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Epitáfio – Flávio Paranhos

18/04/2012

No geral, e isso vendo de forma bem rápida, mas não superficial, o conto hoje tem um lugar muito reduzido e de pouca relevância dentro do cenário literário brasileiro. Apesar de ser um dos gêneros mais utilizados pelos escritores iniciantes, mesmo como um exercício criativo, que pode ajudar na elaboração de uma trama de mais complexa como é o caso do romance, o conto tem uma manifestação pífia, pra não dizer medíocre. Com pouca criatividade, ou mesmo nenhuma, o conto brasileiro é pobre, repleto de elementos que procuram camuflar a falta de criatividade que tem permeado de forma profunda a literatura, tanto brasileira quanto universal. Todavia, a boa literatura, assim nesse sentido elitista do termo – porque me recuso a ser politicamente correto quando o assunto é literatura, consegue sobreviver, como, aliás, sempre conseguiu, pois o grande crivo que diferencia um bom livro do mau livro é o tempo, que costuma, pelo menos no que diz respeito à literatura, ser um pouco mais justo do que é com as demais áreas da vida.

O conto não é o meu gênero literário por excelência – falo como leitor – entretanto têm alguns autores que ganham minha simpatia pela incrível capacidade de conseguirem escrever de forma concentrada e precisa sobre temas densos em poucas folhas. Talvez por isso haja tão poucos bons contistas atualmente, porque o conto demanda muita capacidade e talento descritivo, saber colocar a trama toda envolta em um único núcleo que mova todos os personagens – que devem ser poucos – e faça o leitor sentir todo o fluxo da escrita. Conseguir fazer isso é trabalho de gênio, e essa é a razão que na nossa literatura eu consiga contar nos dedos de uma única mão os bons contistas, dos quais posso citar sem hesitação o excelente Machado de Assis, mestre inconteste desse gênero, Moacir Scliar, que tem sacadas contísticas fenomenais; Lygia Fagundes Telles, escritora que compõe histórias de uma sensibilidade tão refinada que a releitura de seus contos é inevitável; Rubem Braga, um dos maiores escritores da última boa safra que a nossa literatura teve, e alguns poucos outros. Por isso sempre que encontro bons contistas, me empolgo. É sempre empolgante, para qualquer leitor, esbarrar com um bom escritor. Principalmente se esse escritor for irônico, sarcástico, curto e grosso, e seja engraçado. E essas são as qualidades do escritor goiano Flávio Paranhos que estão muito bem postas no seu livro “Epitáfio”.

O “Epitáfio” é um livro curto e seco, bem como a prosa de Paranhos; os contos são mais curtos ainda, com histórias que tem referenciais eruditos, como no conto “Passeio” em que personagem principal vai passear com a irmã de Gatsby – “sim, ele tem uma irmã, mas não vale a pena explicar isso agora” – fazendo referência ao protagonista do livro “O Grande Gatsby” de Scott Fitzgerald; ou ainda quando Soren e Arthur (fazendo alusão aos filósofos Soren Kierkegaard e Arthur Schopenhauer) dialogando sobre vida com intenções de se suicidarem, esse diálogo sendo travado numa mesa de bar – os “cafés parisienses” de hoje.

Um dos melhores contos do livro, “Doença”, que conta história de um aspirante a poeta que tem uma estranha doença que começa com uma gostosa coceira na mão direita e que se transforma numa terrível ferida que se espalha por todo o seu corpo. Na busca da cura, ele vai para uma clínica onde conhece o enigmático Franz, que escreve em um caderno algo que parece que ser mais enigmático do que ele. A relação de amizade dos dois se estreita de forma muito insólita – eles pouco se falam – até o ponto em que Franz morre e o conteúdo do seu caderno pode ser descoberto. Uma história em primeira pessoa, como quase todos do livro, que tem gracejo, desenvoltura e tem um ritmo muito gostoso. Enfim, a melhor história do livro.

O livro é enxuto com uma prosa de ritmo rápido e fluído. Não pode piscar, porque se o fizer já perdeu muita coisa. Tudo é rápido. Você começa o conto numa lauda e na outra ele já acabou e se você não prestar atenção, vai ter que ler de novo. Além dessa velocidade, outra característica que se tem destaque é o estilo jornalístico da prosa.

Paranhos tem a grata qualidade de conseguir fazer com que histórias banais se transformem em engraçados episódios, rendendo bons enredos. Alguns de seus contos terminam de forma tão abrupta e repentina que não se pode tirar um significado de imediato, tendo que deixá-los no banho maria mental, pra que depois eles possam ser absorvidos e alguma interpretação viável possa ser feita. Alguns outros nunca terão interpretação – vejo assim – porque essa, parece, foi a intenção de Paranhos.

Flávio Paranhos, escritor, médico pela UFGO, doutor pela UFMG e research fellow pela Universidade de Harvard (essa é sua formação em Oftalmologia) e sua formação em Filosofia, onde ele é mestre pela federal de Goiás e visiting fellow na Universidade de Tufts, Boston, onde foi aluno de Daniel Dennet, um dos maiores nomes da Filosofia contemporânea, poderia fazê-lo um escritor pedante que direcionasse sua escrita pra uma tentativa de hermetismo que talvez o fizesse um chato. Mas na contramão disso, resolveu ser um escritor que optou pelo o humor e a ironia para compor sua literatura. Precisa ainda melhorar em alguns aspectos, no sentido da construção dos personagens, por exemplo; mesmo com algumas falhas, como é de se esperar de um livro de estreia, “Epitáfio” consegue alcançar seu leitor, até mesmo prevendo algumas de suas reações, no sentido de fazê-lo concentrar-se de tal forma na leitura que o livro é rapidamente finalizado em apenas uma sentada. Um livro que não vai ficar na história, não entrará no cânone, mas que muito dificilmente sairá da sua cabeça.

One Comment leave one →
  1. 18/04/2012 20:43

    Olá!

    Sou moderadora do Blogosfera em Rede e gostaria de expressar o quanto fiquei encantada pelos seus escritos. Destaco que você conseguiu expressar o que penso sobre conto e só acrescentaria a Clarice Lispector nessa temática. Embora já tenha lido vários questionamentos sobre o enredo dos seus contos, sou uma apaixonada pela sua arregimentação de personagens.

    Estarei sempre por aqui e obrigada pela indicação do autor.

    Lu
    http://www.lucianasantarita.blogspot.com.br

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