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Meus Dias de Escritor – Tobias Wolff

10/04/2014

Meus dias de escritor - Tobias WolffA literatura talvez seja a única forma da humanidade livrar-se da sua própria insanidade. Recorda-me Franz Kafka que dizia que qualquer coisa que não fosse literatura, o irritava. A literatura é isso: uma linha conectora, uma lupa que te permite olhares mais aprofundados da realidade.

Mas a literatura também pode desdobrar-se em guerra, em disputa. Pode ser o esforço da comprovação da meritocracia, como meio de definir quem pode ser o melhor. Por isso, na história da literatura, existem diversos concursos literários. E foi usando esse mote da literatura como disputa, que Tobias Wolf, autor “O Despertar de um homem” (que foi adaptado ao cinema), compõe o seu romance “Meus dias de escritor” (Ediouro, 2006, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges).

Porém o livro não é de literatura. É de amor, de ódio, de luta, de raiva. Na Nova Inglaterra uma das mais prestigiadas escolas particulares, com vasto histórico na tradição literária, promove anualmente um concurso de contos, do qual o vencedor terá como premiação uma audiência particular com um grande escritor. Tudo nos é revelador por meio do narrador, que lá estudou e hoje a tudo vê com distância, mas sem esquecer-se dos arroubos da juventude.

Durante todo o percurso do livro, vamos vendo os laços de amizades, escritores como personagens (o poeta Robert Frost, como também Ayn Rand, figuram nas páginas de Wolff, talvez como asteriscos literários, mas também como caricaturas suaves, de traço calmo; de qualquer jeito, deixando, cada um, algo de si), as figuras insólitas que existem em toda e qualquer escola. Então, como uma revirada em paradas folhas, surge o boato que Hemingway seria o próximo escritor a visitar a escola.

A partir dai os laços se reconfiguram e tudo fica nebuloso. O grande ídolo literário de gerações poderá ler uma das histórias e escolher a melhor. É aí, na busca dessa glória, que a honra, a amizade, companheirismo, e a lealdade perdem o sentido. A ética torna-se obsoleta e tudo, nesse jogo, vale a pena.

O livro, que se constrói com personagens singelos, tem como tom a beleza do relacionamento com a literatura. Ela, personagem indireto e oculto, vai sendo mostrada a cada folha, paradoxalmente, como o personagem principal. Não cuides que estou a me contradizer, leitor desse parco diário. Tobias Wolff, nesse seus “Dias de escritor”, nos revelar o que já sabido (ao menos pra nós leitores, assíduos consumidores de romances): a literatura é a única conselheira, ainda que silenciosa, dos nossos dias.

A narrativa de Wolff se caracteriza pela singeleza das linhas, que desenham personagens melancólicos, cenários frios, tudo com ar sério e pesado, onde somente a literatura consegue imprimir cores mais vivas, e alegrias mais sinceras. Afinal, as únicas belezas e felicidades da vida jazem nela, na literatura.

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