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Retrospectiva Literária 2014

03/01/2015

Todos os anos entro em conflito quando olho para trás e vejo o que foi lido durante o ano. Muito me irrita o fato da lista ser menor. Digo isso com base nos meus áureos tempos de leitor que tinha por meta ler mais de 100 títulos anualmente. Era o meu número mínimo.

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Fui passar as férias de final de ano com a família e chegando na casa dos meus pais vi a humilde biblioteca que montei por lá, e vivi aquela nostalgia dos livros lidos. Mas mais do que isso, encontrei uma agenda antiga e toda esmiuçada onde eu anotava minhas leituras, e fazia as minhas avaliações sobre elas. Num dos anos, o número de livros lidos me surpreendeu: mais de 300. O ano que mais li na minha vida. Claro, os tempos eram outros: vivia eu sob a aba de meus pais, com a única e exclusiva preocupação de estudar. Mas ainda assim, vendo a minha lista do que foi lido em 2014, fico envergonhado. Não cheguei aos 20 títulos. Mas tudo é uma questão de retomar o ritmo, gerenciar melhor o tempo e saber que a vida é feita de altos e baixos. Não se pode ganhar em tudo.

Mas tiremos esse tom baixo astral daqui. Vim aqui para fazer uma lista que prometi à mim que faria todo o ano (2015, mais do que qualquer outro ano, está sendo um ano de boas promessas. Mais do que isso: está sendo um ano de estratégias pra cumprir cada promessa feita. Vejamos como serão os próximos capítulos dessa novela): a dos livros lidos durante o ano inteiro. Foram 17 leituras, incluindo a releitura que faço religiosamente do Dom Casmurro, o maior romance de todos os tempos. Tive boas surpresas em rever, em histórias pouco conhecidas, os gigantes das letras. Tive ainda a boa oportunidade de ler histórias há muito conhecidas, mas nunca lidas. Não foi um ano de volumosas leituras, mas não foi um ano de todo ruim. Vejamos o que foi lido.

Meus Dias de Escritor – Tobias Wolff

Meus dias de escritor - Tobias WolffEsse era pra ser a última leitura de 2013, mas acabou se tornando a primeira de 2014. Um romance cujo o tema poderia ser a literatura em si, mas cambou para a amizade e até onde ela consegue ir para se manter. A história se passa numa escola tradicional da Nova Inglaterra, onde há um concurso anual de contos em que o vencedor ganha a oportunidade de ter uma audiência particular com um escritor consagrado. O escritor anunciado para esse ano era ninguém menos que um mestre para todos os estudantes aspirantes a escritores da escola: Ernest Hemingway. Esse anúncio cria uma fissura nas relações do alunos e inicia uma verdadeira corrida literária para ver quem venceria o concurso. Um romance seguro e consistente sobre amizade, amor, ódio, inveja.

 

 

Ela e outras mulheres – Rubem Fonseca

elaNão se deslumbre com Chico Buarque. Quem realmente entende de mulheres é o mestre brasileiro da narrativa curta Rubem Fonseca. Nessa curta coletânea de contos, ele deslinda os mais díspares perfis femininos em pequenas e profundas tramas onde imperam sentimentos antagônicos e confusos. Uma leitura rápida, bem organizada. Em poucas horas o livro é lido inteiro. Mas mesmo sendo curta, o seu impacto é duradouro.

 

 

 

 

 

 

Desonra – J. M. Coetzee

Desonra - J.M.CoetzeeO Nobel de literatura Coetzee domina por completo a arte de contar histórias. É um exímio e competente contador de casos. E indo contra a tendência “moderna” da literatura contemporânea de fazer malabarismos linguísticos-semânticos, os seus livros respeitam a forma clássica: têm início, meio e fim. Um atrás do outro, sem atropelos ou experimentações mirabolantes. É a força da história de si por si. Nesse seu “Desonra”, o escritor sul africano, conta a história de um professor universitário de vasta bagagem intelectual que está escrevendo uma ópera sobre Lord Byron, e que se envolve em diversas complicações e problemas, acabando por ir viver na propriedade rural da sua filha, no centro nervoso (e pobre) da África do Sul. Uma importante metáfora e reflexão dos universos conflitantes de uma África pós apartheid.

 

 

Duas narrativas fantásticas: A dócil e Um sonho de um homem ridículo – Dostoiévski

Duas NarrativasEsse livro aqui faz parte da série “Emprestei e não voltou”. Sinto falta de vê-lo ali pertinho de mim na estante. De qualquer forma, esse livro é de um gigante. Dostoiévski é Dostoiévski. Nenhuma linha sua é de se ignorar. E nessas duas pequenas novelas a força do maior nome da Literatura Russa não é nenhum pouco menor. No primeiro enredo encontramos um casal atravancado em medos e dúvidas. Tudo com uma descrição que nenhum escritor enlatado, desses que vemos aos montes poluindo as nossas vistas nas prateleiras das livrarias, conseguiria alcançar. Uma leitura extremamente aprisionante (talvez por isso ela tenha sida concluída somente numa sentada). A segunda história é justamente aquilo que o seu título diz. Mas ela tem um mérito a mais: traçou as primeiras linhas de investigação do inconsciente humano. Dostoiévski adiantou-se e muito (dá pra arriscar em dizer que melhor até, por usar a literatura pra essa investigação), em relação a Freud (que, aliás, foi um grande leitor seu). Leitura obrigatória.

 

Maus – Art Spiegelman

maus - Art SpiegelmanEsse era um daqueles livros que eu já conhecia quase que de cabo à rabo, e ainda não tinha parado pra ler. Foi então que ganhei ele de presente. Era a minha oportunidade. Não ia deixar passar. Mergulhei e rapidamente a história vivida pelo pai de Art Spielgman na implantação do Nazismo durante a Segunda Guerra Mundial me pegou desprevenido. Isso por milhares de razões. A primeira delas foi o formato da obra: o livro não é um camalhaço histórico, é um quadrinho (ou, na língua dos entendidos, um graphic novel), que se mostrou um recurso perfeito pra narrativa. Sobre certas coisas, as palavras não são suficientes. Spielgman sabia disso. A segunda razão foi o antromorfismo na representação das etnias: judeus retratados como ratos, poloneses como porcos, alemães como gatos, estadunidenses como cachorros, o franceses como sapos e assim por diante. O que foi uma incrível tirada irônica. Outra boa razão pela qual o livro é por si só uma leitura necessária, é o formato em que a história é narrada. A narrativa oscila entre biografia e ficção (o que fez o júri do Pullitzer abrir uma categoria especial só para premiar a obra), mas nunca deixa, em nenhuma página, de ser sincera. Toda a crueldade e desumanidade dessa parte da história foi retratada com fidedignidade. Se existia a ideia de que o holocausto nunca poderia ter sido descrito de forma a dar a entender quais foram as suas reais dimensões, “Maus” desfez isso.

 

 

Dom Casmurro – Machado de Assis

DomCasmurroO maior romance já escrito pelo ser humano. A magnus opus da nossa literatura. Sei que posso ter por aqui alguns defensores de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” como a maior obra de Machado de Assis. Mas não, amigos, a maior e mais excelente obra das letras machadianas é essa complexa (porém não ambígua, como nos fizeram crer as leituras modernas e ideológicas) narrativa em primeira pessoa de Bentinho, esse dúbio personagem de humor arredio. Sabemos a história de cor e salteado (quem nunca leu pelo menos um Machado de Assis em seus tempos escolares, não é?), mas a cada leitura é num novo Dom Casmurro que se revela, com novas camadas, com novas possibilidades interpretativas. O grande mérito da obra não é saber se Capitu traiu ou não Bentinho, ou se foi proposital isso não explícito. A grandeza da prosa machadiana em Dom Casmurro está no fato dos personagens carregarem sobre si um grande fardo de complexidade. Mesmo os menores possuem linhas bem definidas de personalidade, todas imiscuídas de teias psicológicas. É um livro para a vida. Releitura constantemente necessária. Machado é mestre, é rei, é soberano. Evoé, Machado!

 

O melhor de Hagar, o horrível (vol. 2) – Dik Browne

OMelhorDeHagarOHorrivelVol2O desastrado viking criado pelo cartunista estadunidense Dik Browne (e que hoje tem seu personagem mantido pelo filho) foi uma leitura engraçada pra mim. Tinha visto algumas tiras do personagem, mas de forma bem aleatória. Essa edição bem cuidada da L&PM Pocket valorizou os traços do humor de Hagar, de horrível só tem os hábitos mesmo.

 

 

 

 

 

 

A misteriosa chama da rainha Loana – Umberto Eco

A Misteriosa Chama da Rainha LoanaUm bibliófilo vendedor de livros antigos e raros que perde a memória curta e a vai reconstruindo por meio da sua relação com a leitura (de livros, anúncios publicitários, de objetos antigos e etc). Um típico livro do enciclopédico Umberto Eco. Coletando um mar de referências da Itália do século passado, esse livro é um compêndio cultural: gravuras da década de 40, anúncios publicitários clássicos, livros raros e antigos, o Fascismo italiano, a guerra e outros assunto abordados sempre com profundidade num relato honesto e muito bem composto. Tudo pelas linhas de um dos maiores bibliófilos e escritores ainda vivos e em atividade hoje no mundo. Umberto Eco, como não poderia ser diferente, acaba por usar sua história como uma homenagem a leitura, essa atividade de relação com o mundo, de entendimento desse curioso objeto de estudo eterno que é o ser humano.

O livro é um portento. Uma das melhores leituras do ano.

 

Imagética – Kamara Kó

imagetica2Um livro que li sem ler. Basicamente composto de fotografias, o livro é uma coletânea de trabalhos de diversos fotógrafos paraenses. Tem validade pela curiosidade (e qualidade) de alguns trabalhos. Outros acabam confirmando aquela tese de que, dependendo da plataforma e da publicidade em torno de si, qualquer mísera fotografia pode ser considerada de qualidade. Mas isso é discussão pra outra conversa.

 

 

 

 

Toda Poesia – Paulo Leminski

TodaPoesiaEssa está entre as 3 melhores leituras do ano. A obra poética completa de um dos maiores de nossas letras. Toda a força, a criatividade, a inventividade e o domínio da língua de Leminski em poemas absurdamente fantásticos. Esse é o tipo de livro em que cada página é um maravilhamento, uma suspensão. Até mesmo os poemas e trabalhos mais “fracos” possuem um valor de vida muito acima do que se lê hoje na atual produção brasileira de poesia (claro que respeitando as dignas exceções). “Toda poesia” é um livro de respeito, uma digna e oportuna homenagem àquele que conseguiu traduzir os nossos mais intraduzíveis sentimentos e pensamentos. Ler esse é uma prazerosa obrigação.

 

 

 

Medo e Delírio em Las Vegas – Hunter Thompson

Medo e Delírio em Las VegasUm jornalista, cuja a missão era cobrir um evento esportivo, e um advogado cruzando os EUA com o carro entupido de drogas de todas as naturezas rumo à Las Vegas. O livro é puramente lisérgico. Bate aquela vontade de experimentar também e entrar na viagem alucinante pela qual os dois personagens passam. A escrita tem o seu quê de alucinógena também, seguindo um ritmo absurdamente frenético. Não dá tempo pra respirar. É uma página a atrás da outra com as mais inacreditáveis alucinações que as drogas podem produzir na mente humana. Enquanto isso, conhecemos os Estados Unidos dos anos 60 e o seu contraponto libertário. A prosa é corrosiva, tem suas veias poéticas e é um verdadeiro anti-retrato do sonho americano. Um bom livro-soco.

 

 

 

1933 Foi um Ano Ruim – Jonh Fante

1933 foi um ano ruimE 2014 não foi um ano fácil.

Esse livro de Fante conta a história de Dominic Molise, cujo o sonho era fugir dos seus dramas familiares e se tornar um grande nome do basebal. Um romance típico de Fante: cheio de amor e compaixão pelas agruras dos pobres e também com fortes traços autobiográficos.

Temos um cara pra agradecer nessa história toda: Charles Bukowski, que foi quem se esforçou pra ver o manuscrito, que estava há anos inédito, ser publicado. Ainda que não seja um dos meus preferidos, Bukowski foi um dos grandes responsáveis pelo resgate do escritor sobre quem afirmou: “Finalmente aqui está um homem que não tem medo da emoção”. Nós agradecemos.

 

 

Sua Resposta Vale Um Bilhão – Vikas Swarup

Sua Resposta Vale um BilhãoEsse foi uma grata surpresa. Acabei nem me interessando nele à época do frisson do filme (que, aliás, é uma vergonha em relação ao livro), mas encontrei um exemplar numa liquidação e comprei pela curiosidade. Não me arrependi de ser curioso (não dessa vez): um excelente livro de estreia do Vikas Swarup, que desnudou a parte pobre da Índia por meio da história Ram Mohammad Thomas, que vai narrando sua vida inteira bem ao formato do “Mil e uma noites”. Tudo porque ele se mete em complicações por ganhar, honestamente, num concurso de perguntas e respostas, o valor de um bilhão de rupias. A ironia e a qualidade na condução do enredo, são alguns dos pontos fontes do romance de Vikas. Literatura indiana de primeira.

 

 

Igreja do Diabo e outros contos – Machado de Assis

Igreja do Diabo e outros contos – Machado de AssisO mestre incólume da nossa literatura em 5 narrativas curtas. Não tem conto machadiano que não valha a pena a leitura. Essa pequena antologia segue a regra.

 

 

 

 

 

 

 

 

Incal (vol. 1, 2, 3) – Moebius e Jodoroswki

Uma narrativa de um futuro distante e distópico. Contando a história de John Difool, Alejandro Jodoroswki e o ilustrador francês Moebius compuseram uma das maiores e mais influentes histórias de ficção de científica dos quadrinhos (e da literatura). Abordando encruzilhadas morais e imorais, o enredo segue entrando num mundo absolutamente surreal. O universo criado por Jodoroswki e ilustrado por Moebius é de deixar o queixo no chão. Um quadrinho que está bem distante de ter no seu público alvo adolescentes.

 

 

 

 

Se o ano passado foi um ano de poucas leituras, que isso mude agora em 2015. A lista é vasta, vejamos se pelo menos metade dela será cumprida.

2 comentários leave one →
  1. 04/01/2015 11:38

    Olá
    São títulos bem interessantes, dos citados li apenas Dom Casmurro que dispensa comentários.
    Abraços

    http://chacomresenha.blogspot.com.br/

  2. 08/01/2015 17:13

    Man… Só li um dos livros da sua lista de 2014😦
    Mas, não me culpo. Tenho uma lista extensa de leituras a serem feitas e, como você bem sabe, essa lista só aumenta.

    Boas leituras para 2015!

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