Skip to content

História da sexualidade: vontade de saber – Michel Foucault

23/08/2011

Michel Foucault é reconhecidamente um dos nomes mais representativos da Filosofia moderna. Um pensador original com o ousado projeto de arqueologia dos saberes, que escreveu  obras de que causaram grande impacto na História, Psicologia, Lingüística, no Direito e claro, na Filosofia. Com seu projeto de arqueologia dos saberes, que consistia em voltar ao inicio e procurar as raízes de nossos juízos ético-morais, de nossos padrões de julgamento, de onde provém nossa maneira de conceber as coisas da forma como as concebemos, Foucault escreveu livros que desvendavam de forma magistral a evolução de nossa visão sobre determinadas relações que tínhamos com comportamentos específicos, como por exemplo, em seu livro A História da Loucura, onde ele mostra como a forma de tratar a loucura foi modificando-se no decorrer dos séculos de uma revelação (pois os loucos eram vistos como espécie de profeta) até uma doença, já na era moderna, em função do surgimento de ciências que lidavam com a mente humana e suas complexidades (vide Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria). Esta não foi a única “história” sobre a qual Foucault escreveu. Ele debruçou-se também sobre a sexualidade, isto ele fez no livro A História da Sexualidade (editora Graal, 176 páginas no primeiro volume, com tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque).          

Livro dividido em três tomos, n’A História da Sexualidade Foucault dá atenção para como a visão sobre o sexo e seu dispositivo de sexualidade foi criando consistências distintas ao longo do tempo. Mas no presente texto, falarei especificamente sobre o primeiro volume que se sub-intitula Vontade de Saber. Nesse volume, Foucault faz uma introdução com a questão do sexo no discurso. Antes dos séculos XVII e XVIII, o discurso sobre o sexo, a maneira como dele se falava, não possuía um rigor que delimitasse a forma mais apropriada de se falar sobre esse tema, os “desvios” (homoafetividade, masturbação, incesto, entre outros) sexuais não tinham o posto de “perversões”. Mas com o avançar da ciência médica e da interferência religiosa no discurso sobre o sexo, onde a Medicina elaborou toda uma nomenclatura “correta” e categorizou os “desvios” sexuais na ala de doenças, isso sob o estigma da moral religiosa, o sexo passa a ter toda uma reestruturação discursiva onde já se pode falar de um discurso “certo” e outro “errado” ou “vulgar”. Essa forma de expressar o sexo através do discurso nos tendeu a visualizar a época atual como um período onde há uma repressão sexual acentuada, onde o sexo virou segredo, que só deve ser comentado dentro do discurso médico-científico-religioso,  onde os “desvios” são visto de forma excludente. Foucault mostra em seu livro sua discordância de tais idéias. Usando a sexualidade como uma peça de relação de poder, hoje temos um incentivo, um estímulo muito maior para se falar de sexo e sexualidade fora do padrão, isso ocorre em grande parte por causa da Psicanálise freudiana que deixou às claras toda a sexualidade humana, e toca num ponto muito relevante que tinha sido deliberadamente ignorado nos séculos passados: o sexo das crianças. Mas esse discurso estimulado está sob a tutela do Estado, que tem a função de fiscalizador. O Estado (capitalista) estimula justamente para poder fiscalizar com maior eficiência, ele usa o sexo como forma de ter o poder sobre as pessoas, na figura da Sociedade ou de Indivíduos. O sexo tem essa importante função nas relações de poder.

Com um livro ainda introdutório a questão da sexualidade dentro do discurso e história humana, Foucault possui méritos dignos de um bom escritor: a organização das idéias, um ordenamento sistemático (apesar dele não ser um filósofo que se possa chamar de sistemático) dos pensamentos, a fluidez de sua escrita sem a complicação kantiana da linguagem técnica e a ironia (que em alguns trechos é ácida). Outro ponto importante, para os leitores em português da obra, é qualidade da tradução. Com dois tradutores que verteram a obra direta do francês, o livro não perde em nada do original (exceto as brincadeiras que Foucault fazia com algumas palavras que tinham duplo sentido, que na tradução se perdem), deixando a obra deliciosa de ser lida. Uma obra de fôlego, não por seu tamanho, mas por sua profundidade de pensamento.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: