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O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago

30/08/2011

O ser humano sempre teve medo do desconhecido. O desconhecido sempre causou (e causa) medo no humano. Isso porque o humano está sempre preocupado com a sua segurança, coisa que o desconhecido não oferece. Mas a vida se constrói por causa do desconhecido. E um autor foi no mínino magistral quando falou do desconhecido, este artista das letras foi José Saramago.

O Conto da Ilha Desconhecida essa pequena grande história de Saramago é repleta de desconhecimentos. Não conhecemos muitos detalhes da história: onde se passa, que época se passa, o nome das personagens que estão na história, o que é característico da literatura saramaguiana. Ele não dá nomes, pois está sempre fazendo uma metáfora da humanidade. De uma humanidade sem rosto e nome.

No conto de Saramago há um obstinado homem que quer uma barca para encontrar uma ilha que ele desconhece (a tal ilha desconhecida). Ele vai ao rei e lhe pede uma embarcação para dar cabo a sua empreita. Depois de eloquentes argumentos, ele enfim consegue a sua nau. Mas ele não sabe navegar. Ele não sabe capitanear a barca que ele obteve com esforço. Mas a ideia de ir atrás de sua desconhecida ilha não lhe fugiu. Ele lançou-se ao mar. “Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, a procura de si mesma”.

Com beleza literária rara, Saramago deixa tantas nuances neste seu conto que podem ser percebidas (ou despercebidas), que faço aqui minha tentativa (desajeitada diga-se) de apreender o que no conto há.

Lembro-me das enfadonhas aulas de história que tinha com um professor mais intragável do que suas aulas. Eram aulas monótonas, mas houve um dia que o tal professor deu uma aula que interessou-me. Falávamos sobre a expansão marítima. Como a mente do homem foi mudando graças ao fato dele resolve ir contra seus medos. Você deve se lembrar de como as pessoas da antiguidade viam o mundo: quadrado com um horizonte que tinha fim e que depois desse horizonte havia um abismo infinito. Esse abismo habitado por monstros, sereias, seres místicos que poderiam seduzir e destruir quem deles se aproximassem. Tudo isso fruto da ignorância. Do medo.

Com a ida dos primeiros navegadores rumo além mar, todo o encanto se desfez. Não havia nenhum monstro, nenhuma sereia, nenhum ser místico. Depois dessa descoberta a humanidade não foi a mesma. As mitologias perderam seu crédito de verdadeiras. O humano cresceu, evoluiu.

Saramago com seu conto metafórico, traz isso à tona. Se não formos desvendar o desconhecido, continuaremos presos na ignorância, acreditando em absurdos. É explorando o desconhecido que descobriremos se as respostas que criamos para nossas ignorâncias estão certas ou não. O desconhecido está aí, temos que explorá-lo.

Deve-se perder esse tolo medo do desconhecido, vê-lo como se fosse algo ruim. Com a certeza de que nos depararemos com o desconhecido é que temos que ir ao encontro dele. “É necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós.” Não se conhece nada sem ter que se afastar o suficiente para poder ver melhor. Não nos conheceremos sem corrermos o risco de explorar novas possiblidades.

Na história de Saramago o “homem do leme” é dissuadido (tentam ao menos, pois ele não se demove de sua ideia) de sua empreita com a alegação de que não havia mais nenhuma ilha desconhecida, de que todas já tinham sido descobertas. Mas ele sabia da existência da ilha desconhecida, de uma ilha que estava além daquelas águas, pronta para ser descoberta.

Saramago deixa implícito (para alguns explícito) de que o homem é, ele mesmo, a própria ilha. Com isso ele estava indo não apenas tentando conhecer um território externo novo, mas um novo território interno. Conhecer-se. O grande anseio do humano é isso: se conhecer. Desde do apelo socrático do “conhece-te a ti mesmo” até a era contemporânea, o humano quer conhecer-se. Somos ilhas desconhecidas prontas para serem exploradas. Buscaremos nossas naus e navegaremos além-mar para descobrirmos nossa ilha desconhecida?

One Comment leave one →
  1. Romario Silva da Silva permalink
    26/09/2011 0:58

    Quando encontrei-me diante desse conto, fiquei tentando entende-lo, varias ideias surgiram algumas desagustadas, e outras desnorteadas, procurei uma ilha desconhecida distante, até me deparar com o (a procura de si mesma), quando finalmente fiquei um tanto satisfeito, imaginando que o autor teria dito que procuramos conhecer o ainda nao conhecido alheio a subjetividade, quando o maior de todos misterios ainda é o Homem, que ainda nao encontrou um sentido para a sua existencia por procura-la em um horizonte metafisico, é preciso a autoreflexao para se conhecer, apos distanciar-se como para um observar cientifico, para perceber-se em sua extensao, para assim encontrar-se, O homem preocupa-se mais com além do que consigo. Parabens pelo texto gostei muito.

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