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Dias Perfeitos – Raphael Montes

18/05/2015

Dias-PerfeitosSempre enxerguei a literatura policial como puro entretenimento. E, numa ainda limitada perspectiva, considerava isso razão suficiente para considerá-la uma espécie de “literatura menor” (depois, com um pouco mais de maturidade leitora, vi que isso de “literatura menor” até pode existir, mas somente como consequência de um capricho nosso e que é uma conclusão em aberto, incompleta. Aliás, existem opiniões concluídas a respeito de qualquer assunto? Isso fica para uma próxima conversa). Voltando (que facilmente me perco nas digressões e já fico a misturar alhos com bugalhos).

Alimentava essa ideia ingênua do que seria literatura policial, mas desfeito isso (com base na leitura dos grandes e bons: Turow, Carré, Simenon, Agatha, Doyle e outros tantos) pude perceber apenas uma coisa: literatura policial é mesmo puro entretenimento. É o filme de ação dos gêneros literários: está ali te prendendo a cada cena com um enredo que segue basicamente o mesmo esquema narrativo. E, como nos filmes de ação (e de qualquer outro gênero), há os bons e os ruins. Agora, aqui nessa nossa conversa, quero falar de um romance policial que está no pequeno grupo dos bons: “Dias Perfeitos”, do carioca Raphael Montes.

Montes é da nova safra brasileira de novos escritores (ou seria de escritores novos?). Surgindo no mercado fruto de concursos literários, o jovem carioca (que ainda está na casa dos vinte anos) lançou seu primeiro romance, “Suicidas” por uma editora de médio porte (a Benvirá), atraindo a atenção da crítica e de quem realmente determina qual a direção das listas dos mais vendidos, o público. Não li esse seu primeiro romance, então estou vetado a dar qualquer opinião a respeito dele. Contudo, desse segundo e mais espalhafatoso romance, é preciso dar alguns pareceres.

Lançado pela Companhia das Letras, com ampla divulgação, “Dias Perfeitos” nos apresenta Clarice e Téo, casal que se conhece numa festa de apartamento e vivem uma “história de amor”. Clarice, jovem moderna de atitudes ousadas e que está trabalhando no roteiro do seu road movie  ‘Dias Perfeitos’, é o universo oposto do recatado e metódico Téo, um estudante de medicina recluso sem amigos e habilidades sociais. No breve encontro que têm, Clarice se torna um imã automático para Téo, que abruptamente chega a conclusão de que a ama. A partir de então, Téo passa a perseguir o amor de sua vida, que logo percebe os distúrbios comportamentais do rapaz e tenta afastá-lo. Mas não se afasta um amor tão fulminante assim sem alguma dificuldade. É nesse momento que a óbvia psicopatia de Téo vem à tona com linhas mais vívidas e Raphael dá vazão ao seu gênio mórbido. E é aí que o leitor vai ser “surpreendido” com boas doses de nonsense sádico.

Na composição desse personagem doentio, que é o Téo, na condução da história, nos seus desdobramentos, nas reviravoltas do enredo e na cirúrgica narrativa que, como bom entrenimento, nos prende a cada página,  Raphael Montes abre e fixa seu espaço na literatura policial nacional, e já com capilarização para o mercado internacional (seu romance está sendo traduzido para outros idiomas e os direitos do livro já foram vendidos para o audiovisual). Apesar da pouca idade, Raphael já escreve como alguém experimentado (consequência da sua compulsiva relação com as tramas e clássicos policiais), com alguns resvalos em lugares-comuns e clichês, mas que não comprometem em nada o corpo total da narrativa e da sua habilidade ficcional. Mas isso é caso pra se resolver com o tempo e a experiência (que ele ainda está nas primeiras etapas de construção). No entanto, esse seu “Dias Perfeitos”, já denota que Scott Turow não estava de todo errado ao afirmar essa frase aqui (que está bem destacada na capa do livro): “Raphael Montes está entre os mais brilhantes ficcionistas jovens que conheço. Ele certamente vai redefinir a literatura policial brasileira e surgir como uma figura da cena literária mundial”. Pode até parecer um cado de exagero do autor de “Acima de Qualquer Suspeita”, mas tenho certeza que a previsão não está errada. Aguardemos os próximos capítulos dessa trama.

Informações:

  • Autor: Raphael Montes
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 274
  • Ano de Lançamento: 2014
  • Nota: 4/5
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