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Rita, Ritinha, Ritona – Dalton Trevisan

30/09/2015

Rita Ritinha RitonaDalton Trevisan é um Salinger à brasileira. E por favor me entendam: digo “à brasileira” justo para quem não se confunda com uma espécie de comparação depreciativa como são as que classificam os artistas pelo seu paralelo com o trabalho de outros e os transfiguram em classificações como “Salinger brasileiro”. Digo isso de Trevisan por ele ser tão recluso quanto foi o escritor norte-americano. Hoje, completando quase um século de vida, o escritor curitibano é avesso ao frisson da imprensa e evita contato com quem não esteja inserido no seu círculo mais íntimo de amigos. É aí que está o paralelo com Salinger. No restante, já falando em Literatura, ambos guardam poucas semelhanças, para não dizer nenhuma.

Trevisan é um dos grandes mestres contemporâneos da narrativa curta da literatura brasileira. Como poucos, consegue apresentar em concisas histórias, traços bem firmes da personalidade malandra, surrealista – como o Brasil é surreal e poucos nos apercebemos disso! -, bem humorada e sacana do brasileiro. O pano de fundo das suas histórias é Curitiba, com seus personagens que nos inspiram pena, familiaridade e certa repulsa em dados momentos. São personagens assim que ocupam as páginas do conjunto de contos reunidos sob o título de “Rita Ritinha Ritona”.

 

Gringos metidos à espertos, adolescentes estupradas no caminho de casa, empregadas domésticas, um vampiro são algum dos protagonistas das histórias que o “vampiro de Curitiba” narra numa escrita que beira, em certas passagens, a um rascunho escrito veloz, porém, longe de qualquer disciplicência. É quase rascunho pela crueza que as palavras nos são postas ali na nossa frente. Poucos ou quase inexistentes adjetivos, os pontos seguidos ocupando toda a estrutura rítmica dos parágrafos. O tempo é célere, sem pausas, numa constância que só é notada quando vira-se a última página e então se percebe que o livro chegou ao fim.

As histórias que compõe o livro se destacam não somente pela velocidade dos acontecimentos – que sempre apresentam uma virada de trama abrupta -, mas também pelo fato de que nos apresentam uma Curitiba sempre camuflada: onde meninas são estupradas e seus estupros justificados, onde elas precisam encarar desafios muito superiores em peso do que elas podem carregar, e ainda algumas homenagens, se é que assim que podemos classificar, como é a espécie de “A Metamorfose” que acontece no livro, mas ao invés de um “inseto monstruoso” kafkiano, o protagonista se transforma num vampiro (em autorreferência ao seu livro clássico “O Vampiro de Curitiba”). A história mais extensa e que dá título ao livro é o ponto alto da coletânea, mas que só chega ao leitor no final. Carregado de senso poético, o conto nos apresenta Rita em seu processo de florescimento, transitando de sua fase menina ao seu ápice de mulher, na virada para os 15 anos, num arremedo curioso de “Lolita”. Enquanto nas histórias anteriores, Trevisan não contém a mão nas tintas mais cruas, nesse seu conto ele opta por ser mais poético e delicado: “Ao vê-la da primeira vez, você logo suspirava: Ai, Rita, meu amor! De joelhos e mãozinha posta. Igual se deslumbrou diante do mar nunca visto – as grandes ondas rebolantes desse mar de olhos verdes, despenteando ao vento as longas melenas loiras de espuma. E, tocado de tal assombro, gemerá para sempre: Ai, Ritinha, Rita, Ritona!”.  Então entra em cena José, que acaba com a vida popular e irreverente de Rita, provando-se um verdadeiro pulha.

Assim se desenrolam os enredos de Trevisan: com reviravoltas, com drásticas mudanças. Tudo em poucas páginas e poucos parágrafos. Ele não precisa de muito: lhe basta pouco para dizer o suficiente. E isso, para nós leitores, logo vemos, também basta.

ROEDORritinhax

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