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Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche

30/03/2015

crepúsculodosidolosÉ curioso o fato de que as mesmas ferramentas usadas para construção, podem também ser utilizadas para a destruição. Vide o martelo. Uma ótima ferramenta de construção, uma das mais elementares. Uma ferramenta de conexão, aquela que tem como função conectar o que está solto e aleatório. Do mesmo jeito, essa ferramenta pode ser uma peça de desconstrução, de separação das partes, de destrinchamento. É uma ferramenta da qual se pode tirar importantes reflexões. Talvez com isso em mente que Friedrich Nietzsche escreveu o subtítulo do seu “Crepúsculo dos Ídolos: ou como se filosofa com o martelo”.

Nietzsche é um dos mais proeminentes pensadores do final do século XIX e se manterá com uma das mentes mais primordiais do século XX, assim como uma das mais influenciadoras e proféticas do século XXI. Adotando a escrita literária como forma de expressão das suas ideias, o filósofo alemão provocou (e ainda provoca) frisson com seus escritos que defendiam a desconstrução de todos os pilares fundamentais da ética e da moral do Ocidente. Para isso não poupou ninguém: desmistificou de Deus, a entidade antropomórfica judaico-cristã, até os valores do povo alemão. O martelo talvez seja sua melhor metáfora. Por isso ele não teve receio de colocar o dedo nas feridas. Nietzsche foi um dos mais ousados e originais pensadores a apontar a decadência de todos os conceitos enraizados na religião. E um dos seus, entre tantos da sua obra, avassaladores livros foi este “Crepúsculo dos Ídolos”.

O título diz por si: Nietzsche narra no seu pequeno livro de volumosas afirmações, o declínio de tudo aquilo que julgamos moral, ético, correto e natural. “Há mais ídolos do que realidade no mundo”, pode ser essa aqui a síntese cabal de sua obra. O livro, que foi o último que ele viu publicado em vida e também a última obra escrita antes dos seus problemas mentais, é “um resumo das minhas heterodoxias filosóficas fundamentais”, como o próprio fez questão de resumir sua obra. As páginas do Crepúsculo não contam vez ao apontar os alvos de sua rebeldia: o sistema de ensino alemão, escritores anarquistas e progressistas, Sócrates e claro, a Metafísica, essa que ainda é uma erva daninha da humanidade. O livro, como um todo, é um chamamento, por meio do senso crítico radical, ao enfrentamento dos valores estúpidos que ainda guiam nossos comportamentos e decisões. Todos eles com base numa realidade que simplesmente não existe. É nesse livro que vemos surgir as mais lapidares e radicais ideias do pensamento moderno. Nietzsche foi o profeta do caos, da decadência da humanidade. Ao afirmar que deus estava morto, não queria somente dizer que era a divindade judaico-cristã que estava à míngua, mas todo o seu sistema de princípios.

Os aforismos, cirúrgica ferramenta nietzscheana, que fazem parte da primeira parte do livro, são um espetáculo a parte:

“Como? O homem é apenas um erro de Deus? Ou será Deus apenas um erro do homem?”

“Da escola de guerra da vida – O que não me mata me torna mais forte.”

“Ajuda a ti mesmo: então todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.”

“Que não sejamos covardes em relação aos nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! – O remorso é indecente.”

“Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita de foles. – Sem música a vida seria um erro. O alemão imagina o próprio Deus cantando canções.”

Recordo que na faculdade de Filosofia, Nietzsche era a minha referência maior. Em todos os debates e trabalhos ele estava lá representado ou por uma frase/ideia ou por uma obra completa. Hoje ainda o tenho como referência para a vida. É preciso combater os ídolos que se excedem à realidade.  Ainda que ele tenha dito que “temo que não nos livraremos de Deus porque ainda acreditamos na gramática”, creio que poderemos superar os guias antinaturais da existência justamente porque há em nós a potência da vida.

Nesse seu pequeno livro de grandes ideias, Nietzsche nos aponta a saída para a decadência da humanidade: é preciso se assumir, é preciso apontar sem medo de represálias, é preciso sair do trilho. Se isso te soa um cado irreal, é porque você ainda vive exatamente como se quer viver: fora da realidade. Nietzsche, esse barbudo pilantra, te chama para o chão. É a aqui que a vida acontece.

Informações:

  • Autor: Friedrich Nietzsche
  • Tradutor: Renato Zwick
  • Editora: L&PM Pocket
  • Páginas: 137
  • Ano de Lançamento: 2009
  • Nota: 4/5
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