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O Elefante do Cego – Edival Lourenço

19/07/2012

Tenho estado cada vez mais convicto de que os bons escritores estão escondidos em pequenas cidades, sendo publicados por pequenas editoras e fazendo seus livros de forma calma e parcimoniosa (não estou entrando em contradição com o que escrevi algum texto passado, afirmando que sobre a facilidade que escritores ruins têm para publicar via editoras pequenas; as duas coisas podem ser facilmente plausíveis e paralelas). Bons escritores referendados por grandes conglomerados de editoras também surgem vez ou outra; entretanto (e essa é a minha tese a respeito), eles têm sido ofuscados pelos medíocres. Desses tem-se às pencas. Tantos que não para ficar muito tempo na seção de lançamento das livrarias sem ter o mínimo de náusea com os títulos e o seus autores.

Mas deixemos os ruins de lado. Ainda que escassos (e estou certo quanto a isso, por favor não discorde), os bons escritores podem ser encontrados. E, no ano passado, encontrei um daqueles que você quer saber se ele publicou mais, onde encontrar mais livros seus. Esse é o goiano Edival Lourenço. Falei de dois dos seus livros por aqui, o “Centopeia de Néon” e o “Naqueles morros, depois da chuva”, dois bons livros como fiz questão de atestar. Edival é um habilidoso ficcionista e ainda estou com seus livros de poesia para ler, como “Coisa incoesa”, “Pela alvorada dos nirvanas”, porém antes de lê-los resolvi enveredar pela verve cronista-ensaística de Edival. Sem arrependimentos. O livro foi o “O Elefante do Cego”, um conjunto de textos publicados no Jornal Opção e Revista Bula.

A primeira dificuldade, já apontada pelo prefacista Euler de França Belém, é classificar qual gênero dos textos: saber se são crônicas ou ensaios. Por via das dúvidas, optei, assim como Euler, vê-los como crônicas-ensaios. Escrever crônicas é escrever de forma datada e limitada. Nem todos têm a genialidade de um Machado de Assis, Paulo Francis ou ainda Paulo Mendes Campos. Fazer com que suas crônicas ultrapassem a limitação do tempo e se torne atual e relevante em qualquer época, exige esforço que apenas escritores compenetrados conseguem dar cabo. Edival conseguiu, em alguns de seus textos, fazer essa proeza. Textos à prova do tempo. Talvez seja cedo demais para fazer essa avaliação, que pode, muito bem, ser precipitada. Mas não costumo errar com tanta frequência assim para que dessa vez eu esteja equivocado. Basta ler os textos como “Lições de Tiro”, “Democracia ou cleptocracia” (aliás, esse é um dos melhores da coletânea), “Salvação pelo engano” ou “Traidor? Quem?” para constatar que, mais uma vez, estou certo. A qualidade e inteligência dos ensaios-crônicas de Edival lembram, não como influência ou estilo, mas apenas como uma associação de leitor, Machado de Assis com a ironia discreta e certeira. No grupo dos textos datados (não encarem isso como se fosse algo ruim), valem destaque: “Herói cubrado e retumbante”, “O dedo mindinho de Lula” e “A grande jogada é ser pobre”. E do grupo que não gostei, estão na lista textos como “O globom cabrito não globerra” e o terrível, lastimável (também uso esses adjetivos com escritores que gosto quando escrevem o que não gosto) “Liberdade de expressão etílica”, a respeito desse texto escrevi uma nota ao lado da página com os seguintes dizeres: “Artigo que defende ideais da burguesia de direita, numa canhestra tentativa argumentativa em defesa da moral familiar nuclear”. Edival também tem disso nas suas crônicas-ensaios. Defende com seu ar senhoril o charme da direita em dizer algumas que normalmente não seriam aceitas se não fossem tão bem escritas. Mas isso não diminui em nada a qualidade das ideias e da escrita de Edival (não que eu seja um esquerdista preocupado, aliás  nem sou esquerdista e deles não gosto).

Os textos de Edival Lourenço carregam uma inteligência muito particular, com personalidade facilmente identificável, que tem uma marca peculiar. A forma como concatena seus raciocínios é apaixonante. Tem lá o que seu quê de “cale a boca seu esquerdista!”, mas é um livro com muito mais qualidades do que defeitos, que não perde nada por causa do charme burguês de seu autor.

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