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Minha Breve História – Stephen Hawking

03/09/2015

ROEDORminhabrevehistóriaO cosmólogo e físico teórico Stephen Hawking é aquilo que poucos conseguem ser: um gênio pop. “Mas isso é algo que alguns tantos conseguiram ser!”, você pode afirmar. E vou concordar com você, mas Hawking tem uma carta na manga: ele é um gênio pop da ciência. Isso só um outro cara conseguiu ser, com as proporções de um astro de rock, Einstein. Se Einstein tornou-se famoso com a sua Teoria da Relatividade, Hawking tornou-se um ícone intelectual e cultural por assuntos muito mais obscuros ainda: buracos negros, origem do universo e a viagem no tempo. Pois é, o cara não é de mirar em alvos fáceis não. Porém, mais do que qualquer outro, ele alcançou todo esse sucesso com sérias limitações físicas – graças a doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica), que restringiu todos os movimentos do seu corpo e lhe tirou a capacidade de falar. Uma vida com problemas que poucos enfrentaram. E será essa vida que ele vai nos apresentar  na sua autobiografia “Minha Breve História” , publicada no Brasil numa elegante edição pela Intrínseca (2013, com tradução a nove mãos por Alexandre Raposo, Julia Sobral Campos e Maria Carmelita Dias).

 

Hawking nasceu no exato dia de comemoração de 300 anos depois da morte de Galileu, mas como ele faz questão de ironizar isso não significa nada demais: “Nasci no dia 8 de janeiro de 1942, exatos trezentos anos após a morte de Galileu. Calculo, porém, que cerca de duzentos mil outros bebês também nasceram naquele dia e não sei se algum deles posteriormente se interessou por astronomia”. Esse é o tom de todo o livro. Tratando de forma leve sua vida, Stephen nos conduz pelos anos da sua infância, onde tinha ávido interesse por trens elétricos – e também da limitação financeira que sua família possuía -, do fato de ser um aluno extremamente médio, e também de como lhe surgiu o interesse pelo estudo da área que o consagrou mundialmente. Tudo isso contado de forma sóbria, galhofeira, e sem qualquer resquício de autocomiseração.

 

A trajetória de Hawking nos abre perspectivas sobre o mundo do físico. Nela vemos o quanto Stephen era dedicado, mesmo com todas as adversidades. Descobrimos boas curiosidades a respeito da sua vida – mas nada de fofocas, os aspectos mais íntimos ele prefere não se aprofundar -, como ele ter o apelido de Einstein na escola. O relato dele não poderia ser sem bom humor: “Sempre fui um aluno mediano. (Era uma turma muito brilhante). Meus trabalhos escolares não tinham capricho e minha caligrafia era o desespero dos professores. Mas meus colegas me apelidaram de Einstein, de modo que é de se presumir que viram sinais de algo melhor em mim.”

 

Percorremos o livro inteiro acompanhados de fotos raras da sua infância, do seu período como integrante do grupo Boat Club (uma das fotos é essa da capa), do seus momentos com sua primeira esposa Jane, de quem fala com muito respeito e carinho, pois foi ela um dos maiores apoios que teve na época em que foi diagnosticado como portador de ELA. Nesse momento somos tocados, do jeito Hawking de ser, pelo seu relato: “[…] eu não queria morrer. Na verdade, embora não houvesse uma nuvem pairando sobre o meu futuro, descobri, para minha surpresa, que eu estava gostando de viver.” Conhecemos sua segunda esposa, Elaine Mason, que foi sua enfermeira um pouco antes da sua separação de Jane. A partir daí conhecemos rapidamente o contexto das suas principais teorias. Uma das melhores parte do livro. E há também, no meio disso, a desconstrução dos físicos enquanto sisudos. O que os diferencia são só o nível das piadas, mas eles têm lá seu bom humor.

 

A melhor parte mesmo do livro está nos trechos em que nos conta sobre o lançamento da obra que o colocaria no panteão das celebridades insuperáveis do nosso século, o livro “Uma Breve História do Tempo”. A ideia do livro lhe surgiu pela primeira em 1982. Uma das intenções era conseguir os fundos necessários para pagar a mensalidade escolar de sua filha, mas “a principal razão para escrevê-lo foi que eu queria explicar até que ponto já tínhamos avançado em nossa compreensão sobre o universo: como poderíamos estar próximos de descobrir uma teoria completa que descrevesse o universo e tudo que ele inclui.” O livro, todos sabemos – e talvez isso já diga por si -, foi um estrondoso sucesso. E estamos de um livro de ciência, de assuntos complexos, de muito complicada compreensão. À procura de quem comprasse a ideia do livro, o primeiro a ser abordado foi o agente literário Al Zuckerman: “Entreguei a ele um rascunho do primeiro capítulo e expliquei que eu queria que fosse o tipo de livro que vendesse em livraria de aeroportos. Ele me disse que não existia nenhuma chance disso acontecer.” Al é hoje conhecido somente por ter sido estúpido o suficiente de achar a ideia de Hawking impossível. Porém, Zuckerman enviou o primeiro rascunho para várias editoras e sugeriu que Hawking aceitasse a oferta da Norton, editora com enfoque num público de alto poder aquisitivo. No entanto, e para nossa sorte, Stephen aceitou a oferta da Bantam Books, uma editora com foco muito mais popular. E lá quem assumiu o projeto foi o editor Peter Guzzardi, uma das pessoas das quais devemos o sucesso do livro de Hawking: “Ele levou o trabalho muito a sério e me fez reescrever o original de forma que fosse compreensível para não cientistas, como ele mesmo. Toda vez que eu lhe enviava um capítulo reescrito, ele me devolvia um longa lista de objeções e indagações que queria que eu esclarecesse. Às vezes, eu achava que o processo nunca terminaria. Mas ele estava certo: o resultado foi um livro muito melhor.” Agradecemos o esforço, Guzzardi. O editor ainda foi responsável por outra genialidade: o título original da obra era “Do Big Bang aos buracos negros: uma curta história do tempo”, aí Guzzardi inverteu essa ordem e trocou “curta” por “breve”. “Foi uma jogada de mestre e deve ter contribuído para o sucesso do livro. Depois dele, apareceram muitas “breves histórias” […]. A imitação é a forma mais sincera de elogio.” Isso que é um bom editor, leitores.

Depois da publicação do livro, Hawking rapidamente virou uma celebridade e conquistou o mundo com seu carisma, seu robusto intelecto e está até hoje ativo, criativo e produzindo. Mas nada de um exemplo de vida, Hawking não gosta de se ver assim. Ele prefere ser lembrado como um exemplo de esforço e dedicação. Eu também prefiro vê-lo assim e essas memórias reunidas em “Minha Breve História” não nos permitem ter dúvidas: Stephen Hawking, além de um gênio de primeiro time, é o tipo de cara que com certeza você vai querer ser amigo. Leitura necessária.

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