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A Morte do Gourmet – Muriel Barbery

01/05/2015

a_morte_do_gourmetAtualmente existem alguns termos que começaram a ser usados como sinônimo de sofisticação, mas que com o tempo perderam o primeiro significado para se tornarem algo totalmente oposto. O termo “gourmet” faz parte desse grupo. Começou como algo refinado pra depois virar somente uma desculpa pra cobrar caro por qualquer coisa que tenha um nome firulado. Talvez essa introdução nem tenha muita relação com o livro que vai ser resenhado (ou sim), mas foi a minha forma de começar pra poder dizer que o Gourmet, na sua atual “roupagem”, é uma erva daninha das mais perniciosas. Acabou se tornando somente um trabalho de semântica ao invés de ser um trabalho de sabor. Não consigo acreditar no Gourmet. Aliás, só uma coisa consegue ser gourmet sem perder a classe: a Literatura, como seria de se esperar.

Sim, a nossa mãe excelsa, também tem os seus gourmands (está certo isso aqui, fiscais?). Quer um exemplo? Dan Brown e Umberto Eco: Brown é a versão pão com ovo do Eco. O Umberto Eco é prato fino, pra ser degustado com carinho, atento a todas as suas nuances e camadas de sabores. Já Dan Brown é aquele lanche de fim de tarde que você come às pressas e não importa muito o sabor desde que satisfaça aquela fome imediata. Deu pra entender? Mas tenho aqui um exemplo de literatura gourmet das boas, daquelas pra cheirar as páginas depois de lidas: o romance de Muriel Barbery, “A Morte do gourmet”. (Não é que eu consegui criar uma ligação com o nonsense do primeiro parágrafo?).

Esse aqui é o primeiro romance da francesa Muriel Barbery. No geral, se pode dizer, desde do primeiro romance, se o autor vai ou não vingar (muitas outras vezes, o primeiro sai ruim e começa a se moldar melhor lá pelo segundo ou terceiro; as variáveis são inúmeras, mas fiquemos com essa minha aqui). Muriel, nessa sua primeira história, mostra que é uma autora extremamente sóbria. No seu romance de múltiplas vozes, conhecemos Pierre Arthens, o maior crítico de gastronomia do mundo, no leito de morte. Restam apenas algumas horas de vida para ele e uma obsessão: conseguir relembrar o sabor de algo que comeu há muitos anos. Porém, ele não tem essa memória definida, clara de um jeito que ele possa saber de que sabor quer se lembrar no seu momento final. O romance vai se desenrolando numa micro-saga para encontrar esse gosto perdido no labirinto de sua memória. Nesse caminho, conhecemos quem realmente é Pierre Arthens, um crítico que com sua obra poderia pôr os chefs no Olimpo ou relegá-los ao inferno.

O livro se desenha em pequenos capítulos, cada um com um narrador diferente. São múltiplas vozes que nos tecem comentários sobre o que pensam de Pierre. Assim, conhecemos quem orbita em torno dele: seus filhos, sua mulher submissa, suas amantes, seus animais de estimação, estranhos que cruzaram com ele em algum momento de sua vida e dele tecem impressões. Todos esses capítulos entremeados com capítulos em primeira pessoa pelo próprio crítico. Dessa forma, vemos um personagem desenhado com fina tinta. Muriel constrói um homem implacável, forte, rígido, ao mesmo tempo que também deixa transparecer a sua fragilidade. Um personagem dúbio e duplo.

Porém, na opinião desse humilde leitor que aqui deixa suas impressões, o grande mérito da escrita de Muriel está na forma como ela consegue ter diversas e bem definidas vozes ao longo do romance. Imagine escrever como se fosse diferentes pessoas e conseguir definir uma personalidade factível para cada uma delas. Muriel, já na estreia, consegue fazer isso com categoria. Sem contar na grande força que as suas frases carregam, o modo engenhoso como vai delineando as descrições dos pratos, a psicologia dos personagens, os insigths e as observações dos ambientes onde os personagens vivem suas vidas. Uma costura fina e delicada.

O romance de Muriel é um verdadeiro trabalho de artesão das letras. Assim como os pratos que Pierre vai relembrando, conseguimos também sentir o gosto das palavras de Muriel. O seu livro é quase comestível, de tão saborosas e confiantes que são as suas linhas. Um genuíno exemplar da literatura gourmet: daqueles livros, do mesmo modo como boas refeições, que você lamenta quando acabam.

Informações:

  • Autor: Muriel Barbery
  • Tradutora: Rosa Freira d’Aguiar
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 125
  • Ano de Lançamento: 2009
  • Nota: 4/5
4 comentários leave one →
  1. 03/05/2015 3:39

    Oi
    que bom que gostou da leitura e que gosta da escrita da autora, pela resenha o livro até parece ser interessante, mais nem chamou muito a minha atenção para a leitura.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

    • 04/05/2015 11:53

      Oi Denise. De fato, gostei muito da qualidade da escrita e da capacidade de construir uma narrativa que se dá em múltiplas vozes, sem perder os rumos da história. Isso é qualidade de bom escritor. E escritoras das boas, como é o caso de Muriel, são as que me chamam a atenção para a leitura. Porém, cada leitor é um universo único, não é? Mas claro que prefiro o meu universo. =)

  2. mariaferreirac permalink
    21/07/2015 22:34

    Ah, é um livro curtinho. Esperava me deliciar com mais de Muriel. Meu primeiro contato com ela foi com “A Elegância do Ouriço”, na época eu não sabia desse seu primeiro livro, mas uma coisa é certa: se ela é boa no primeiro livro, no segundo ela é melhor ainda.

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  1. A Elegância do Ouriço – Muriel Barbery | Roedor de Livros

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