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Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

11/11/2015

ROEDORtodaluzquenaopodemosverTalvez haja certo consenso de que não há como descrever os horrores das duas maiores guerras que o mundo já enfrentou. Uma guerra de proporções gigantescas por si só já carrega em si uma alta dose de irracionalidade. E de ambas, a Segunda Guerra Mundial foi a mais – apesar de não haver como mensurar isso, afinal sofrimento não é uma  estatística tangível – a mais perversa. Acentuadamente por ter o nazismo nessa soma de morte e irracionalidade. É nesse cenário mórbido que a história de “Toda Luz Que Não Podemos Ver” (Intrínseca, 2015) se ambienta.

Vencedor do Pulitzer de ficção de 2015, o livro de Anthony Doerr vai nos apresentar a história de duas crianças que passam os momentos mais decisivos de suas vidas no meio da guerra: Marie-Laure, de Paris, filha cega do chaveiro do Museu de Arte Natural, que faz pra ela uma maquete reproduzindo a cidade. Marie-Laure tem doze anos quando seu país é ocupado pelos nazistas e precisa se refugiar. O outro protagonista é Werner, adolescente órfão que mora na região de minas de carvão na Alemanha; menino curioso, ele tem um grande talento pra lidar com questões de mecânica de rádios – talento esse que irá lhe valer uma entrada para a juventude do exército nazista.

Ambos protagonistas não se esbarram durante quase todo decorrer do livro. Doerr narra as duas trajetórias paralelamente, fazendo um vai-e-vem temporal, apresentando-nos os percalços e percursos que os adolescentes enfrentam até o momento em que se encontrarão no litoral francês, num contexto de horror.

Nesse ínterim acompanhamos também outros personagens que guardam seus segredos e obsessões, como o pai de Marie-Laure, responsável por cuidar do místico Mar em Chamas, uma pedra rara e alto valor financeiro e histórico. Frederick, amigo de Werner, fascinado por pássaros e um passivo que sofre na escola de formação militar nazista. E ainda outros vários que nos são deslindados no decorrer das mais de 500 páginas do romance de Doerr.

Há algumas questões que perpassam toda a trama, como o livre-arbítrio – questão inevitável num romance que traz personagens nazistas e as tensões provenientes da ocupação alemã. Doerr talvez seja comedido na forma como trata as atrocidades da guerra. Muitas vezes esse tratamento tem tonalidades piegas e clichês, e um peso exagerado no sentimentalismo. Isso conta negativamente em relação ao romance. Contudo, o livro não pode ser julgado completamente ruim por esse aspecto. Com capítulos curtos e cirúrgicos, Doerr consegue manter a atenção do leitor pelo seu calhamaço, sem que percamos o interesse na história. A panorama desenhado por Doerr vai de encontro com a sensibilidade do leitor que projeta-se nas aflições pelas quais os personagens passam. Conseguir imbricar isso no leitor é característica de um bom narrador. Pode ser que Doerr lance mão de alguns recursos que possam nos irritar, como frases de efeitos pouco eficazes ou úteis à trama. No entanto, a força da história está ali em cada página, onde as personagens passam por situações não gostaríamos de imaginar – mesmo que com cores muito mais suaves do que a realidade. Mas não, não era um romance para um Pulitzer. Ao contrário da ganhadora predecessora, Anthony Doerr precisa ainda dar mais consistência para sua narrativa. O livro passa a nítida impressão de que poderia ser mais, e que por alguma razão, não foi.

O romance de Doerr tem seus pecadilhos, porém é grande livro. Emociona – aliás, é o que mais ele consegue fazer -, e na sua maremoto de sensibilidade apresenta humanidade em meio a um mundo totalmente desumano.

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