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A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro

02/01/2016

ROEDORcasadosbudasditososA liberdade sexual não é um debate de hoje – década de 60 está aí para que não nos esqueçamos disso -, porém o debate tenho ganhado novo ânimo nesses nossos tempos de inúmeros fóruns de discussão. Talvez essa premência seja sintomática do fato de que a geração tecnológica, dessa era da informação, tenha contraído certa nostalgia de uma postura conservadora, sentindo saudades da repressão – e não me limito ao aspecto político dessa contenção, mas sim do tema aqui interessa. Nessa guinada do conservadorismo enxergamos a manifestação de anacronismos bizarros, como o constante esforço de escamotear a sexualidade feminina. Não sei se a ansiedade ou a depressão, mas há garantias óbvias de que um dos maus do século seja a chamada caretice. Talvez por isso – e acentue o grifo no talvez -, estejamos vendo a efervescência de debates em torno dessa temática.

Mesmo com a enxurrada de informações que recebemos diariamente, ainda vemos a defesa de discursos totalmente retrógrados no que concerne ao prazer feminino, que é sempre visto como “menor” ou mesmo “perigoso”. E isso no contexto contemporâneo, o que não deixa de despertar, nas mentes minimamente pensantes, uma grande dose de vergonha. Mas é nesse contexto de discursos geometricamente quadrados, inflexíveis e ignorantes, que surge o livro do carioca João Ubaldo Ribeiro: “A Casa dos Budas Ditosos” (Objetiva, 1999).

Feito por encomenda para a coleção “Plenos Pecados”, que trazia setes histórias onde os pecados capitais eram os protagonistas, o livro de Ubaldo é o representante do pecado da Luxúria. Com o desgastado recurso de usar um obscuro manuscrito que traz um relato “real” de uma narradora, Ubaldo assina somente algumas poucas alterações e edições no texto. Talvez, à época, o recurso valesse para trazer mais publicidade para o lançamento do livro. Hoje, pode ser que não chegasse a funcionar tanto. Mas esse é um aspecto menor e irrelevante.

A narradora, uma senhora próxima dos 70 anos, de Ubaldo é provocadora. Nas primeiras páginas conhecemos alguns contornos da psicologia da protagonista: desbocada, porém extremamente culta – com constantes referências a cineastas, pensadores, filósofos e escritores -, de personalidade imponente e impositiva, ela não nos conta uma história. Seu relato é feito de um conjunto de experiências sobrepostas. Todas elas, claro, de cunho sexual. Desde sua primeira experiência, executada com ares de mulher experiente (“Suponho que devo ter um certo orgulho disso, devo reconhecer sem modéstia que sou um talento nato, uma predestinada, uma escolhida dos deuses, só pode ser algo assim. Não gosto de falar desta maneira, mas não há como escapar, existe alguma coisa de inexplicável nisso, tenho de crer que nasci sabendo, de certa forma. De certa forma não, eu nasci sabendo. Só pode ser, não me pergunte como. Eu nasci sabendo.”), e no decorrer do livro, ela segura na mão do leitor e apresenta um mundo que existe e é ignorado: aquele onde as aparências precisam de constante vigilância para não ser revelado o que há por debaixo delas, a pura hipocrisia.

Muito mais do que somente uma superficial colcha de histórias sexuais, o relato carrega uma série de reflexões robustas sobre a liberdade sexual feminina. Muito ciente dos benefícios que usufrui por ser homem, Ubaldo não à toa usa uma voz feminina para dar vazão ao discursos que a sua obra carrega.

Todo o percurso do livro é carregado de referências ao discurso feminista. Não entenda por isso que a obra de Ubaldo seja feminista. É um livro que pensa a respeito das “problemáticas” questões da liberdade sexual da mulher. Ubaldo, mesmo que seja um mestre irretocável da literatura brasileira, resvala em dados momentos do livro em alguns pontos de vistas masculinos. Isso não chega a ser surpresa tendo em vista que ele é um homem pensando aspectos da vida feminina, ou seja, que não chegamos a entender por não fazer parte do nosso núcleo de vivências pessoais. Contudo, a ficção não se permite diminuir por isso: há escritores que ficcionalizam dramas e acontecimentos que estão longe do seu círculo social ou econômico e conseguem trazer toda a carga que a “boa” literatura carrega em si. Nisso não há uma crítica negativa, porque trabalha-se aqui o escrutínio de uma obra de literatura, o que a faz ser julgada conforme seus próprios parâmetros e méritos. Discursos de outra ordem fazem parte de outras áreas do conhecimento.

De toda forma, a narradora da obra de Ubaldo é ferina em suas críticas ao modelo quadrado e hipócrita da concepção da sociedade contemporânea a respeito de como ela encara a emancipação da sexualidade feminina. Para isso não poupa ácidos comentários a respeito de diversos assuntos, como o casamento:

“Imagina como eu era entre os trinta e os quarenta e poucos, na minha opinião a melhor idade para qualquer mulher, com a exceção da que se casa para engordar, realçar a celulite, usar meias contra varizes, assistir novelas, entrar em concursos de televisão, limpar o catarro dos filhos e o próprio e encher do adúltero de meia tigela que a sustenta.”

O endeusamento a respeito da mulher, do seu corpo, a cristalização da pureza e a honra feminina também estão entre as críticas feitas pela narradora de “A Casa dos Budas Ditosos”:

“Até hoje me espanta essa himenolatria. Era a honra da mulher, que horror. Ainda existe, sabia? E existe aos montes, é de cair o queixo, de vez em quando tomo um susto. Pittigrilli, um escritor que hoje ninguém lê, mas andava em voga e de que as moçoilas não podiam nem chegar perto, mas cujos livros davam sopa na biblioteca de meu pai e na do de Norminha – mais um ponto para minha família, nossas famílias, aliás -, dizia mais ou menos que, em vez de se preocuparem tanto com a integridade dessa honra, melhor fariam as mulheres italianas em lavá-la, com água mesmo e não com sangue, pelo menos uma vez por dia. E, de fato, é triste, acho que como ele próprio disse, viver numa sociedade em que a honra feminina é portada entre as pernas, que coisa mais besta meu Deus do céu. Mas, não é, não é? Às vezes me dá vontade de fazer um comício. Quantas vidas se perderam, quantos destinos se estragaram, quantas tragédias não houve, quantos conventos não foram abarrotados desumanamente, por causa da honra de tantas e tantas infelizes?”

A lista pensamentos trazidos pela narradora é vasta, e ela vai do fazer sexo livremente com os amigos até fabulosas e maduras descrições de orgias e sexo grupal. A narradora de Ubaldo pode ser efetivamente o exemplo de uma mulher dona de si, confiante a respeito das decisões que toma. O que a torna, mesmo invonlutariamente, uma feminista na acepção mais essencial do termo. A leitura dessa obra sob essa perspectiva nos faz perceber que o livro está bem além de ser apenas um livro sobre sexo. É um livro sobre liberdade (com o devido perdão do uso desse clichê, mas é o que melhor descreve a obra). Por isso muito facilmente diversas partes suas poderiam ser destacadas. As tiradas inteligentes da narradora estão presente durante todo o texto. É graças a essa sua abordagem iconoclasta que encontramos trechos como esse aqui abaixo:

“É porque as pessoas envolvem o sexo em tanta merda — mesquinharias, ciúmes, despeitos, inseguranças, disse-medisses, suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda — que fazer sexo com amigos às vezes acaba prejudicando a amizade. Não se oferece merda aos amigos, atentar nisso, os amigos são muito importantes. Então, livrar-se da merda, para pode oferecer a ambrosia, que está aí para quem quiser deixar de ser babaca e ver. Se se prestar atenção e se assumir a postura correta, o certo é comer os amigos, é absolutamente óbvio, chega a ser ridículo ter que dizer isso e apresentar como tese a ser discutida, não há nada a ser discutido, é elementar, lógico, curial. Não todos os amigos, é claro, minha ideia não deve ser deturpada, embora eu ache legítimo que alguém empreenda como missão de vida comer todos os amigos e amigas que puder. Eu mesma, de certa forma, sou assim e conheço gente assim, mais gente do que seria de esperar à primeira vista. Comer alguém deve ser um gesto de amizade e que complementa e aprofunda, não estraga essa amizade. O que estraga é o lixo na cabeça, que não é inerente ao sexo, são os penduricalhos mortíferos que arranjam para ele. Experimente conversar sobre isso com amigos e coma eles, se eles se revelarem sensíveis a essa maneira de ver as coisas. Indecente é comer pessoas que não seriam nossas amigas.”

Como dito antes, o livro de Ubaldo Ribeiro pode não ser um livro feminista, porém é uma obra que debate a liberdade sexual da figura feminina com espantosa precisão: sem grandes teorizações, sem meio-termos, sem desvios. É sempre direto ao ponto, como toda literatura que se pretende boa deve ser.

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