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Desonra – J.M Coetzee

17/08/2014

Desonra - J.M.CoetzeeVê-se, na modernidade, a busca por uma literatura experimental, naquele seu sentido, às vezes, mais visceral: repleta de “inovações” semânticas, gramaticais, mesmo chegando a tentativa de explorar novos léxicos simples e complexos (dê-me, leitor meu, o direito de rimas involuntárias).

Nomes de peso, de alta qualidade, pra exemplificar isso não faltam. Nomes cabais e essenciais para a compreensão do humano moderno, como James Joyce com suas obras colossais de puro exercício linguístico e de mergulho na consciência, ou Thomas Pynchon, que já usa discursos entrecortados, mesclados, complexos, e longos pra expor suas histórias e seus amálgamas (o que também aplica-se a Joyce); dentro dessa “escola experimentalista” encontramos o nosso Guimarães Rosa com o seu resgate linguístico do vasto e multifacetado idioma do sertão, e um dos meus prediletos na literatura lusófona, José Saramago que quebra os paradigmas semânticos e linguísticos ao mesmo tempo em que resvala no fantástico do realismo, enquanto, hora ou outra, afasta-se do realismo fantástico, sendo-o sem sê-lo, nas suas leituras profundas, crueis e incômodas do mundo e também na sua incansável desconstrução de mitos, por meio da releitura de arraigadas mitologias, como a judaico-cristã . Ainda há tantos outros que, na busca do encontro da sua literatura e do seu fazer literário, criam seus próprios modos de comunicar e narrar, e nessa lista constam nomes como o do português valter hugo mãe (querido por Saramago e de quem sofreu influência direta), Antonio Lobo Antunes, ou nossos poetas Augusto dos Campos e Paulo Leminski. A lista é vasta e o espaço, pouco.

No campo oposto estão os escritores que optam pela sobriedade na escrita, sem experimentações linguísticas, mas com produções igualmente poderosas. Nessa lista temos Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Don Delillo, Ernest Hemingway, Mario Vargas Llosa, Carlos Drummond de Andrade, e o escritor-tema desse texto: J.M. Coetzee.

Entre as várias injustiças que a Academia Sueca já cometeu ao laurear autores de pouca monta e ignorar alguns gigantes, existe um caso em que a justiça foi feita e o mais importante prêmio das letras mundiais foi entregue a um real merecedor: John Maxwell Coetzee, escritor sul africano, quarto do continente a receber a honraria.

Coetzee é um escritor prático. Sem ousadias ou “firulas”, sua narrativa é repleta de certa austeridade e ritmo médio (sem ser mediano, que se entenda), nada de pulos narrativos vertigionosos, nada de lentidão. Escritor de obras com ínicio, meio e fim bem demarcados. Porém, nada disso conta como fator depreciador da obra coetzeeana. Aliás, isso se classifica como estilo que o autor preferiu adotar e do qual dá conta muito bem. Com uma capacidade eloquente de contar uma história, Coetzee é um escritor para se ler degustando os períodos e orações. No seu “Desonra” (Companhia das Letras, 2013, trad. José Rubens Siqueira) todas essas características ficam patentes.

Contando a história de David Lurie, 52 anos, erudito, divorciado por duas vezes, professor, cínico e mulherengo, o romance de Coetzee divide-se em 24 capítulos claros, concisos e com a densidade em proporção justa para um romance curto (são somente 246 páginas). Com a pretensão de escrever uma ópera sobre Byron, David nos é apresentado a seguinte forma, num dos mais belos inícios de livros da recente literatura mundial:

“Para um homem na sua idade, cinquenta e dois anos, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Gree Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que ciera bem e tem luz suave e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. ‘Sentiu saudade de mim?’, ela pergunta. ‘Sinto saudade o tempo todo’, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor de mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.”

Esse é o prelúdio que já esboça os traços da personalidade de David, que se usa utiliza do seu cinismo e nos leva para a antessala do romance: o caso com a sua aluna Melanie. Com menos do dobro de sua idade, Melanie é envolta pelo charme maduro de David e com ele tem um flerte. Mas sendo o caso descoberto pelo pai de Melanie, uma denúncia, que abre um processo administrativo da universidade, recai sobre David. Julgando ser “vítima” de um inquisição “tendenciosamente” feminista David se demite e vai para o interior do país viver numa área rural com sua filha Lucy, que é proprietária de uma pequena fazenda. Imerso na rotina da filha, que se resume a fazer feira e cuidar de animais, o microsmo aparentemente tedioso é abalado quando a fazenda é atacada por três homens dos quais um estupra Lucy e de quem ela engravida. Nesse ponto, Coetzee dá contornos universais para a trama, já que não existe nenhuma resolução pragmática e Lucy se resigna ao que acontece (com receio de novos ataques e pela desgraça financeira que chega junto com o saque).

Tudo se dá numa estranha conexão de fatores: Lucy dividia as obrigações da fazenda com o negro Petrus, é estuprada por Pollux (que mais a frente descobrimos parente de Petrus), no meio disso David de mãos atadas e em desgraça (o título original do livro é “Desgrace”, que nos pode dar um bom mote de discussão sobre essa escolha do tradutor, já que implica numa outra percepção de ponto-base de análise, tendo em vista que o título original tem na mira o estado de desgraça de David e o título brasileiro parece focar na desonra sofrida por Lucy, e no que isso reverbera na existência de David, o que me parece dois campos distintos – ainda que concomitantes.). Nesse ínterim, David, já inserido no dia-a-dia da cidade, conhece Bev Shaw, que cuida da única instituição de cuidados aos animais doentes da região, com quem tem um curto caso. Com ela David aprende (nesse ponto sendo um alter ego de Coetzee, um árduo defensor dos animais) a importância do cuidado de vidas não-humanas.

Mais do que essa dimensão universo do drama pessoal de David, “Desonra” é o retrato metafórico da África do Sul pós-apartheid. Atravessando todo o livro de lirismo, ironia, suas referências literárias de base byroniana e também do escritor inglês William Wordsworth, David pode ser considerado o representante dos ideais brancos com seus conceitos de progressos, versus a figura emblemática de Petrus (latinização de Pedro, “pedra”) que representa as tradições negras de uma África que resistiu (ficando isso claro no trato rudimentar com que lida com a terra, com que se relaciona com o mundo ao seu redor e também pela poligamia)  a ocupação branca e suas ideologias. Ao contrário do que possa aparecer o fim de tudo não se resume na polaridade de lados aparentemente opostos. O filho de Lucy é a representação da miscigenação inevitável. O que não foi fruto da mutualidade, do consenso, mas da desonra.

Um livro de fortes linhas, e entrelinhas diversas. O que reforça um importante conselho: a leitura de Coetzee é obrigatória.

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