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Garota Exemplar – Gillian Flynn

02/10/2015

GarotaExemplarGarota Exemplar, da jornalista norte-americana Gillian Flynn, parece ter todos os elementos de um romance ruim: conflito de casal, um desaparecimento, emoções à flor da pele e uma possível condução pouco preocupada dos fatos do relato que o compõe. Mas que, curiosamente, é um livro sobre o qual vale saber pouco antes de lê-lo. Ainda que vejamos em sua capa o bloqueador destaque para os mais de seis milhões de exemplares vendidos em todo o mundo – o que sempre me deixa um pé atrás com qualquer obra -, vale se aproximar do romance de peito aberto. Aliás, não de peito aberto, mas de olhos atentos.

Casal metropolitano de Nova York que vive um conto de fadas modernos, Amy e Nick Dunne parecem ser as pessoas perfeitas vivendo sob as circunstâncias ideais: ela, menina rica, inspiração para uma famosa série de livros escrita pelos seus pais, linda, inteligente e esperta; ele, jornalista charmoso, que escreve para revistas de entretenimento, bonito, e extremamente sedutor. Eles dois, o casal perfeito. No quinto aniversário de casamento, ela desaparece. O desaparecimento se dá num contexto que indica ter sido violento e repentino. Amy, que preparava uma surpresa como forma de reestabelecer a harmonia perdida do seu casamento, de repente some. Nick, só encontra a sala revirada, os objetos da sua casa no Missouri – para onde o casal teve que se mudar, devido ao câncer da mãe de Nick e do novo, e limitado, contexto financeiro do casal -, todos revirados.

Intercalando os capítulos entre Nick e Amy como narradores, Gillian Flynn nos apresenta à um casamento que estava se sustentando somente pela tênue linha das aparências. Aquele casal feliz, alegre, dos sonhos, não existia há algum tempo. Nick não suportava mais as manias obsessivas e manipuladoras de Amy e sua esposa já não aguentava o homem amorfo e frio que Nick havia se transformado. Nos capítulos iniciais, até a metade do romance, todos os fatos e seus encaixes parecem indicar que o responsável pelo desaparecimento de Amy é o seu marido, o que reforçado pela polícia, pela imprensa e pelo próprio comportamento anormal de Nick – o que seria uma saída clássica e estúpida para um caso como esse. Entre os capítulos do marido, encontramos Amy e seu diário, que mostra ao leitor uma mulher fragilizada, buscando alternativas para salvar seu malfadado casamento, tendo que conviver com um homem distante e despreocupado com ela e seus sentimentos.

Gillian Flynn nos comove com seus personagens. Toda a personalidade deles está sendo imprimida em cada página na cabeça do leitor. Se envolver com a história é inevitável. Você não decide se continua ou não a leitura, você é obrigado a terminá-la. O mérito incontestável de Flynn está no seu domínio da trama: na primeira parte do romance, ela nos leva a criar uma simpatia automática com Amy, enquanto o inverso é totalmente proporcional em relação à Nick. Todas as peças se encaixam e tudo aponta para Nick como o maior desgraçado da história. Mesmo o comportamento de Nick, nos capítulos em que ele nos narra sua perspectiva da história, não o ajuda em nada. Contudo, as pequenas dicas, os detalhes mais subliminares, estão espalhados por todos os lugares. Flynn sabe como trabalhar as pontas aparentemente soltas da trama. E nesse momento, em que o leitor considera resolvido o caso, é então que a autora nos mostra que não é bem isso que estamos pensando. Que as aparências estão quase que constantemente trabalhando para nos enganar.

E talvez seja essa a grande discussão que o livro suscita: o do jogo das aparências. O casamento de Nick e Amy é completamente pautado no que a sociedade espera que eles façam. Flynn brinca com o leitor constantemente, quando o leva achar que há mocinhos e vilões nessa história. Porém não há. Ambos protagonistas guardam seus segredos e vertem vertiginosamente suas mentiras, sempre se camuflando sob o manto da boa aparência.

Outro ponto importante levantado pelo livro é de até onde vale ir para manter um relacionamento. Até onde é saudável lutar por ele? Flynn põe seu leitor em ambientes extremos. Uma espécie de exemplificação cruel. O resultado disso é um romance que guarda boas e cavalares doses de agonia, decepção, abruptas mudanças, tudo regido num tom constante de suspense. De um bom suspense. Flynn pode ter perdido a mão no final que resvalou no lugar-comum, porém em nada isso pesa contra o quadro geral do livro. A psicologia bem definida dos personagens, a constante queda de braço para convencer quem é melhor do que o outro, o ritmo interposto de voz narrativa, a inteligente condução do enredo estão lá, mostrando que, para além dos preconceito com livros que tenham estampados em suas capas a quantidade de exemplares vendidos, Garota Exemplar é um livro que vale a pena ser lido.

ROEDORgillianx

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