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Maus – Art Spiegelman

22/09/2014

maus - Art SpiegelmanA humanidade carrega na sua história inúmeros períodos obscuros, sangrentos, desumanos, irracionais. E um dos que ficou fortemente marcado no nosso imaginário foi o período de domínio Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Seja pela força do que se produziu após esse momento histórico, como forma de lembrar de um exemplo que não devemos seguir; seja pela força dos relatos que diversas vezes, em diferentes formatos e plataformas, ouvimos, vemos e lemos, essa parte da história está incluída na consciência coletiva do século XXI.

O relatos sobre o Holocausto judeu estão em todas as plataformas. Existem aqueles que retratam o medo e a angústia do que era ser um judeu fugidio, como no livro “Diário de Anne Frank”. Existem os que mostram os alemães que não estavam em conluio com a posição antissemita do nazismo e que foram aliados na ajuda aos judeus, como o filme “A Lista de Schindler” de Spielberg. Há também aqueles que retratam o cotidiano de um judeu prisioneiro. E nessa “categoria histórica” temos o mais crucial registro contemporâneo sobre, que é o romance gráfico “Maus – A História de Um Sobrevivente” do estadunidense Art Spiegelman.

Publicado em duas partes (I – “Meu pai sangra história e II – “E aqui meus problemas começaram”), em 1986 e 1992, o livro conta a história do pai de Art, o judeu Vladek Spiegelman em sua trajetória de vida, seu casamento, e sua detenção pelas mãos dos Nazistas e todo o universo de sofrimento que lhe foi infringido e como fez para sobreviver no mais famoso campo de concentração alemão: Auschwitz.

Retrato por meio de quadrinhos, Art busca pela narrativa visual mostrar como foi a vida dos judeus, tomando como mote a vida de seu pai, que poderia muito bem ser o resumo da vida de quase todos os judeus daquela época (exceto pelo fato de ter sido um dos raros que conseguiu, mesmo contra todas as possibilidades, sobreviver). Art compõe um relato extremamente pessoal do fato histórico. Talvez isso confira à sua narrativa uma força de universalização muito maior e mais intensa. A sua narrativa não tem molduras embelezadoras: é feia, é cruel, é desumana.

Chegando na parte da desumanidade, Art a sintetiza com uma metáfora imagética cabal: transfigura os protagonistas da história em animais. Assim como a analogia de Orwell (ainda que ambas obras se distanciem pelos significados de suas analogias), Spiegelman desenha os nazistas como gatos, os judeus como ratos, os poloneses como porcos e os americanos como cachorros. Nesse trato ele atinge um incrível poder de síntese do que foi aquilo e do caráter de seus protagonistas. Na narrativa de Art, os animais ali, da forma como se comportam, também são terrivelmente humanos. Pode ser que Spiegelman quisesse nos dizer que não nos diferimos em nada dos animais, com suas irracionalidades. Também somos assim: animalescos, descontrolados, instintivos, impulsivos. Tudo isso sendo retrato com a força do traço artístico de Art. No livro não existem pausas, não existem intervalos, tudo é um baque só.

O impacto da obra de Spiegelman foi avassalador: ganhou o prêmio Pulitzer de Literatura (o que reacende sempre o debate de até onde quadrinhos podem ser considerados literatura “‘séria”). E das inúmeras críticas e resenhas que o livro recebeu um trecho que vale compartilhar por aqui é do jornal Time Out:

“Um relato intensamente pessoal da sobrevivência de uma família, de fugas quase impossíveis e encarceramentos, que lida de uma forma artística com experiências e emoções que muitos fariam de tudo pra esquecer. Um relato que mostra como, quando a vida chega a um nível da mera subsistência, confiança e traição assumem dimensões sem precedentes. Na tradição de Esopo e Orwell, seu objetivo é chocar e conferir poderosa ressonância a um assunto que, afinal, é bem documentado. E a arte é tão bem-feita, tão poderosa e tocante, sem recorrer ao sentimentalismo, que dá certo.”

Existe uma espécie de consenso, que se tornou clichê, a respeito do Holocausto que diz ser impossível imaginar de fato como ele foi. Spiegelman e o seu “Maus” prova o contrário disso.

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