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O Irmão Alemão – Chico Buarque

20/01/2015

O Irmao Alemao - Chico Buarque

Existem alguns artistas que produzem alguma obra e ela se torna o seu marco insuperável. Tudo que ele produzir a partir daquilo será julgado com base no parâmetro da sua obra maior. Entretanto, essa “obra maior” quem decide de fato é público, essa massa consumidora de tudo.

Dentre os artistas que tomam pra si a responsabilidade da escrita em diversas linguagens de manifestação artística, Chico Buarque de Holanda é um dos que se encontram nesse hall da fama. Ele escreve para teatro, compõe suas músicas (pelas quais tem fama, pois se fosse o caminho inverso – ser escritor para depois virar compositor – duvido que o seu nome nos fosse tão habitual), ainda que não se considere um poeta todos os consideram assim, vez ou outra faz uns romances (onde fica sempre aquela dúvida e o eterno debate: os livros fazem sucesso por serem assinados por Chico ou por sua qualidade literária?). De qualquer forma, ele escreve e o que sai do prelo faz barulho. O último seu a sair à lume foi O Irmão Alemão.

O livro foi publicado no finalzinho do ano passado, e não deu tempo sequer dos livros esfriarem nas estantes das livrarias: o barulho foi grande, chegou mesmo a ser incômodo (as editoras que amam todo esse estardalhaço!). Não demorou para o livro já ser indicado para premiações, receber resenhas rasgadas nos jornalões e virar alvo de caçada pelos leitores mais afoitos. Não corri atrás do meu. Ele me chegou numa dessas festas de final de ano (mais uma coisa que as editoras adoram: lançar livros em datas festivas pra que eles se tornam uma viável opção de presente). Entabulei a leitura nas férias.

Esse é o livro mais pessoal de Chico. Ficcionando em cima da busca de um real irmão alemão perdido em documentos e pessoas, Chico abre um pouco da intimidade e conta por meio de um romance como foi essa história. A partir daí conhecemos os hábitos leitores do seu pai – os melhores trechos do livro -, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a resignação dedicada de sua mãe, as virgindades rompidas pelo seu (outro) irmão e o quanto a vida de Chico era a de um playboy de classe média que não tinha nada o que fazer (há trechos enfadonhos que mostram bem isso). O enredo tem ali algumas curiosidades, que acabam por soar mais como fofocas de famosos, como a amizade entre o pai de Chico e o escritor Thomas Mann. E parece que toda a história acaba nisso. Caminha de nenhum lugar para lugar nenhum. Chega a irritar o fato de Chico não se preocupar em sequer inserir trechos de força imaginativa (como nos seus “Budapeste” e “Leite Derramado”). O livro começa morno e morno termina. E tudo que é morno só gera uma reação: náusea (e não é a náusea sartreana). Talvez esse seja um problema na escrita de Chico: não conseguir extrair das suas histórias reflexões maiores – que é o mesmo problema do Budapeste, por exemplo. Porém, nesse último é menos do que n’O Irmão Alemão: esse não consegue dialogar com nenhuma reflexão universal, não se aprofunda, não vinga, não conquista.

Disse eu aqui pelo começo que existem alguns artistas que vão para sempre carregar aquele carma de qualquer produção atual ser comparada com aquele expoente máximo da sua obra e quem decide isso é o público. Como no caso de Chico Buarque, sua produção transita em diferentes linguagens, me dou o luxo de misturar alhos com bugalhos, e ele eleger como a sua obra máxima não um álbum, não uma peça, não um romance, mas uma música, somente uma: Construção, uma das mais viscerais poesias musicadas em língua portuguesa. Pode ser exagero da minha parte, mas é meu o direito de exagerar sem que ninguém venha dar pitaco sobre isso. E julgo tudo de Chico baseado na qualidade de Construção. E esse seu O Irmão Alemão não foi nenhum pouco diferente. E mais uma vez chego a conclusão de que como romancista, Chico precisa construir, e muito, um jeito melhor de escrever.

Informações:

  • Autor: Chico Buarque
  • Tradutor: —
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 237
  • Ano de Lançamento: 2014
  • Nota: 2/5
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