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Iniciação à literatura brasileira – Antônio Cândido

29/10/2015

ROEDORliteraturaO quase centenário intelectual brasileiro Antônio Cândido é uma dessas sumidades das nossas letras. Considerado por este que aqui escreve como um dos maiores – para não dizer maior – crítico literário brasileiro, Cândido é responsável por obras seminais da crítica e teoria literária produzida no país. Convidado para escrever uma obra coletiva a ser editada na Itália como comemoração ao quinto centenário da “descoberta” da América, o crítico compôs um resumido guia histórico da literatura brasileira. Como o projeto não vingou, o resumo tomou forma e se transformou, após algumas alterações, nesse “Iniciação à Literatura Brasileira” (Ouro Sobre Azul, 2010).

As discussões a respeito da história da literatura brasileira são vastas, amplas e profundas. Não podendo, portanto, ter critérios absolutamente válidos para fazer uma definição cabal dos meandros que perpassam todo o processo de construção histórico da nossa literatura. O livro de Cândido, tampouco, se arvora desse pressuposto definidor. O que encontramos nas pouco mais de 130 páginas do resumo, é uma divisão sucinta – uma introdução – dos principais períodos pelos quais passou a nossa literatura: desde dos primeiros documentos e textos confeccionados já em terra recém “descoberta”, que contam com forte influência europeia – influência essa que perdura ainda em diversos aspectos da produção literária nacional -, até os escritores modernos, com poucas alusões a importantes nomes do cenário dos anos 2000 nas nossas letras – o que vai além de uma simples introdução.

O livro é dividido em três momentos.

1) “Manifestações literárias”: momento que vai do século XVI a meados do século XVIII e é fortemente marcado pela transposição de modelos literários já consolidados nos sistemas da literatura europeia, e que aqui teve múltiplas funções como política, religiosa e profundamente social. Ou seja, não houve, em terras brasileiras, o nascimento de uma literatura brasileira. O que aconteceu foi uma transformação a medida que uma nova sociedade também tomava corpo. É desse período que temos os escritos do “patriarca da nossa literatura: José de Anchieta (1534-1597)”. Anchieta é responsável pelo primeiro livro produzido no país e também por ser um dos raros a compor peças exclusivamente literárias em quatro línguas – português, espanhol, latim e tupi -, muitas vezes mesclando-as. O religioso também foi o provocador da valorização do tupi, o que gerou nas autoridades da época medidas de proibição do uso da língua indígena. Esse é o período em que as crônicas de viagem, escritos religiosos e a “literatura de senhores” predominaram quase que absolutamente. A exceção desse momento vem de Gregório de Matos que, porém, não fugiu dos moldes da tradição europeia na produção de sua obra.

2) “Configuração do sistema literário”:  se no primeiro ainda não tínhamos um sistema propriamente dito, nesse segundo momento – que vai do século XVIII até o final do Romantismo – temos os esboços de um sistema literário melhor desenhado. É a partir daí que temos uma produção intelectual em terras brasileiras, onde as primeiras manifestações de intelectuais da colônia começam a florescer. Cândido pincela rapidamente as obras e escolas dessa época, como o Arcadismo e o Romantismo, destacando as diversas transformações sociopolíticas, e também de alguns movimentos pouco preponderantes, como o Indianismo, que o professor Cândido chama de “um fenômeno de adolescência nacionalista na literatura brasileira”. É aqui nesse momento que temos o primeiro reconhecimento de uma literatura brasileira completamente separada de Portugal, indicado pela obra “Résumé de l’Histoire Littéraire du Brésil” do crítico francês Ferdinand Denis. No mais, Antônio Cândido desfila uma série de obras e autores importantes para a configuração do nossos sistema literário: Basílio da Gama, Tomás Antônio Gonzaga, Sousândrade, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Visconde de Taunay, Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães e o maior nome da ficção brasileira dessa época, José de Alencar, para citar alguns. É, então, com essa base, que o sistema então se consolida.

3) “O sistema literário consolidado”: a obra do escritor que definiu essa consolidação foi a de Machado de Assis, o maior nome das nossas letras. Foi graças a obra desse gigante, que o nosso sistema literário tomou características maduras e pode andar, até certo ponto, com suas próprias pernas: “Sua obra é variada e tem a característica das produções eminentes: satisfaz tanto aos requintados quantos aos simples. Ela tem, sobretudo, a possibilidade de ser reinterpretada à medida que o tempo passa, porque, tendo uma dimensão profunda de universalidade, funciona como se se dirigisse a cada época que surge”. É nessa parte de seu resumo que a límpida escrita de Cândido toma cores mais fortes e delineadas. Nos é apresentado o rico leque da nossa literatura, com grandes nomes do Realismo, do Modernismo, e as principais e mais relevantes obras desse período.

A pequena obra, em tamanho, do professor Antônio Cândido serve como uma das mais adequadas, cultas e intelectualizadas introduções ao profícuo universo da literatura nacional. Uma obra necessária não somente para estudantes da academia, mas também para curiosos sobre as peculiaridades da formação da nossa tradição literária.

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