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Poemas de Alberto Caeiro – Fernando Pessoa

17/04/2015

AlbertoNa literatura existem dias que precisam ser emoldurados nos mais refinados quadros. Nascimento de Machado de Assis, de Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Umbeto Eco (que tenha longa vida!), James Joyce, Camões, e mais uma lista penelopiana que seguiria muito mais do que ad infinitum. Uma dessas datas memoráveis é do nascimento de um poeta que existiu sem nunca existir, que viveu sem nunca viver e escreveu sequer ao menos um poema, mas que é um dos mais importantes poetas de toda a língua portuguesa: Alberto Caeiro. Sobre o seu nascimento, permitamos que o pai de Alberto fale como ele se deu:

    “Foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando papel, comecei a escrever de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não consegui definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O guardador de rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logoo nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.”

Um dos maiores nomes da literatura portuguesa do século passado descreve esse como um “Dia Triunfal”. Nascia naquele 8 de março o seu mestre. Caeiro, o mais profundo e existencialista dos heterônimos pessoanos, já nasceu pronto. Nasceu com mais de 30 poemas surgidos num êxtase de natureza indefinida. E dos seus principais, esse é o meu heterônimo preferido, justo por carregar em seus poemas a negação de toda metafísica (“Há metafísica bastante em não pensar em nada”). Caeiro é o poeta da desmistificação. Com a sua capacidade de observar a natureza e dela extrair lições fundamentalmente existencialistas, Caeiro nos permite olhar o mundo sob a ótica humana, sem os vícios de perspectivas da religião, da metafísica, do misticismo, da espiritualidade. Vemos, sob a guia de seus olhos, o mundo como de fato ele é: cru, sem necessidade de explicações mirabolantes dos seus acontecimentos. O que acontece por aqui, somente acontece porque acontece, não existe outras razões para acontecer.

Partindo disso é válido enxergar a obra de Caeiro como essencialmente anticristã. Ele buscar moldar sua relação com o mundo e a Natureza sem as influências e pressupostos do pensamento. Pensar, na poesia de Caeiro, é estar doente. O pensamento atrofia nossa relação com o mundo. Caeiro busca uma relação empírica, baseada nos sentidos. Não há transcendência.

Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso eu do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso

Nessa busca de uma relação “primitiva”, no sentido de primeira relação sem influências da interioridade, Caeiro estabelece uma forma bem clara da sua relação com o divino, Deus (a entidade judaico-cristã) por assim dizer:

Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou!

Um resumo bastante lúcido do que é Caeiro e sua busca, está na excelente introdução da edição da L&PM Pocket, assinada por Jane Tutikian: “O que esse homem do campo busca é a inocência primitiva , aquela que não se baseia em crenças, em pressupostos , em explicações racionais, é apenas um modo de viver sem complicar a vida, é a extrema simplicidade.”. Para isso Caeiro, para se chegar nessa simplicidade, nos ensina a aprender a desaprender, a largar as amarras do pensamento que se encontram enraizadas em nós.

Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me [ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu

Espero não precisar mais explicar o porque de Caeiro ser o meu preferido dos heterônimos de Fernando Pessoa. Mas, como sou dos que preferem deixar às claras suas preferências, coloco aqui um dos mais bonitos poemas escritos na nossa língua e adivinha por quem: Alberto Caeiro.

 

Informações:

  • Autor: Alberto Caeiro
  • Editora: L&PM Pocket
  • Páginas: 141
  • Ano de Lançamento: 2006
  • Nota: 5/5
3 comentários leave one →
  1. 01/05/2015 23:00

    Caeiro é demais!😀
    Gostei bastante da sua escrita, Ricardo!
    Abraços!
    Natasha

  2. 02/05/2015 13:50

    Não me considero uma boa leitura de poesia porque li muito pouco, mas sempre gostei muito do que li do Caeiro e você me animou a procurar um poucos mais sobre esse poeta.
    Abraços,

    Dani Moraes
    http://www.asverdadesqueopinoquioconta.blogspot.com.br

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