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Amado Monstro – Javier Tomeo

03/08/2012

Um homem de 30 anos vai à uma entrevista pleitear seu primeiro emprego. Chega numa sala monótona e fria, como são todas as salas de espera, e entra na sala do Diretor do Departamento Pessoal para fazer sua entrevista. A conversa começa tranquila (e fria), distante. Uma entrevista comum. Seria, em tese. O entrevistado é João D., homem inteligente e lido, que ainda está sob a tutela da mãe, e que alimenta o desejo da independência. A entrevista, que nas mãos de qualquer outro autor contemporâneo (que escrevem esses best-sellers) seria apenas folhas tediosas de uma conversa monótona, nas mãos do aragonês Javier Tomeo toma uma proporção existencial.

Por meio de um diálogo que desdobra-se numa conversa onde ambos, entrevistador e entrevistado, revelam seus segredos e começam a pensar na vida e filosofar sobre uma série de assuntos, vamos conhecendo a vida de João, sua mãe e suas prisões. As linhas de Tomeo são rápidas, corridas, que se assemelha a linguagem jornalística. O diálogo entre João D. e H.J. Krugger é um grande (apesar das poucas páginas do livro) jogo de palavras e poder. Um ping pong de pensamento.

Desvelando toda a história recente (à época da publicação, em 1987) da Espanha, Javier Tomeo focaliza sua narrativa na tortuosa relação de João e sua mãe, uma dominadora e chantagista emocional que o mantém preso sob suas regras. A forma como Tomeo vai mantendo o diálogo é fomidável. Ele nunca fica cansativo (e as poucas folhas ajudam nesse sentido) e o espanhol utiliza-se dos parênteses de uma das formas mais criativas que vi na literatura espanhola para delimitar o ritmo da conversa. Isso numa magistral narrativa em primeira pessoa. Uma das mais deliciosas partes da leitura é ver João analisando todas as ações de Krugger enquanto conversa com ele. Milimétrico na sua psicologia. E mesmo nisso, Tomeo foi fantástico: nos momentos em que a conversa se configura mais como uma sessão psicoterápica, ao invés de desviarmos o olhar para o possível enfado que essas páginas poderiam nos dar, mergulhamos ainda mais na composição dos protagonistas, nos fascinando com suas características de personalidade não-expostas. O mergulho que Tomeo faz no inconsciente é quese freudiano. João D. põe todas as cartas na mesa (com a devida preocupação de um candidato a emprego) sobre sua relação com a mãe. Krugger também revela alguns de seus segredos, pequenos e discretos. A ligação, sempre controlada pela posição hierarquica que ocupam, é plena. Um se aprofunda na mente do outro, tentando lhe desnudar um pouco mais as fraquezas e debilidades. Uma grande história.

Javier Tomeo é um grande romancista. Domina a psicologia de seus personagens com uma caracterização minuciosa feita com ares de mestre. É surpreendente. Controla o ritmo de sua escrita. Enxuto, calmo e sincero (características difusas para se dar à um trabalho literário). Seu livro é uma leitura fundamental. Tanto para filhos, quanto para mães.

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