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O Burrinho Pedrês – Guimarães Rosa

17/07/2015

O Burrinho Pedrês - Guimarães Rosa“Tenho medo de tentar comparações. Não direi, por isso, que a obra de Guimarães Rosa é a maior da literatura brasileira de todos os tempos. Direi porém, que nenhum outra, de nenhum escritor, me deu até hoje, entre brasileiros, a mesma ideia de tratar-se de criação absolutamente genial”.

Não tivesse emparelhado com Machado de Assis, concordaria cem porcento com Sérgio Buarque de Holanda. Guimarães é, indiscutivelmente, um dos mais profundos e, simultaneamente, um dos mais populares – no sentido próprio do termo, que se refere àquilo que se aproxima do povo – escritores das letras tupiniquins.

Seja por sua força narrativa, por sua grandiosidade linguística, sua superioridade reflexiva, ou outras mil qualidades de sua obra, Guimarães Rosa é um dos mais completos e complexos – no que tange a complexidade, depende-se de onde se lê, pois o considero “simples” e cristalino – autores da literatura nacional. Mais do que isso: está sem pé de igualdade com os gigantes do cenário literário mundial. Sua inventividade ficcional em nada deve, por exemplo, aos mais bem acabados textos joyceanos. Enfim, Guimarães Rosa é um gênio ímpar. Prova rápida e impactante dessa afirmação está contida na história d’O Burrinho Pedrês.

Essa é um dos noves contos (ou novelas) que fazem parte do livro “Sagarana”, e que foi inspirado num acontecimento real: a morte de um grupo de vaqueiros num córrego no sertão de Minas. Com base nesse fato, Rosa compõe uma “estória” com ares épicos, na figura humanizada do burrinho Sete-de-Ouro. É pela perspectiva dele que vamos enxergando o desenrolar do enredo. Conhecemos sua vida, entramos em contato com sua visão de mundo, percebemos as injustiças pelas quais passa, e mergulhamos nas gírias e linguagem dos sertanejos de Minas Gerais, como também acompanhamos o ato heróico que se desdobra no final da narrativa (trecho que não nos permite desviar nem por um segundo o olhar das páginas que voam uma após a outra).

Desenhando a banalidade do sertão com tinhas únicas, percebemos a potência da técnica ficcional de Rosa: a leitura é feita num gole só. Não há como interrompê-la. Até a respiração precisa acompanhar os passos de Sete-de-Ouro. É proibido dar atenção à qualquer outra coisa. Com o livro aberto, não há mais ninguém: é somente nós e o burrinho. É Guimarães Rosa num performance superada apenas por sua obra máxima, “Grande Sertão: veredas”. O domínio da condução das cenas, do leitor, dos personagens, nos chega como uma boa dose de privilégio em poder ler, na nossa língua, um escritor dessa envergadura. A leitura inteira é um voo em progressão, a trama nunca vacila, não altos e baixos, somente altos e cada vez mais altos, até o clímax no final, onde tudo se acalma e nos vemos ali perdidos, querendo mais e precisando seguir a vida, assim como Sete-de-Ouro segue a sua.

ROEDORburrinhopedrês

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