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A hora da estrela – Clarice Lispector

14/11/2011

Coitada da Clarice, o que as redes sociais fizeram com ela? Clarice Lispector, ucraniana de nascimento, mas brasileira de coração, é uma escritora genial em todas as acepções do termo. Com uma escrita que mergulha no inconsciente, que explora as qualidades e defeitos humanos com letras serenas, Clarice tem um lugar cativo dentro do panteão de literatos que revolucionaram a literatura brasileira. Seus livros incursionam em meandros que desvendam o humano em todas as suas qualidades, defeitos, que traz à tona suas agonias e regozijos. Uma escritora de mão cheia, uma grande escritora. Mas me dói ver como a martirizaram nesse mundo das citações. Ela é uma fonte inesgotável de frases que têm um impacto profundo no leitor. Devido a isso saturaram seu nome e, de alguma forma, crucificaram sua literatura, relegando-a ao escuso grupo de autores que se prestam somente a servir de fontes para frases de efeitos que adornam os cadernos, os perfis em redes sociais, que se derramam da boca de adolescentes e jovens que sequer a leram. Isso me dói como leitor. Porém, mesmo tendo caído no mundo dos clichês, Clarice Lispector não perdeu sua força. Seus livros contêm ainda a mesma magia dos primeiros anos após suas publicações. Sua escrita continua com o mesmo vigor, com a mesma intensidade, e nos mexe da mesma forma como há anos. A prova disso é o seu pequeno livro “A Hora da Estrela”.

Macabéia é uma nordestina como todas as outras, que vive como todas as outras, mas que carrega em sai uma ingenuidade que a torna deslumbrante, mesmo sendo tão magra e feia, do tipo que não desperta olhares de admiração, talvez desperte alguns de curiosidade, mas só isso. É um ser apático, mas com ares de magia. É um ser que carrega dentro de si sonhos que ninguém acredita serem possíveis de realizar, mas que ela sabe que se realizaram. Macabéia é a personificação dos nossos desejos, de nossas injustiças, de nossas apreensões, de nossas ambições, de tudo o que queremos ser, só que não temos conseguido. “A Hora da Estrela” é a história dessa personagem magistral das nossas letras. Contada por um escritor que se apaixona por sua protagonista num amor que nem ele mesmo entende, a vida de Macabéia se desnuda diante de nossos olhos de uma forma tão cativante, que parece ser impossível não amá-la também. Chorar junto quando ela também chora, se diverte junto com ela quando ela tem alguma alegria, quando ela resolve dar-se um dia de folga do seu trabalho de datilógrafa alegando ao patrão uma falsa gripe, ou quando ela se dá de presente (pois ninguém dá nada à ela) um batom vermelho, ou quando ela começa um estranho namoro com o Olímpico de Jesus; não há como se entristecer quando ela é abandonada por Olímpico que a troca, movido pelo interesse de um homem que se julga esperto, por sua amiga de trabalho Glória. Macabéia parece ser um reflexo de nós; ela é uma extensão nossa. Macabéia foi feita para ser amada, não há como não amá-la.

O livro de Clarice Lispector é metalinguístico. O narrador (que é exposto no livro como o verdadeiro escritor do livro), o Rodrigo S.M., discute sobre o livro e sua construção, seu impacto em quem o está lendo, enquanto conta a história de Macabéia. O narrador para, vez ou outra, a história que conta para falar sobre ela. Discute ações futuras, discute qual é a melhor maneira de começar a conta a vida de Macabéia. É um livro sobre livro também. Sobre como melhor escrever uma história. Tenho pra mim que só grandes escritores podem escrever literatura que fale de literatura sem haja perda de qualidade. Clarice conseguiu magistralmente, com uma aparente falta de esforço. “A Hora da Estrela” é o tipo de livro que se lê num sentada só (tem só 87 páginas), mas que reverbera por muito tempo na cabeça. Um pequeno grande livro contando uma curta e profunda história: a nossa. Nele Clarice mergulha na análise do real, da sua visceralidade. Macabéia parece ser uma de suas criações perfeitas. Saindo um pouco do intimismo, tão habitual à sua obra, Lispector se debate com a realidade numa personagem que nem se dá conta da própria existência, que toma como verdade tudo o que ouve na Rádio Relógio. Clarice Lispector está preocupada com os fatos. Nas suas palavras: “Que não se esperem, então, estrelas no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. É que a essa história falta melodia cantabile. O seu ritmo é às vezes descompassado. E tem fatos. Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura – fatos são pedras duras e agir está me interessando mais do que pensar, de fatos não há como fugir” (grifo meu). E são os fatos, a realidade, que nos dá Clarice, escondida na figura do fictício escritor Rodrigo S.M., fatos sem adornos. O fim de Macabéia talvez seja a melhor forma de mostrar isso. Ou talvez seja a melhor forma de nos escancarar que esse mundo não é de sonhadores, daqueles que vivem pensando e não fazem nada. Clarice nos mostra que não há como escapar dos fatos, de que todos teremos a nossa hora, a hora de estrela.

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