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O Insaciável Homem-Aranha – Pedro Juan Gutiérrez

28/04/2012

Quando se escreve sobre Cuba, resvala-se quase sempre numa escrita que tenta retratar o exotismo e que está imbricada de personagens curiosos e mórbidos, que acabam caindo num naturalismo requentado, que despertam pouco interesse estético (nem teria como ser do contrário, pois são livros sem graça que buscam sempre um lado ideológico, seja contra ou a favor do regime do governo cubano). Livros que superam esses problemas ainda são poucos, mas Pedro Juan Gutiérrez, um dos mais gabaritados nomes da atual literatura cubana, consegue suprimi-los com maestria peculiar a grandes escritores. Grande demonstração de seu talento é o seu livro “O Insaciável homem-aranha”.

Transitando entre conto, romance e diário íntimo, “O insaciável homem-aranha” é um livro narrado todo em primeira pessoa com um narrador viciado em rum, erotômano inveterado que anda pelas ruas de Havana buscando coisas e pessoas; um escritor que vive uma vida dedicada às bebidas, ao sexo e – principalmente – à literatura, que possui traços claramente autobiográficos o que é, no caso desse livro, um ato de extrema coragem – não pelo livro conter alguma mensagem de cunho político, porque não o tem e isso nem é preocupação de Gutiérrez – pois o seu narrador é despudorado, safado, bêbado, porém simpático, engraçado, que anda pelas ruas Havana e sente tesão pelas mulheres que consegue descrever com precisão cirúrgica. A Havana que o narrador de Gutiérrez descreve é suja, mal cuidada, abandonada, onde as pessoas brigam por um pedaço de carne, onde produtos básicos são contrabandeados como se fossem drogas; é uma Havana decadente, degradada, mas, na prosa de Gutiérrez, toma, graças a esses elementos, um ar de cinismo, de safadeza, de heroísmo – porque viver numa cidade assim é um ato heroico – onde luta-se para sobreviver.

Muito mais do que o sexo, as bebidas e a sujeira de Havana, o que predomina no livro de Gutiérrez é a sua relação com a esquiva e sedutora dama Literatura, que ora o salva ora o põe em situações extremas. Optar viver de literatura numa terra onde ela não tem futuro promissor é uma decisão perigosa, que envolve riscos que podem até ser de vida. Entretanto foi essa a decisão de Gutiérrez, que é, obviamente, muito mais lido fora de Cuba do que por seus conterrâneos.

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