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Coma de 4 – Vinni Corrêa

04/08/2012

A literatura erótica tem passado por reformulações. Tem atingido patamares pouco interessantes em alguns aspectos. Isso talvez aconteça pelo fato de estarmos sendo bombardeados das mais diversas informações que carregam em si uma forte carga de erotismo. Para ser destaque, a literatura erótica e pornográfica tem investido nas excentricidades sexuais em seus livros. Muitas vezes essa estratégia não surte o esperado efeito. Acaba por ficar mais caricato e cômico do que realmente erótico e excitante. Os leitores não são inocentes, ingênuos. Mais do que isso: não gostam de serem tratados como tais. Por essa razão, os leitores, os de bom gosto, querem mais do que uma mera descrição ou uma literatura erótica eufêmica. E, mais do que a prosa, um gênero que exige um árduo trabalho é a poesia erótica. Poetas que usam o erotismo como matéria-prima de suas poesia e que possuam elevada exigência literária são escassos (minha velha tese de sempre). O que vemos hoje nos livros de poesia erótica é uma série de frases diluídas em eufemismos que não tiram o leitor (que já sabe tudo aquilo de cor e salteado) do lugar. Mas os livros pipocam. As editoras não param de publicar; as máquinas prensam um livro atrás do outro. Poucos valem algo, e menos ainda os que leio. Mas eis que me chega em casa um livro rosa com um triângulo preto na capa. O livro: “Coma de 4” do carioca Vinni Côrrea.

Tenho certo retraimento quando autores me enviam seus livros para apreciação. A dificuldade que tenho (a única) é ser bastante claro em fazê-los perceber os pontos negativos de seus trabalhos. Alguns poucos têm esse discernimento. Canso de perder amigos que escrevem (não escritores, porque um escritor de fato não se ofende com tanta facilidade assim) por esse fato. Me preocupei em colocar esse adendo para evitar possíveis ruídos. Entretanto, o livro de Vinni veio com a seguinte dedicatória: “Ricardo, envio-te este exemplar para tua crítica”. Não sou crítico literário, sou apenas um leitor detalhista e me relego a este cargo. E como leitor com critérios um pouco mais apurados, me debrucei sobre o livro de Vinni.

Julgo todo livro pela capa. O “Coma de 4” tem uma divertida, mas não engraçada. Por isso não fui sisudo ao abri-lo. Estava num bom humor gigantesco quando comecei a lê-lo. E o poema de abertura era o “Fio Solto”. O melhor de todo o livro. Me pegou de supetão. Dosado, comedido e propositivo. Exemplo de bom poema. Levado por essa boa primeira impressão, me empolguei. Ao virar a página após página e ir me aprofundando no curto livro, a empolgação foi esmaecendo. De vez em quando, um poema me prendia um pouco mais, só que não dava para considerá-los bons. Precisavam de alguns elementos a mais. Estavam capengas. Se os poemas mantivessem o mesmo ritmo de qualidade do primeiro, o livro poderia ter saído bom, atingindo um nível mínimo de composição inteligente. Mas não se manteram. E o livro acabou decrescendo qualitativamente.

Os poemas de Vinni estão permeados de timidez, diria que até de medo. Não há como definir bem se medo de escrever ou de escancarar suas taras. Ele acaba ficando num fingimento eufêmico que desgasta a leitura, a torna maçante. Como se fosse um arremedo de parnasianismo erótico. O poeta carioca tem que seguir o conselho do romancista cubano Pedro Juan Gutiérrez quando diz que “sexo não é para gente escrupulosa”. Quando se propõe a escrever poesia erótica tem que ser inescrupuloso (com as descrições, não com o esmero linguístico). Vinni ainda é muito escrúpulo. Precisa se despudorar, deixar de usar expressões como “fere minha epiderme erotógena” (não tem como levar a sério um verso assim). Nenhum escritor pode julgar seus leitores uns ingênuos. Não existe ingenuidade nenhuma no leitor que compra um livro cujo título é “Coma de 4”. Logo, não existe razão para escrever como se fosse um escritor do século XVIII. Não pode haver medo de carregar os versos de safadeza, de putaria. Com classe, por favor. Caso contrário, fica-se parecendo com um adolescente imberbe que quer transar com uma guria, mas tem medo de dizer. Vinni é um autor de poesia erótica que tem medo de ser pornográfico. E com esse medo torna-se apenas um puritano falando de sexo. Num mundo de vadias e putos, não existe lugar, na vida e na literatura, para essa terrível e estúpida palavra chamada decência.

One Comment leave one →
  1. Rachel permalink
    03/01/2013 10:41

    Pequena correção: “Mas não se mantiveram”

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