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Eu, cowboy – Caco Ishak

26/08/2015

Eu Cowboy - Roedor de LivrosHoje a palavra da vez é “autoficção”. É a crista da onda, é onde todos estão encontrando seu refúgio seguro. Não é uma novidade. Como tudo nesse mundo, é apenas algo já amplamente usado que hoje adota novas roupagens e com aquele irritante e grudento trabalho de marketing (que empurra goela abaixo muito coisa ruim com boa capa). Temos os comandantes desse bonde. O mais proeminente, cantado nos quatro cantos do mundo como o novo Proust é o norueguês Karl Over Knausgård, autor da série “Minha Luta”. Ele é a ponta do iceberg que só se amplia, seja dos autores que se espalham em pequenas editoras, seja por causa de resenhistas que dão voz a obras que acabam por não alcançar um público de forma satisfatória. O problema de uma onda que se espalha tão vertiginosamente, como está sendo essa dos autoficcionalizadores, é que livros ruins se espalham aos montes também (e achar os bons acaba se tornando uma tarefa um cado mais árdua). E as editoras e os leitores de percepção rasa dão mais espaço ainda para essas figuras. Porém, cá quero falar de um raro bom exemplo de um livro que se encaixa nesse multiverso da autoficção: Eu, Cowboy do paraense Caco Ishak.

No livro de Ishak vamos conhecer Carlos Kaddish, que pelo nome já deixa óbvia a referência beatnik de Ishak. Kaddish é um autoboicotador. Um loser. “Condenados à liberdade, acabamos todos juntos e perdidos, presos no mesmo barco. Não dá pra simplesmente estacionar um barco no acostamento e esperar a tempestade passar. O curso segue. O fluxo segue. A vida deve seguir. Todos juntos e perdidos, presos no mesmo barco. Eu, loser desde o parto. Um moleque branco aguado, criado a leite com pera, tudo pra dar certo na vida segundo esse mundinho machista de merda, mas calhei de ser loser. Branco. E homem. Só mais um fracassado.” É ele que está aqui narrando, entre um porre e outro, ou exclusivamente porre mesmo, as suas peripécias de derrotado. Não de qualquer derrotado, mas um derrotado moderno, um derrotado 2.0, pós televisionado, que tem sua decadência transmitida via streaming. A cidade que esse inútil mora reflete o jeito as suas (des)qualidades: é Belém, cidadezinha que mantém-se provinciana, mesquinha, rasa, puxa-saco, cidadezinha gigante metida a besta. Ishak foge de qualquer condescendência na descrição dessa sua Belém. Porém, é nele que ele vive suas desventuras regadas a muito álcool e doses cavalares de nonsense. Sua vontade de viver a vida de forma onírica, numa cidade em que a dura realidade está sempre ali batendo à porta, só é possível com extensas reflexões a respeito da própria vida, do que é viver em pleno século XXI, onde qualquer idiota pode ser achar um gênio. Aí está, guardada as devidas proporções, a genialidade de Ishak: as suas tiradas filosóficas típicas de um bêbado. “Enquanto uns se cagavam nas trincheiras, outros partiam para batalha em busca da vitória classe média pós-onze de setembro transmitida via streaming.” O mundo de Carlos Kaddish não é colorido, sorridente, com um subtexto escrito por algum publicitário fajuto de uma agência de descolados do futuro. O mundo de Kaddish é problemático, onde antigas relações sempre voltam à tona, onde o sexo atinge lugar de importância e permanência, mas que acaba, no final das conta, não sendo importante para porra nenhuma.

Ishak leva a verborragia do texto até às últimas consequências (pero no mucho). Não temos muito tempo para respirar. É uma volumosa quantidade de porraloquices acontecendo ao mesmo tempo e o ritmo não nos permite ser lentos. O livro acaba funcionado no modus operandi do mal do nosso século: tudo precisa ser veloz. O tempo corre célere durante toda a leitura. Mas no meio de toda essa loucura auto-ficcionalizante, Ishak encontra um espaço para falar do amor que sente por sua filha, numa homenagem literária madura, tocante, serena, de um pai que entende os próprios defeitos e luta contra eles para que não atinjam sua cria. Caco, pai.

Mas nem tudo são flores no mundo onde não há flores. O pecado de Ishak cai no fato de que muitas das histórias e referências pessoais usadas durante o romance façam sentido só por quem o conhece ou conhece os lugares que ele caricaturiza. O que acaba restringindo parte da potência universal do romance. Os amigos do escritor talvez tenham gargalhado, achado graça das situações que ele ficcionalizou no enredo, mas e os outros leitores? Para esses, alguns aspectos e detalhes da história ali podem não ter feito todo o sentido, o que acaba por não deixa a balança entre o pessoal e o ficcional bem equilibrada durante o romance. Porém isso, numa leitura macro da obra, não se torna um fator de diminuição do romance. Está ali para ser uma parte do processo de autoficção de Ishak. É o mundo dele, a forma que ele encontrou pra expurgar seus próprios demônios. O leitor que teve a sorte de pode ter isso compartilhado de forma tão sincera, e com uma qualidade meio rara, ainda que essa raridade seja muito mais plea especificidade e particularidade dos elementos usados do que tão somente méritos literários. Justifico isso para dizer que mesmo com alguns tropeços, o romance de Ishak consegue se sobressair no meio de tanta baboseira saindo às pressas dos prelos por todos os lados.

“No fim das contas, talvez todo mundo só queira mesmo é escorregar de sunguinha e sorriso Colgate, pós-televisionando a revolução que bem lhe caiba e mais lhe interesse. Bunkers de causalidades no mesmo barco. Vamos Negar Scott-Heron, vamos negar Sartre, Camus, vamos negar todo o século XX, surfar na crista da onda. ‘Somos todos F5’, escrito num cartaz. Não demora, aparece um pra apedrejar Virgia Woolf, Pagu, Beauvoir, Judith Butler, Margaret Sanger, Rita Lee. Talvez, a Geração F5 esteja mais é certa. Talvez, valha a pena ficar com a ilusão. Reciclar a ilusão. Éramos todos ovelhas segundo o bê-e-bé do patriarcado. Mesmo os pastores solitários acabavam servindo de exemplo pra algum mártir desgarrado. Infelizmente, só trocamos seis por meia dúzia. Hoje, todos cabritos. Duplicaram o mé, o mé-mé foi replicado. ‘As primeiras lápides com #hastag’. Taí no que deu ser legal com os publicitários.”

E bem ao estilo de Carlos Kaddish, me diga: porra, depois de um trecho desse, tem como não gostar pra caralho desse livro?

ROEDORoitoemeioshak

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  1. rats | ciao cretini

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