/08/2011

A relação entre pais e filhos é permeada de conflitos, ora declarados ora encobertos, seja por medo, seja por restrições sociais. Esses conflitos podem acumular-se  por anos, podem eclodir numa discussão trivial, podem ser remoídos, engolidos como uma comida de gosto ruim. Esse tipo de relação apresenta uma série de complexidades que vão inflando com o passar dos anos e possui os mais diversos motivos: a ausência (mesmo presencial) de um dos dois, seja dos pais ou dos filhos, a disparidades de idéias de um com o outro, a repulsa inconsciente provinda de ambos e etc. E dentro dessa intricada rede de diferenças existente entre pais e filhos, existe um tipo de relacionamento que é ainda mais intrigante e conflitante, que é a relação entre mãe e filha. Muitas podem ser companheiras, amigas, confidentes, mas também podem ser inimigas silenciosas, podem viver em lados totalmente distintos, podem enxergar uma na outra seu oposto inegável ou podem guardar um amor que se manifesta através daquilo que não achamos outro nome para  dar que não seja o de “ódio”. É usando essa relação como tema, que a escritora norte-americana Alice Sebold conta a história de Helen e sua mãe.

“No final das contas, matar minha mãe foi bem fácil”. É assim que começa o livro Quase Noite (editora Agir, 291 páginas, com a tradução de Julia Romeu), que conta a história de Helen, personagem que matou a mãe, uma senhora que já estava numa idade bastante avançada e dependente, onde a amargura é a forma encontrada para expor suas opiniões, sufocando-a com uma toalha de mão num gesto quase inconsciente, como se  não soubesse o que estava fazendo. Depois de tomar consciência de sua ação, Helen entra contato com a única pessoa para a qual ela poderia revela o que fez sem medo de ser denunciada: seu ex-marido Jake, que está em outra cidade e que vai de imediato ao encontro de Helen. Na casa de sua mãe, com o corpo dela sujo de fezes (pois ela assassina sua progenitora no caminho ao banheiro para lavá-la), Helen a limpa, corta uma trança de seu cabelo e a coloca no freezer do porão da casa. Tudo num clima de suspensão como se fizesse aquilo sob o controle de outra pessoa. Com a chegada de Jake, eles tentam elaborar um plano para que ela não possa ser presa por seu crime. Mas os vizinhos são mais rápidos e ligam para a polícia, mesmo sem nenhuma acusação sobre  Helen, que vai trabalhar normalmente, como modelo-vivo para os alunos de Artes da universidade de sua cidade. A polícia faz suas investigações, a interroga, acha o corpo, examina a casa. Revelando apenas para Jake e sua filha Sarah, que vem à cidade com descoberta da morte da avó, Helen briga com seus sentimentos e seus medos, tentando loucamente achar um pingo de razão e bom senso em tudo o que está acontecendo.

Mesclando lembranças de infância, de acontecimentos marcantes, memórias sentimentais numa narrativa em primeira pessoa (Helen é a narradora), Alice Sebold constrói um romance onde o ético e o antiético, o certo e o errado, conflitam-se dentro de uma mente que não tem as restrições dos juízos ético-morais, de uma filha que vê na mãe um contraponto, uma inimiga e da forma mais incomum o objeto de seu amor e sua admiração.  Se o livro de Sebold pudesse ser classificado em uma cor, essa seria cinza. Carregando de um clima sombrio, lúgubre, e até de certa densidade (apesar de não ser um livro denso), Quase Noite é um livro que tem uma boa história, mas que é contada de forma meio desastrada, com certos atropelos. Sebold tece diálogos fracos, pouco elaborados, em alguns momentos beirando ao infantil. Com um vício terrível de analogias, Alice Sebold às vezes se perde, e lança pérolas como: “os dentes dele eram brancos como as luzes de um estádio de futebol”. Os personagens têm uma construção psicológica rasa, mesmo sendo a proposta do romance conta uma história com profundidade psicológica. Contudo a trama contada por Sebold levanta questionamentos éticos relevantes: qual é o limite de nossa hipocrisia? Até onde posso dizer que minhas ações são erradas, apenas por elas não cumprirem o contrato social? Sem contar o fato de que algumas atitudes da protagonista-narradora nos desconcertam, nos deslocam de nosso ponto de vista cômodo e nos põe em algumas sinucas de bico existenciais.

Mesmo com diálogos pobres e personagens pouco atraentes e meio insossos, a história de Alice Sebold é boa, criativa nessa exploração da relação entre mãe e filha, na forma como ela revela o vazio que carregamos que costumamos ignorar, mas que está lá imperturbável, constante, silencioso, incômodo.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: