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Histórias Cruéis – Marcos Horácio

24/10/2011

Uma mulher viciada em lamber cuspe, uma gorda feia aficionada em livros que trai o marido com um surfista loiro, um casal de gêmeos que fazem loucuras sexuais, um assassino que faz um experimento psicológico com o casal de vizinhos, um cara com o estranho hábito de acariciar cadáveres, uma pesquisa feita com comedores (no sentido sexual do termo) profissionais. Essa e outras tantas são as histórias que recheiam o livro de Marcos Horácio, “Histórias Cruéis: e eventualmente nojentas de casais escatológicos” (Nankin Editorial, 2011). O subtítulo dá uma boa dimensão do que trata o livro. Histórias mirabolantes com casais fora do comum. Essa seria uma definição simplista para o livro de Marcos Horácio. O livro relata histórias que baseiam-se no cotidiano, mas com um ângulo narrativo totalmente hiperbólico, sem nenhum tipo de hipocrisia, totalmente desnudas de crivos morais ou éticos, ou com um outro tipo de moral e ética. Algumas das histórias são tão curtam que soam como flagrantes, registrados apressadamente pelo autor num surrado bloco de papel. Talvez seja isso mesmo, penso cá com meus botões, esses contos de Marcos Horácio são flagrantes. Flagrantes de alguns desejos humanos escondidos, de algumas perversidades, de fetiches que seria muito feio dizer por aí, na frente das pessoas de boa índole, porque quem fica falando das suas vontades não presta, é o que dizem.

Não sei se é adequado ficar “filosofando” sobre “Histórias Cruéis”, mas o pequeno livro nos deixa meio envergonhado quando rimos dos contos bizarros, ou quando nos damos conta que o prazer sexual de algum personagem também é o nosso. Esse livro nos deixa desnudos, moralmente pelados.  E nos faz rir, pelo menos eu ria tanto que parecia criança, as pessoas até ficavam me olhando e estranhando um jovem barbudo rindo alto com um livro na mão no meio de uma praça. Todavia não tinha como evitar, o humor de Horácio é contagiante, ele é um verdadeiro pândego gaiato. O melhor de tudo, é que ele saber ser assim, não te soa forçado, como um tio chato que tenta fazer piada e acaba saindo um baita de um sem graça. Nos apresentando personagens cômicos e sagazes, como Alberto, o narrador do conto “Do que falamos quando conversamos sobre sexo”, alguns bizarros, como o cara do conto “Bizarra” que aceita tudo o que a mulher lhe propõe exceto uma coisa que Horácio não diz o que é, deixando o leitor na maior curiosidade. Esse também é um ponto alto do livro: ele dialoga com o leitor, prevendo reações, brincando com nossa curiosidade, nos fazendo esperar algo, quando a surpresa então é feita. E tudo isso num ritmo sempre controlado. O texto tem uma velocidade quase jornalística, sempre com as vírgulas no lugar certo. O livro é rápido, com contos que nunca passam o limite de 6 laudas (que é da maior história do livro que é “Experimento”), a leitura também é rápida (li três vezes em uma semana, isso porque eu estava atualizando outras leituras).

Esse texto não valeria muito se eu não tocasse num ponto muito importante que percebi no livro é a forma como as histórias são narradas. Na maioria dos livros de contos, o escritor opta por seguir uma linearidade no estilo narrativo (ou ele representa as falas com aspas, ou com travessões, ou nenhum dos dois colocando as falas como pequenos parágrafos). Essa não foi a opção de Marcos Horácio. Ele resolveu misturar tudo, quebrando a “regra” básica dos livros de conto. Usando essa heterogeneidade narrativa, Horácio tece um livro metalinguístico, mostrando que em algumas histórias os tradicionais travessões funcionam bem, enquanto em outras as aspas dão um tom melhor, e, ainda, em outras nenhuma das duas ferramentas funcionam. O último conto, “Aspas”, funciona com uma espécie de “explicação” de alguns aspectos do livro, no entanto não é uma explicação interpretativa (o que tiraria toda a graça da leitura), mas de termos de construção. E o autor nos dando esse toque, faz com que a percepção do livro se clarifique e algumas interrogações se transformem em exclamações. O que foi uma sacada e tanto.

As referências que Marcos Horácio bebe para escrever seu livro são várias, algumas expostas em notas ao final, mas existem outras que o leitor atento vai perceber e que não estão nas notas. Lançado no começo desse ano, “Histórias Cruéis” é uma leitura muito agradável e divertida, que vale a pena ser feita, seja em voz alta numa roda de amigos para todos rirem ou sozinho, para rir do mesmo jeito.

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