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Selva Concreta – Edyr Augusto

06/10/2015

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Edyr Augusto é a “nova grande descoberta da literatura brasileira contemporânea” feita ao norte do país. Para ele se escrevem rasgadas resenhas, ombreando sua obra  a nomes como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Milton Hatoum. É para se confessar que com essa construção simbólica em torno da figura do escritor paraense, guarda-se certa expectativa na leitura da sua primeira obra. Foi assim que me caiu à mão o seu “Selva Concreta” (Boitempo, 2012). Procurei, então, ler com calma as pouco mais de cem páginas que traziam suas oito histórias, ambientadas em Belém e algumas outras cidades do Pará.

Ainda me demoro no tópico da fortuna crítica sobre Edyr Augusto. Ainda ignorado pelo grande público, mesmo há tempos circulando pelas rodas literárias, só agora parece que a crítica nacional passou a vê-lo com outros olhos, com um olhar exótico, diga-se, um olhar de estranha empatia, Edyr vem ganhando espaço no mapa literário do Brasil e, com alcance ainda limitado, da Europa. Tudo isso repleto, como falei nas primeiras linhas, de volumosos elogios e ousadas comparações. Isso não é à toa, creio. Não creio em barulho sem razão. Não um “bom barulho” que não tenha uma “boa razão”. E entenda-se que não falo de sucesso em termos numéricos, de exemplares vendidos. Mesmo porque quem domina o mercado editorial brasileiro em volume de vendas são os livros esdrúxulos que têm como público uma faixa etária cuja a principal característica não é o bom senso na hora de consumir produtos que considerem como “culturais”. É um público que consome entretenimento puro, simples, barato e que esteja em alta. O mal não está em consumir entretenimento, mas no tipo de entretenimento que se consome. O problema não é o bacon, mas como o bacon é produzido pra chegar na sua mesa. Perdão pelo tom levemente aristocrático e por não me encaixar na fortalecida corrente que considera que “toda leitura vale a pena”, mas realmente é o que penso sobre o assunto, afinal nem toda leitura vale mesmo a pena. Voltando à Edyr. O paraense está conseguindo o que parecia ser muito improvável para um autor contemporâneo do Pará: ser inserido no panteão da “boa nova” literatura brasileira. Edyr chegou a ser comparado com Guimarães Rosa pela sua declarada inventidade na condução de um gênero que brinca com o regional e o universal nas suas narrativas. Lendo esse seu “Selva concreta”, chego a conclusão de que precisamos de um pouco mais de cautela na hora de se empolgar com um autor que apresenta um universo considerado “novo”.

 

Os contos de “Selva Concreta” estão em intenso diálogo com o clássico esquema do gênero policial, mas completamente deslocado dos seus arquétipos centrais: não encontraremos detetives altamente intelectualizados usando um terno surrado e chapéu usado despreocupadamente como em romances noirs de Dashiell Hammett, por exemplo. Contudo, o elemento noir está ali, por se tratar de histórias que guarda certas camadas de obscuridade, com personagens que se esbarram no meio das diferentes narrativas. Temos nas histórias de Edyr personagens verossímeis que dialogam entre si numa cidade imbricada de ações corruptas que de alguma forma se interligam, seja no sócio que resolve dar fim do outro mandando-o matar num assalto falso, seja no apresentador de televisão que está pouco se importando a respeito do que precisa fazer para conseguir seu furo jornalístico e estar ali na hora exata para cobrir a carnificina da cidade em tempo real com o mínimo de filtro possível, ou do playboy filho de dono de posto, ou de políticos envolvidos com prostituição infantil, ou mesmo no escuso mundo do tráfico de drogas que tem como via de escoamento as festas de aparelhagens que acontecem nos bairros periféricos de Belém. Em todas essas histórias, Edyr Augusto imprime uma velocidade capaz de pegar o leitor desatento pelas pernas e deixá-lo tonto, perdido sem saber o que está acontecendo naquele fluxo absurdamente rápido onde o diálogo sem indicação predomina. Pode ser que a crítica esteja certa em alegar ser essa uma das características únicas do estilo de Edyr, onde o narrador tem espaço mínimo e os diálogos tomam conta de todas as páginas do livro, num fluxo onde o ponto tem função primordial para dar algum ritmo à narrativa. Porém creio que existe nesse recurso algo ainda pouco explicado, como uma espécie de escamoteamento da capacidade narrativa do escritor nortista. Soa, para o leitor que se localiza no tempo-espaço das tramas, que Edyr está falando muito rápido para que você não perceba que ele não está contando a história da melhor forma. E quando digo “da melhor forma” não quero dizer do “jeito certo”, mesmo porque a literatura minimamente de qualidade se faz da inventidade de saber dizer de forma única uma história que somente você saberia contar. Quando me refiro a essa sensação que tive ao ler Edyr, estou falando exatamente do fato de ver potência na literatura do paraense que chegou a receber prêmio literário francês, mas que ainda não encontrou um método adequado para suprimir essa aparente incapacidade de narrar sem necessariamente apelar para o diálogo direto, recurso esse que não dá conta do recado que Edyr está se propondo a falar.

Contudo, é preciso dizer: é um imenso prazer ver o Pará com os olhos de um paraense que não está preocupado em vender seu estado “para gringo ver e gostar”. Não existe beleza num dos maiores e mais ricos estados do país, que porém é um dos mais isolados, violentos e pobres desse Brasil. O Pará de Edyr está longe do desenho caricato dos fetichistas exóticos que trabalham continuamente na venda de um estado entupido de florestas, com animais selvagens nas praças e cheio de índios na rua. O resumo de um estado tão gigante não poderia ser tão injusto e infiel à realidade. Se for para tecer um elogio, melhor que seja pelo fato de Edyr se justo em colocar um Pará real para ser conhecido em outros lugares. Tarefa da qual todo escritor que se leva a sério, precisa tomar pra si: de ser justo na caracterização dos territórios que os compõe, assim como num bom livro. Sinto que ainda falta em Edyr um domínio maior na maneira como sua narrativa é conduzida. Mesmo escritores apontados como “síndrome do final repentino”, como era o caso do português José Saramago, a narrativa não se sustentava somente em diálogos que não comportavam o peso do enredo. Edyr Augusto precisa analisar esse aspecto de sua obra, para que então a potência do rascunho bem escrito, se transforme num livro bem acabado.

Quero crer que tal impressão exista por esse ainda o primeiro contato com a obra de Edyr. Ainda há uma obra que já tem seu histórico formado para ser descoberta. Vejamos no quê essa busca dará.

 

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