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O Capital no Século XXI – [Diário de Leitura #1]

02/08/2015

ROEDORdiário

Publicado no Brasil no final do ano passado, o livro “O Capital do Século XXI” (Intrínseca, 2014. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle) do economista francês Thomas Piketty causou um comportamento estranho no mercado editorial brasileiro: em 10 dias vendeu mais de 50 mil exemplares. Um comportamento estranho para um livro com a extensão que ele tem – são mais de 600 páginas. Mais estranho ainda são esses números quando sabemos que se trata não de um livro de uma saga épica, bem nos moldes atuais, mas sim de um tratado de Economia Histórica que fala sobre distribuição de renda. Porém, não foi o estardalhaço em número de vendas que me chamou a atenção, mas o cárater do estudo de Piketty e seus colaboradores: abordar a dinâmica histórica do acúmulo e distribuição do capital calcado em vasta e ampla carga de dados e estatísticas, com uma expressiva amostragem de contextos e cenários – são mais de 20 países incluídos em sua pesquisa. E tudo isso com traduzidos de forma didática e nada ideologizada. Um feito monumental, que lhe valeu a alcunha de “Marx do século XXI”. Menos, menos.

Tudo isso me fez esperar um pouco e saber quem mais, além dos resenhistas afoitos e apressados de jornal, iria fazer uma apreciação justa do estudo de Piketty (ao contrário de um romance, onde a opinião dos críticos – a se julgar em como boa parte deles escrevem e compões suas análises atualmente – de nada vale, um livro de economia, no meu caso, precisa ter ali algumas outras sustentações teóricas que me estimulem à leitura). A espera valeu. Na “The Economist” se escreveu: “Maior do que Marx. Nenhum outro trabalho sólido sobre economia chegou tão perto de ganhar a condição de ícone pop”. Ok, isso de ainda ter os altos números como argumento de qualidade não vale de nada. Mas aí eis que li isso aqui de Paul Krugman, Nobel de Economia, no “The New Tork Times”: “Piketty transformou nosso discurso econômico; jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da mesma maneira.” Vale o destaque “para jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da mesma maneira.E é isso: a fissura que o trabalho de Piketty provoca nos círculos ds economistas conversadores já se mostra notório. E foi isso que me fez abrir ansioso o pacote do livro quando ele chegou na minha caixa de correio. A ansiedade e a empolgação não foram à toa.

Como sei que não vou conseguir ser resumido nas minhas impressões a respeito da leitura e estudo d’O Capital no século XXI no todo, faço aqui o primeiro diário de leitura única do Roedor. A intenção é analisar cada capítulo da obra, dentro das minhas limitações teóricas, já que não sou economista, mas somente um curioso. O livro é divido em quatro partes, sendo elas: “Renda e capital”, “A dinâmica da relação capital/renda”, “A estrutura da desigualdade”, “Regular o capital no século XXI”. Serão 16 capítulos, mais notas e um conjunto de gráficos e tabelas, as minhas leituras nas próximas semanas. Porém, antes de começar o livro propriamente dito, Piketty escreve uma curta e ilustrativa introdução já para nos ambientar para as próximas páginas. Vamos conversar sobre essa introdução nesse primeiro texto.

Piketty escreve fugindo das mirabolâncias retóricas acadêmicas que costumam estar presente nos textos dos economistas tradicionais. Já nas primeiras páginas mostra seu estilo: direto, claro, explicativo, gráfico, e sem um pingo de sisudez. De cara, no primeiro parágrafo, as perguntas de Piketty mostram a propriedade da pesquisa que ele e sua equipe levaram à cabo:

“A distribuição da riqueza é uma das questões mais vivas e polêmicas da atualidade. Mas o que de fato sabemos sobre sua evolução no longo prazo? Será que a dinâmica da acumulação do capital privado conduz de modo inevitável a uma concentração cada vez maior da riqueza e do poder em poucas mãos, como acreditava Marx no século XIX? Ou será que as forças equilibradoras do crescimento, da concorrência e do progresso tecnológico levam espontaneamente a uma redução da desigualdade e a uma organização harmoniosa das classes nas fases avançadas do desenvolvimento, como pensava Simon Kuznets no século XX? O que realmente sabemos sobre a evolução da distribuição da renda e do patrimônio desde o século XVIII, e quais lições podemos tirar disso para o século XXI?” (p.09)

ROEDORpiquetíx

Não é à toa que Piketty insere como antagônicos Marx, o teórico usado à exaustão pelos que se alinham as perspectivas comunistas e tendem mais à esquerda ideologicamente, e Kuznets, o economista queridinho dos que defendem a estranha ideia de que a desigualdade se nivela naturalmente de acordo com o comportamento de mercado (o que mais lá pra frente, e com o devido contexto, Piketty desmente). Isso é sintomático do posicionamento do economista sobre a abordagem que fará no decorrer de seu livro: nem de esquerda, nem de direita, e nem perdido em especulações ideologizantes. A sua preocupação é em trazer a questão distributiva para o cerne da análise econômica, com base em dados e análises estatísticas. Resultado alcançado com êxito. Para esse levantamento, ele foge dos modelos que se baseavam quase que exclusivamente no conhecimento intuitivo desenvolvimento em torno da distribuição de renda e o patrimônio. E para isso, invoca uma transversalidade no diálogo das ciências humanas:

“Na verdade, a questão da distribuição da riqueza é importante demais para ser deixada apenas para economistas, sociólogos, historiadores e filósofos. Ela interessa a todo mundo, e é melhor que seja assim mesmo. ” (p.10)

Chega mesmo, nessa sua transversalidade, a dar exemplos literários como Balzac e Jane Austen como bons termômetros para se entender as relações de distribuição e arrecadação do capital numa linha histórica. Piketty não poupa críticas também ao marasmo intelectual que encontramos na Economia:

“[…] a questão da distribuição merece, também, ser estudada de modo sistemático e metódico. Na falta de fontes, métodos e conceitos bem definidos, é possível dizer qualquer coisa e, da mesma forma, o seu oposto. Para alguns, a desigualdade é sempre crescente e o mundo sempre mais injusto, por definição. Outros acreditam que a desigualdade é naturalmente decrescente ou que a harmonia se dá de maneira automática e que, em todo caso, não se deve fazer nada que arrisque perturbar tal equilíbrio feliz. Em meio a esse diálogo de surdos, em que cada lado justifica sua própria preguiça intelectual pela do lado contrário, existe um papel a ser desempenhado pela pesquisa sistemática e metódica […]” (p.11)

A partir daí, Piketty traça de forma bastante didática alguns teóricos e seus princípios como David Ricardo (“Princípio da escassez”), Marx (“Princípio da acumulação infinita”) e, antes desses dois, fala sobre Malthus, Arthur Young e o desenho socioeconômico causado pela Revolução Francesa. No momento em que vai tratar do princípio marxista, Piketty exemplifica o quanto sua pesquisa é abalizada: apresenta as incongruências da análise marxista, como acentua nesse trecho

“Escreveu tomado por grande fervor político, o que muitas vezes o levou a se precipitar e a defender argumentos mal embasados, dos quais ficou refém. Por isso a necessidade de que a teoria econômica esteja enraizada nas mais completas fontes históricas; Marx cometeu o erro de não explorar todas as possibilidades de que dispunha.” (p.17)

Mais a frente, quando faz um paralelo entre Marx e Kuznets (no tópico “De Marx a Kuznets: do apocalipse ao conto de fadas”), é a vez do economista radicado estadunidense ter suas pontas soltas apresentadas, como o fato de que um dos estudos históricos de Kuznets carece de profundidade estatística e se calcam num conjunto de dados rasos (ainda que Kuznets tenha para si o mérito de ter dado início a primeira tentativa de medir a desigualdade social numa escala ampliada).

Piketty é consciente do que está escrevendo e sabe dar bons contornos de suas afirmações. É um intelectual de peso e provocador. Não à toa no tópico em que fala sobre a famosa “curva de Kuznets”, ele afirme categoricamente:

“Os fatos evidenciados por Kuznets em seu livros de 1953 se tornaram, de súbito, uma arma política poderosa. Ele estava perfeitamente consciente do cárater especulativo de sua teoria. Ao apresentar uma análise tão otimista na palestra proferida aos economistas americanos, muito propensos a acreditar e divulgar a novidade que seu prestigiado líder trazia, Kuznets sabia da enorme influência que teria: assim nascia a ‘curva de Kuznets’. Para se assegurar de que todos tinham entendido bem do que se tratava, Kuznets preocupou-se em esclarecer que a intenção de suas previsões otimistas era simplesmente manter os países subdesenvolvidos “na órbita do mundo livre”. Em grande medida, portanto, a teoria da ‘curva de Kuznets’ é produto da Guerra Fria.”  (p. 21)

Em grande medida, portanto, a teoria da ‘curva de Kuznets’ é produto da Guerra Fria. Nisso nem preciso me aprofundar, Piketty é bem claro.

Nas próximas páginas os principais resultados do livro são apresentados: (a) desconfiar de qualquer argumento proveniente do determinismo econômico “quando o assunto é a distribuição de riqueza e da renda”, (b) a revelação do funcionamento da distribuição da riqueza que ora é convergente, ora divergente, sem aliados espontâneos para esses fenômenos. Nesse ponto o destaque está para a mais relevante força convergente, que possibilitam um arrefecimento da desigualdade, que são “os processos de difusão do conhecimento e investimento na qualificação e formação da mão de obra”. Então vemos deslindados as forças de convergência e divergência, nessa última acentuadamente apontada tendo como base a alta arrecadação e acúmulo de riqueza por uma parcela cada vez mais diminuta da população. Aí que encontramos uma das características mais potentes do estudo de Piketty: a percepção de que o acúmulo de riqueza hoje representa uma espécie de reflexo da eclosão da revolução industrial no final do século XVIII, onde a aristocracia detinha a maior parte da riqueza gerada. Ou seja, hoje temos o mesmo cenário dos “30 anos gloriosos”, em que dinastias familiares tinham as rédeas econômicas do mundo. Por isso Piketty é um dos mais ilustres defensores da taxação das grandes fortunas, como forma preventiva de não entrarmos num colapso de desigualdade econômica agudo (caminho que estamos trilhando em alta velocidade).

Há muito que ser dito sobre a volumosa obra de Piketty, como o fato dele ver em todo essa movimentação do processo de distribuição de renda, um grave desafio ao ideal meritocrático das sociedades democráticas modernas (e ele é um dos raros autores contemporâneos a usar o conceito de meritocracia sem demagogia ou hipocrisia), de que precisamos entender com profundidade esse processo que hoje se desenrola sob nossos olhos, de que as grandes empresas dispararam seus lucros no momento de explosão da crise e isso não é aleatório.

Ainda que no começo do estudo da pesquisa de Piketty, já indico fortemente a leitura completa das suas mais 600 páginas. É um bom caminho para se entender o quanto estamos vivendo um conto de fadas ao achar que tudo pode ficar mais equibilibrado. Não, não vai. Até o próximo capítulo.

SELOintrinseca

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