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O Vilarejo – Raphael Montes

21/10/2015

ROEDORovilarejoUm vilarejo, e as histórias de seus moradores, que poderia não ter existido como registro histórico, mas que foi resgatado graças aos cadernos de Elfrida Pimminstoffer que, segundo Raphael Montes – aqui travestido de tradutor dos cadernos no prefácio do livro -, lhe chegou às mãos graças a um sebo. Nos cadernos, segundo Raphael escritos no idioma cimério, sete histórias sobre os moradores de um obscuro vilarejo. As histórias são tão macabras que mesmo o único tradutor gabaritado para cumprir a tarefa de verter os textos para nossa língua, se abstém da tarefa, não restando alternativa que não seja o próprio Raphael Montes traduzí-los.

Raphael, autor de “Suicidas” (Benvirá, 2012) e “Dias perfeitos” (Companhia das Letras, 2013), dois grandes fenômenos editoriais da literatura policial nacional, resolve deslocar o território onde suas histórias predecessoras se ambientaram, o Rio de Janeiro, e cria um vilarejo isolado, tenebroso, que “sumiu do mapa”. É então aqui que Montes consegue o primeiro mérito de seu terceiro livro: a ausência de localização geográfica, que permite movimentações muito mais livres para seus personagens.

Como disse, as histórias que compõe o livro são sete. Cada uma delas é a representação de um dos pecados capitais e recebe o nome de cada um dos demônios usados Peter Binsfeld, famoso demonologista, teólogo e padre jesuíta medieval, para classificar os setes principais pecados cometidos pelo ser humano, que são: Asmodeus (luxúria), Bezelbu (gula),  Mammon (ganânica), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba). Em cada capítulo acompanhamos um dos moradores do Vilarejo e sua história, que tem interligação direta com um dos pecados capitais. Todas as histórias têm conexão uma com a outra – afinal, o vilarejo é o personagem principal que liga todos elas -, fazendo um ziguezague no tempo, apresentando a origem de alguns personagens que apareceram de forma rápida em algum relato.

N’O Vilarejo (Suma de Letras, 2015), Raphael Montes atinge outro nível de maturidade enquanto escritor e consegue uma realização que, da nova geração, poucos conseguiram: produzir bem o livro que se propôs a escrever. A ideia era retratar os sete pecados capitais em sete histórias macabras manchadas de sangue, interligadas, e com um desenvolvimento bem construído? Ponto para Raphael, ele conseguiu. Além do domínio no ritmo das histórias, com personagens verossímeis nos extremos que alcançaram, Montes ainda traz à tona alguns assuntos para debate, como o racismo presente na população do vilarejo – na terceira história, “O negro caolho”. As histórias não possuem elementos aleatórios, os incidentes terão consequências que serão mostradas mais a frente no decorrer da leitura. As ilustrações, assinadas por Marcelo Damm, mostram-se um recurso a mais na experiência da leitura e acabam por nos conduzir para a revelação máxima ao final do livro.

Raphael já foi bastante direto no que diz respeito ao assunto da literatura produzida por ele ter a intenção de ser considerada “séria” ou apenas de entretenimento. Fincou posição e trabalha a partir desse posicionamento – que é desenvolver histórias de entretenimento que tenham elementos reflexivos -, o que julgo um exercício de honestidade no seu ofício de escritor. E para o que se propõe, Montes consegue provar que o vaticínio feito por Scott Turow, autor do ótimo “Acima de qualquer suspeita”, não está errado: “[Raphael] certamente redefinirá a literatura policial brasileira, e vai surgir como uma figura da cena literária mundial”. Se o caminho trilhado pelo jovem escritor carioca continuar sendo esse, sem dúvidas a literatura policial tupiniquim e o terror brasileiro terão um bom nome para inserir em suas histórias.

ROEDORsuma

2 comentários leave one →
  1. 22/10/2015 13:37

    Há anos que tenho vontade de ler livros desse autor. Ultimamente estou super curiosa quanto a esse, adoro terror. E eu não sabia que tinha ilustrações, agora estou ainda mais animada com ele! hahaha
    Resenha muito boa (:

  2. 25/10/2015 0:59

    Olá!!! Realmente Raphael Montes demonstrou muita maturidade nesse livro, já que tem apenas 25 aninhos.. Cofesso que fiquei com um certo pé atrás antes de começar a ler mas ao final gostei muito. Escrevi uma resenha sobre ele tbm no meu blog e vou deixar o link, caso vc queira dar uma olhada.. Bjs!

    https://ondevivemashistorias.wordpress.com/2015/10/12/resenha-o-vilarejo-raphael-montes/

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