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Sargento Getúlio – João Ubaldo Ribeiro

09/10/2011

A Literatura é feita com palavras, e elas são a mais importante ferramenta de trabalho do bom escritor. Parece uma obviedade o que acabei de escrever, todavia os escritores de hoje parecem ter se esquecido disso. Eles se atrelam apenas à ideias, a histórias que são contadas nos mesmos termos e construções frasais de sempre. Não há muita novidade no modo como a narrativa se constrói. Preferem preocupar-se como o enredo vai se desenrolar do que como contar o desenrolamento desse enredo. Uma linguagem elaborada, com uma linguística própria dá trabalho, é cansativo e tem pouca receptividade mercadológica dentro desse escuso conglomerado editorial contemporâneo. Há muitos autores que fazem sucesso com a crítica que são quase que desconhecidos do público. Talvez um dos maiores exemplos disso, nas nossas letras, tenha o baiano João Ubaldo Ribeiro. Todavia, como todo bom escritor consegue fazer, ele conseguiu sua consagração com um romance esplêndido: “Sargento Getúlio”.

Getúlio é aquele personagem que te cativa, te faz criar uma empatia logo no primeiro capítulo. Ubaldo Ribeiro caracterizou um personagem muito atraente, mesmo com tantos defeitos, com toda sua crueldade, toda sua rudez. Getúlio é um sargento que não foge da ordem dada, que não tem medo de nada, não é derretido por amores – mesmo não querendo confessar o que tem por Luzinete -, que não tem amigos – só Amaro -, que é cabra macho. “Sargento Getúlio” é história de uma viagem, que vai de Paulo Afonso até Aracaju, contada pelo próprio personagem-título, num fluxo que mistura as suas lembranças do passado, de suas vivências e aventuras pelos sertões desse mundo. Getúlio tem uma missão: transportar um preso político. Essa foi a ordem dada pelo seu comandante, Coronel Acrísio. O “traste”, como Getúlio vive chamando o prisioneiro deve ser entregue vivo, pois é pessoa importante. Na companhia de Amaro, uma espécie de fiel escudeiro do sargento, num Hudson, Getúlio vai seguindo seu rumo. Até que o cenário político muda e a presença do “traste” já não é mais necessária em Aracaju. Contudo, desconfiado como todo homem vivido, Getúlio hesita em obedecer achando que essa ordem não veio de seu coronel, é então que, teimoso, resolve seguir viagem. Obstinado, Getúlio segue com as instruções originais de seu coronel, só que no meio do caminho ele enfrenta percalços que atrapalham sua trilha: pessoas que querem matá-lo. No entanto ele não se rende. Vai, ciente disso, para uma missão suicida. Ele sabe qual vai ser seu fim quando chegar a Aracaju, mas nem por isso deixa de executá-la, porque no mundo militar é assim: ordem dada, ordem executada.

Baseado em histórias que ouvia de seu pai quando mais novo, João Ubaldo Ribeiro teceu um dos mais fascinantes romances da literatura brasileira, e um dos livros mais complexos e ricos da Literatura portuguesa. Uma palavra usada para designar a dificuldade de um livro, sua trama, seu enredo, suas possibilidades interpretativas, que é muito utilizada, mas que encaixa-se perfeitamente numa conceituação do romance de Ubaldo é a palavra denso. O discurso de Getúlio é mesclado de referências regionais, cheio de mergulhos existenciais, filosóficos até, pensando sobre o amor, a amizade, as relações de poder, entre outras tantas coisas. Outro importante as aspecto do romance é a linguagem. Trazendo todo o repertório linguístico do sertão, Ubaldo Ribeiro expõe uma erudição vasta, principalmente em criar neologismos, na coloquialidade das orações, no ritmo que tem uma construção bem elaborada, que faz com que o leitor não se perca nos mergulhos que Getúlio faz dentro de si, dos seus estouros de raiva, ou quando está falando de forma calma ou divertida, fazendo piada. Ubaldo é um mestre da escrita, com uma inventividade que fascina, com uma perícia narrativa grandiosa. Um escritor que usa a linguagem sem hesitações, num risco bem calculado, o que nos dá um ótimo resultado.

“Sargento Getúlio” está entre os melhores e mais bem escritos romances brasileiros. Um livro que é uma experimentação linguística fabulosa, uma riqueza literária. Não lê-lo é um pecado.

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