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trecho: A Morte do Gourmet

18/03/2015

Há duas categorias de passantes. Primeiro, a mais coerente, embora comporte matizes. Jamais cruzo o olhar deles, ou então fugazmente, quando me dão uma moeda. Às vezes dão um sorrisinho, mas sempre com certo constrangimento, e se esquivam num piscar de olhos. Ou não param e passam o mais depressa possível, com sua consciência pesada que os importuna por cem metros – cinquenta antes, quando me viram de longe e se apressaram em atarraxar a cabeça virada para ou outro lado, até que, cinquenta metros depois do maltrapilho, ela reencontre sua mobilidade costumeira -, em seguida me esquecem, voltam a respirar livremente, e o aperto no coração, de pena e vergonha que sentiram, progressivamente se esfuma. Esses, eu sei o que dizem, à noite, voltando para casa, se é que ainda pensam no assunto, em algum canto do inconsciente: “É terrível, tem cada vez mais, isso me parte o coração, eu dou, é claro, mas depois do segundo eu paro, sei, é arbitrário, é horrível, mas a gente não pode dar sem parar, quando penso nos impostos que pagamos, não somos nós que deveríamos dar, o Estado é que está falhando, é o Estado que não cumpre seu papel, e ainda temos que nos dar por felizes de ter um governo de esquerda, senão seria pior, bem, o que é que vamos comer no jantar, massa?”

Esses aí, estou cagando e andando para eles. E ainda estou sendo bem-educado. Que se danem, esses burgueses que brincam de socialistoides, que querem tudo e mais alguma coisa, a assinatura do teatro do Châtelet e os pobres salvos da miséria, o chá da loja Mariage e a igualdade dos homens na Terra, suas férias na Toscana e as calçadas livres dos espinhos de seus sentimento de culpa, pagar a faxineira sem registrá-la e ser ouvidos quando lançam suas tiradas de defensores altruístas. O Estado, o Estado! É o povo analfabeto que adora o rei e só acusa os maus ministros corruptos de todos os males de que sofre; é o Poderoso Chefão que diz a seus esbirros: “Este homem é um mal-encarado” e não quer saber que o que acaba de ordenar, assim por meias palavras, é sua execução; é o filho ou a filha humilhados que xingam a assistente social que pede satisfação aos pais indignos! O Estado! Como o Estado tem costas largas quando se trata de acusar o outro que não é senão ele mesmo!

 

A morte do Gourmet – Muriel Barbery (Companhia das Letras, 2009, trad. Rosa Freire d’Aguiar)

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