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Bartleby e Companhia – Enrique Villa-Matas

14/02/2012

Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.

Pra mim, escritores que não escrevem é um mistério insolúvel. Como explicar o fato de Salinger, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea, ter publicado apenas 4 livros e logo em seguida se calar, num silêncio que durou mais de 40 anos até sua morte em janeiro de 2010? Assim como Salinger, existem muitos outros bartlebys na literatura.

A síndrome de bartleby tem esse nome por causa do conto de Herman Melville, “Bartleby, o escrivão”, sobre um jovem que responde a anúncio de jornal oferecendo uma vaga de copista. No início se dedica com vigor ao seu novo emprego, sempre na ânsia de copiar algo, até que uma apatia vai tomando conta dele, a ponto de ficar dias sem fazer nada, sem se alimentar, sem sair do seu lugar, apenas olhando pela janela, e quando o dono do cartório insta-o a copiar algo, responde sem vontade: “preferia não o fazer”. E assim segue, absolutamente indiferente às coisas até seu triste fim. E, isolando a essência desse personagem, o escritor Enrique Villa-Matas escreve seu livro “Bartleby e Companhia”.

Um livro de notas para um texto que não existe. Notas que falam de escritores que não escrevem. O autor dessas notas, um escritor corcunda que não publica há mais de 25 anos, fascinado por bartlebys. Não dá para nomear o livro de Villa-Matas como um romance, afinal seu narrador é um bartleby, um não-escritor, nem como um livro de literatura comparada como quer Antonio Tabucchi, grande escritor italiano, autor de “Réquiem”. Prefiro vê-lo como um estudo de caso. Durante suas notas, o desconhecido narrador do escritor espanhol, vai formando uma galeria de autores do Não, contando suas inusitadas histórias através de uma descontraída conversa que, a cada folha, fica mais interessante. As notas transformam-se em alguns longos parágrafos, com escritores reais e outros fictícios, frutos da imaginação de Villa-Matas.  A galeria do Não é grande e tem sessões de razões pelas quais os escritores optam pela não-escrita, como de escritores que resolveram não escrever por causa de uma justificativa bizarra, como Juan Rulfo, autor de “Pedro Páramo” (e um ótimo fotógrafo como revela o livro “100 Fotografias”) que, depois de ter publicado sua obra-prima, ficou 30 anos sem escrever nada e quando perguntado por que não escrevia mais, respondia: “É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias” ou como o espanhol Felipe Alfau, que renunciou à escrita por causa das complicações que aprender o idioma inglês lhe trouxeram e por “ter-se tornado sensível a complexidades nas quais nunca havia reparado” ou ainda como Hofmannsthal, que preferiu não mais escrever por ter, segundo ele, perdido a capacidade  de pensar e falar coerentemente sobre alguma coisa. Há casos de escritores que eram aventureiros, como Rimbaud que escreveu apenas dois livros ainda muito jovem (aos 19 anos já tinha escrito sua obra completa) e calou-se literariamente pra sempre, morrendo com apenas 37 anos. Outro caso de bartleby por essência foi Kafka, homem tímido, de voz embargada, e que tinha mania de destruir o que escrevia (o que nos restou, ainda que incompletos na sua maioria, temos por causa de seus amigos que não permitiram que queimasse seus escritos). Existem ainda aqueles que não escrevem por se acharem um ninguém. Como, por exemplo, Pepín Bello, mente que liderou uma das gerações literárias mais geniais da Espanha no século XX, que dizia um ninguém e não escrevia por ter plena convicção disso.  Uma parte da galeria de notas é dedicada também aos bartlebys suicidas. De Quincey, autor de “Confissões de um Comedor de Ópio”, que morreu em virtude de seu vício (um suicídio lento), é um deles. Uma variante engraçada de bartleby, mesmo que ficcional, é de Paranoico Pérez, personagem criado por Antonio de la Mota Ruiz, que não escreve porque toda vez que tinha uma ideia para um romance, José Saramago escrevia e publicava primeiro. A galeria é imensa, ainda que o livro seja curto.

A literatura do Não, nas mãos de Enrique Villa-Matas, adquire ironia, leveza. As inúmeras notas relatando curiosos casos de escritores acometidos pela síndrome de bartleby são escritas num estilo bem humorado, sempre lembrando uma conversa descontraída e revelando uma fina erudição. Claro que o livro de Villa-Matas deixa alguns outros famosos bartlebys de fora. Os nossos maiores exemplares de escritores do Não encontram-se na figura de Manuel Antônio de Almeida, que publicou apenas “Memórias de um Sargento de Milícias” e se calou. Outro bartleby, e discordem o quanto quiser, foi Pio Vargas, que através das drogas se recusou a ser uma das mais espetaculares estrelas da poesia brasileira. O mais emblemático bartleby tupiniquim, pra mim, é o paulista Raduan Nassar que depois de publicar um dos mais marcantes romances da literatura contemporânea brasileira, “Lavoura Arcaica”, parou de escrever.

Esse é ainda um mistério não resolvido. Não existe uma razão pra essa recusa da escrita. Cada escritor faz a sua. Alguns largam porque isso de literatura e escrever é “fácil” demais, outros por acharem que é o contrário, e ainda outros porque querem fazer qualquer outra coisa que lhes pareça mais interessante. Não importa a razão, eles param. Como não podemos forçá-los a escrever novamente (falo dos vivos), podemos pelo menos nos deliciar com essa curiosa mania de não-escrever. E, para isso, o livro de Enrique Villa-Matas serve muito bem. Ou, quem sabe, todos estejam errados e esses escritores do Não sejam grandes escritores do silêncio, pois pode ser que Robert Walser tenha razão: “escrever que não se pode escrever também é escrever”.

One Comment leave one →
  1. 14/02/2012 20:46

    Sua resenha me deixou curioso, ainda não tinha ouvido falar do livro, tão pouco do conceito de “síndrome de bartleby”… interessante, vou procurar!

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