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Alguns Poemas – Emily Dickinson

04/10/2011

Uma menina que resolveu ser solitária. Que nessa solidão escrevia poemas que agrupava em folhas que eram costuradas umas as outras e colocadas em caixas que ficavam embaixo da cama. Tímida, solitária, introspectiva, calada, com um olhar perdido num horizonte inexistente. Que escrevia com uma doçura, uma leveza, uma suavidade, na força do momento, dos acontecimentos. Dessa forma Emily Dickinson (1830-1886), nascida da cidade de Amherst, se transformou numa das mais fortes vozes poéticas de toda a literatura norte-americana, angariando lugar de destaque no panteão da literatura universal. Essa menina recatada que teve apenas alguns poemas publicados, e sempre porque terceiros resolveram fazer isso e nunca por decisão própria, que escrevia trancafiada em sua casa, com hábitos reclusos, que não se relacionava com ninguém, exceto com amores que ela idealizava em suas poesias, foi montando um estilo poético que ultrapassou tudo o que estava sendo produzido pelos poetas de seu tempo. O isolamento lhe deu a liberdade de criar sem as amarras das teorias literárias. E a antologia “Alguns Poemas”, que traz a maior compilação de poemas escritos pela poetisa no Brasil, nos dá uma ótima dimensão do que é a poesia dickinsoniana.

Numa bem tratada edição bilíngue da editora Iluminuras, com tradução de José Lira, um dos especialistas da obra de Emily Dickinson, “Alguns Poemasnos permite mergulhar dentro do universo poético dessa menina que escrevia para si, que poetava quando sentia o desejo, sem nenhuma amarra, sem entender nada de escolas literárias, que no entanto criou toda uma linguagem poética peculiar; que transformou sentimentos e apreensões pessoais nos mais belos poemas escritos no ocidente. Emily Dickinson escreve na premência do momento. Seus escritos exalam obscuridade, com uma áurea lúgubre, com tons de morbidez. Ou como escreveu José Lira num pequeno ensaio no começo do livro: “O certo é que sua linguagem poética é quase sempre ambígua e obscura, muitas vezes hermética ou truncada, com uma ‘gramática’ própria, aberta às mais diversas interpretações. É preciso ressaltar, no entanto, que a obra de Emily Dickinson é uma colcha de retalhos, costurada com poemas de grande força lírica e versos de ocasião, resquícios de devaneios juvenis ou meros rascunhos.” (p. 21). Uma das belezas da poesia dickinsoniana jaz justamente naquilo que não está nas páginas que se lê, mas nas entrelinhas, como sua ironia fina, sua obliquidade, suas insinuações e intenções; que só o leitor perspicaz capta.

Traduzir literatura é um dos grandes desafios para tradutores, mas que fica mais complexo ainda quando se trata de traduzir poesia. A tradução poética exige uma série de competências de quem se propõe a traduzir: ter uma profunda familiaridade com a obra do autor traduzido, entender poesia, e compreender o universo literário no qual as poesias foram escritas. Muitos tradutores sem perdem nesses quesitos, muitas vezes descaracterizando todo o estilo do poeta traduzido. Essa tarefa é árdua. “Alguns Poemasé um ótimo indicador dessa dificuldade. José Lira divide o livro em três categorias: “Recriações”, onde ele traduz com a máxima fidelidade a métrica e sonoridade os poemas dickinsonianos; “Imitações”, parte em que há uma ampliação na licença tradutora, em que Lira usa versos decassílabos, o que a poetisa quase não usa no original, e também certa quebra com os versos originais tanto no aspecto rítmico, quanto nas rimas que só são preservadas quando há rimas em versos pares; por fim, a última parte que, na minha opinião, é a mais ousada e, por vezes desrespeitosa, que é a “Invenções” onde José Lira só usa a essência dos poemas originais e os reescreve, os “moderniza” num exercício de tradução que para os leitores mais puritanos, tal qual eu, há uma dose exagerada de liberdade. Nessa última categoria, ou parte, preferi ler os poemas no original e quase não olhava para os abusos que Lira, um bom tradutor que se diga, tomava. De qualquer forma, essa atitude de Lira mostra em claras letras que o papel do tradutor de poesia nada mais é do que poetar junto com o poeta traduzido, ele “repoetiza”, pois não existe tradutor de poesia que também não seja poeta. Só um poeta pode traduzir o outro. Ou como disse Pedro Maynard, em melhores termos que os meus, na epígrafe da categoria Recriações: “O tradutor de poesia é um poeta com mais acepções que percepções”. Absolutamente certo.

Emily Dickinson é uma poetisa genial em todas as acepções do termo. Mesmo estando num exílio auto-imposto, ela consegue dialogar com vários temas, e em todos com seu toque extremamente pessoal. Fala do que hoje é polêmico, como aborto e mesmo da eutanásia, em versos assim (os colocarei tanto no original, quanto no português, para que se usufrua melhor do poema): “‘Mama’” never forgets her birds,/ Though in another tree — / She looks down just as often/ And just as tenderly/ As when her little mortal nest/ With cunning care she wove — / If either of her ‘sparrows fall,’/ She ‘notices,’ above.” Que traduzido por Lira, sai assim: “‘Mamãe’ não larga os passarinhos/ Que noutra árvore deixa – / Ela os observa com o cuidado/ Que já teve ao tecer/ O seu pequeno e frágil ninho/ Experiente e meiga – / Mesmo que caia um dos ‘filhotes’/ Lá de cima ela ‘vê’.” Como dá para ver, Emily Dickinson vai contra o fundamentalismo religioso de seu tempo, mesmo sendo piamente religiosa, e toca em assuntos que são dificultosamente tratados, mesmo hoje, por alguém, principalmente, por uma mulher. Por esses e tantos outros motivos, que o espaço aqui não me permite esmiuçar, a leitura da poesia dickinsoniana é de fundamental importância para qualquer leitor minimamente esclarecido. Na leitura de seus poemas e poesias, existe um verdadeiro mergulhar, apesar desse termo estar tão saturado, dentro dos sentimentos humanos, e também femininos, que nos possibilitam experiências ledoras inesquecíveis. Uma leitura deliciosamente obrigatória, não uma obrigação enfadonha, mas prazerosa.

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  1. fabriciomalves permalink
    04/10/2011 2:33

    Putzgrila, é o tipo de autor clássico necessário para todos, agora só me deu vontade de conferir a obra, e vou dizer, inveja do livro, preciso tê-lo para sabê-lo. Depois da resenha ainda mais, que droga, sempre há um escritor clássico que a gente ainda não leu.

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