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Carne do Umbigo – Maria Rezende

23/11/2015

ROEDORcarnedoumbigoO escritor Antonio Lobo Antunes disse, certa vez, que considerava a poesia a forma mais difícil de escrever, porque nela “a palavra precisa ser bem escolhida, porque cada palavra tem um peso”. A poesia é o mais complexo dos gêneros literários. É ali, na profusão de palavras que se espalham, que se amontoam, que se trava a “luta mais vã”. Mais do que uma escolha cuidadosa de palavras, há que se escolher, também cuidadosamente, o(s) tema(s). Muitos optam por um mergulho no cotidiano, um aprofundado olhar sobre as mazelas pelas quais a humanidade passa, ou uma tentativa de tradução do indizível para termos que possam ser processados pela incapacidade humana de expressar adequadamente seus sentimentos. Outros há que prefiram o inverso, ao invés de olhar para o externo, optam pelo mergulho em si. Esquece-se os demônios dos outros, para conseguir expurgar os seus. Foi esse o caminho escolhido pela poeta carioca Maria Rezende no seu “Carne do Umbigo”.

Enquanto no romance a autoficção, capitaneada por nomes como Karl Ove Knausgård, volta às prateleiras das livrarias numa produção vertiginosa de títulos e com ares (falsos) de tendência contemporânea, a poesia parece estar alheia a isso e seguindo no percurso tortuoso de sempre. Muito longe de estar cedendo à “tendência”, caso numa leitura rasa tente-se travar esse paralelo com autoficção, Maria Rezende volta o olhar pra si, numa prática comum da poesia, que é poder enxergar a própria vivência com uma percepção mais sensível, e partir dessa perspectiva ter uma fonte de onde pode beber abundantemente para produzir sua obra.

O curto livro de Maria, que reúne alguns poucos poemas, não pode ser sentido de maneira pequena. Enquanto se debate, nas mais diversas plataformas e círculos, se há ou não, se é legítimo ou não afirma a existência de literaturas que possam ser classificadas como contemplativas de temáticas minoritárias, Maria Rezende produz, com esse seu “Carne do Umbigo”, uma poesia que exemplifica, com toques surpreendentes (e a surpresa está em nunca ter tido a poeta sequer próxima do meu radar leitor) de qualidade e esmero, as vivências exclusivas do universo feminino. Não ouso em dizer que a poesia de Maria é uma “poesia feminina”. Não creio nessas classificações. Contudo, para um leitor masculino, a poesia da carioca pode ser muito mais reveladora do que tão somente um ponto de identificação. O que ela revela é aquilo que o sistema de manutenção do privilégio patriarcal tenta camuflar, mesmo hoje onde muito desses aspectos sejam considerados, pela fatia esclarecida da sociedade, pontos pacíficos de debates como, por exemplo (e há até vergonha em dizer que ainda existem “exemplares da espécie humana” que defendam o escamoteamento disso), o prazer feminino, seja ele na relação sexo ou no ato de masturbar-se. A poesia feita pela poeta carioca exemplifica bem a necessidade que temos hoje, na produção literária, de transformar alguns tabus em consensos humanistas (alguns consensos que soam estúpidos, de tão lógicos que são, mas que porém, ainda encontram resistência).

Há mais de uma década dedicada ao fazer literário, Maria Rezende não resguarda-se em parecer dona e empoderada (mesmo que o termo soe desgastado em alguns círculos, aqui aplica-se perfeitamente) de suas próprias palavras, de sua própria voz, de seus versos. Há nas poesias de “Carne do Umbigo” essa centralidade das próprias experiências, e existe também o importante processo de entender-se mulher, seu papel, sua importância e relevância. Mais do que apenas, para usar os temos de Beauvoir, tornar-se mulher, há no livro da carioca, o que é tornar-se mulher na América Latina – acentuadamente no poema “Pulso aberto”, obviamente se referindo ao livro “As veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, a quem o poema é dedicado.

O poemas do livro seguem numa crescente, como se o objetivo fosse ir comendo pelas bordas, em pequenas mordidas, em micro-catarses, quando então se desemboca no fim das páginas, afoito por mais, porém satisfeito com tanto. No final da leitura é que os versos “Eu sou exuberante / eu sou exagerada / sou a morena peituda / com quem você sempre sonhou”, do poema-título, fazem completo sentido. Afinal, Maria Rezende, de uma forma ou outra, vai acabar se transformando nessa mulher com quem você sempre sonhou.

Publicado de forma independente e numa tiragem tímida, como quase toda “boa” (politicamente corretos, deixei aqui as pacificadoras aspas, para não ter pedras na minha cruz) literatura produzida no país, “Carne do Umbigo” é um livro que deve ser lido numa tarde tranquila, sem pressa, mas de uma só vez, porque ouso duvidar que você vá querer largá-lo antes do fim.

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