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Paris é uma festa – Ernest Hemingway

12/11/2011

Paris, década de 20. Essa geração foi uma geração efervescente, prolífica, onde borbulhavam livros, quadros, canções, quase todos de uma qualidade tão gigantesca, que o tempo não os consumiu, que o tempo as perpetuou, nos fazendo ir sempre a elas, numa nostalgia que nos faz ter o desejo de poder voltar no tempo e ver tudo aquilo ser criado à frente de nossos olhos. Mas isso não acontece. Viagem no tempo é coisa de filme. Temos que saber viver o único tempo que nos é oferecido: o presente. Contudo, essa impossibilidade não nos impede de ficar contemplando esses bons momentos que queríamos (ao menos eu queria) ter vivido. Viver é impossível, mas saber como foi pelo olhar de quem viveu, não. E uma ótima oportunidade de ter essa experiência, mesmo que indiretamente e com certa restrição temporal, é através do livro do americano Ernest Hemingway no seu “Paris é uma festa”, livro que cobre sua estada em Paris no período de 1921 a 1926, fase em que resolve abandonar o jornalismo para se dedicar à Literatura, em que seus recursos são parcos, e que trava contato com literatos, pintores e artistas das mais diversas classes, tudo retratado em linhas curtas e sucintas.

“Paris é uma festa” (Círculo do Livro, 1964, tradução de Ênio Silveira) é um pequeno livro de grandes acontecimentos. Nele Hemingway retrata cinco anos de sua vida em Paris, uma época conturbada financeiramente pois ele havia largado o jornalismo para dar exclusiva atenção à literatura, o que, mesmo naquela época, não dava muito dinheiro, porque poucas revistas publicavam seus contos. Mas ele seguia. No livro vemos um Hemingway que escrevia em cafés, o que ele mais gostava de trabalhar era o Closerie des Lilas. O livro começou a ser escrito em Cuba em 1957, mas só foi finalizado em 1960, um ano antes da morte do Hemingway. Mas nem tudo o que Hem (como Hemingway era chamado pelos amigos) viveu em Paris está nas páginas de “Paris é uma festa”, nas palavras do próprio Hem: “Por motivos suficientes para o autor, muitos lugares, pessoas, observações e impressões foram deixados de lado neste livro. Alguns constituíam segredo, outros eram de conhecimento público, tanto já se escreveu – e ainda se escreverá – sobre eles”. Seria ótimo poder saber esses “segredos”, conhecer algumas de suas aventuras que não foram registradas no seu livro, mas a profecia de Hemingway se concretizou, muito escreveu-se (e ainda se escreve) sobre a “geração perdida”. Ainda tendo-se muito escrito sobre essa época, e há muito bons livros sobre isso, o livro de Hemingway continua sendo uma referência, ainda que sob um ponto de vista extremamente particular, sobre a Paris da década de 20. É pelos olhos de Hem que podemos ver, através de um passeio leve, uma Paris deslumbrante, onde se pode cruzar com um Picasso, com um Ford Madox Ford, ir ao estúdio de Ezra Pound bater um papo sobre arte e literatura, ir à casa de Gertrude Stein ver seus quadros e pedir que ela olhe os livros que se está a escrever, e querendo ler um livro, é só passar na Shakespeare & Company e alugar ou emprestar um livro com Sylvia Beach (quem sabe não se esbarre por lá com o James Joyce para saber mais sobre o grosso e estranho livro que está escrevendo), ou querendo descontrair é só passear pelo Jardin du Luxembourg e desanuviar a cabeça.

“Paris é uma festa” é um livro cheio de pequenas histórias escritas em capítulos curtos, mas aprisionantes. Vivendo na Rue Cardinal  Lemoine, número 74, área pobre de Paris, Hemingway, sua mulher Hadley Richardson o filho Bumby e o gato F. Puss, passam por bons apertos com a falta de dinheiro, tendo-se que se virar o que o tinham. Mas não eram maus momentos. Não viviam de todo ruim, mas tiveram que abandonar alguns passatempos que lhe custavam caro, como as apostas em corridas de cavalo, que tanto Tatie (como Hadley chamava Hemingway) como sua mulher gostavam de apostar. Das histórias apresentadas por Hem no seu livro, quase todas são curiosidades ou engraçadas, como quando Miss Stein (como Hem chama Gertrude Stein) diz que alguns de seus contos eram inaccrochable (uma maneira amena de chamá-los de indecentes), ou quando nos é dada a origem da expressão “geração perdida”, cunhada por Gertrude Stein: Miss Stein foi consertar seu carro, um “velho Ford modelo T”, e um dos mecânicos não mostrou-se muito competente ou interessado no conserto do carro de Stein e o seu patrão o repreendeu dizendo-lhe: “Vocês todos são uma génération perdue”. Stein achou a expressão acertada para designar os artistas e escritores daquela época como uma geração perdida, e a alcunha ficou. É possível ver também  o quanto Hemingway lia e como lhe era útil a livraria de Sylvia Beach, que lhe emprestava vários livros. Hemingway leu, da Shakespeare & Company, livro de Turgêniev, D.H. Lawrence, Tolstói, Dostoievski, Aldous Huxley e outros. Algumas partes são extremamente engraçadas, como as que Hem diz que a fome o fazia ver os quadros com uma percepção mais sensível, que a fome era uma ótima forma de se disciplinar. De todos os capítulos, os que Hemingway dedica para falar de Scott Fitzgerald são os melhores (e maiores). Hemingway era um admirador de Fitzgerald, que via como um grande escritor, um escritor mais velho e experiente. Ele aceita ir com Fitzgerald para uma excursão com o objetivo de resgatar o carro de Fitzgerald no interior da França na pequena cidade de Lyon. Essa pequena viagem é pontuada de acontecimentos insólitos, muito devido ao temperamento instável de Fitzgerald, que pensa estar com uma doença terrível e faz um escândalo no hotel em que ele e Hemingway estão hospedados, testando a paciência de Hem. Na volta, em um carro sem capô, os percalços se multiplicar devido a fragilidade etílica de Fitzgerald. Hemingway mostra, da forma menos intrometida possível, como seu amigo oscila entre momentos de calmaria e de explosão, o ciúme quase doentio de Zelda Fitzgerald em relação ao trabalho de seu marido, como ela lhe provocava ciúmes ao ir sozinha às festas forçando-o a abandonar o trabalho para acompanhá-la e como isso interrompia sua carreira de escritor. Todavia um escritor que escreveu um livro como o “Grande Gatsby”, só podia ser um grande escritor e merecia respeito como tal e Hemingway o respeitava assim, com o respeito que um grande escritor merece. Na última parte do livro é onde Hemingway escapa do inverno de Paris para esquiar em Schruns, pequeno povoado da Áustria, arriscando a vida em escaladas em altas montanhas e descendo desfiladeiros de neve fofa, onde o risco de avalanche é maior. Mas Hemingway era assim: arriscava sua vida em caçadas e nas montanhas, nunca tendo o mínimo medo da morte.

O estilo de Hemingway é um prato que deve ser saboreado à parte durante a leitura do livro: conciso, enxuto e verossímil, sem exageros, floreios, ou qualquer enfeite que sirva somente para acrescentar linhas. Uma leitura leve, descontraída. Um pequeno livro de grandes histórias, onde a objetivo era “retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muitos pobres e muito felizes”.

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