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Fragmentos de Um Discurso Amoroso – Roland Barthes

06/04/2016

ROEDORcorpofragmentosEntender o amor pode ser a tarefa mais improfícua que um ser humano pode se dispor a intentar. Por razões muito óbvias: o amor é um conceito que não se conceitua, por suas dimensões subjetivas, permeada de particularidades no sentir e na sua representação. Mesmo que se discuta sua construção simbólica-idealista perpassando pelos signos de afetividade “ocidentais” e sua caracterização romântica e infantilizada, não se pode ignorar que independente do que seja, esse “sentimento” está presente na vida cotidiana, e traz todos os seus desdobramentos para a existência daqueles que o vivenciam.

O amor é tentador, se imbrica de funções que desconhecemos e que, mesmo sem saber, ansiamos e desejamos. Porém, mesmo que plenamente dotado da subjetividade de sua vivência, o amor e suas formas de existir é uma experiência que guarda impressões universais. Quantas histórias de amor se assemelham nos mais íntimos detalhes? Essa universalidade na experiência amorosa é moldada pelo quê? O que formata o discurso do amor ou discurso amoroso? O apaixonado sabe até que ponto sobre o sentimento que o possui ou entende algo do que sente? As perguntas sobre o amor e seu discurso, os dispositivos simbólicos que constroem as bases da sua representação, ainda se encontram, em grande parte, com respostas inconclusas. Sobre essas perguntas sem respostas do discurso amoroso é que vai repousar a análise do pensador escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo (!!) francês Roland Barthes no seu livro “Fragmentos de Um Discurso Amoroso” (Martins Fontes, 2003. Trad.: Marcia Valeria Martinez de Aguiar).

Com um formato, como indica o seu título, completamente fragmentário, o livro monta-se à guisa de ser o simulacro de um glossário do discurso amoroso, com todas as suas sensações mais comuns e clichês, passando pelo crivo da análise de Barthes. Porém, engana-se quem considerar a leitura do “Fragmentos” uma saída à procura de respostas sobre o amor. O livro não é sobre o amor, é sobre seu discurso, seus dispositivos de representatividade discursiva e todos os seus desdobramentos a respeito de como compreendemos esse sentimento. Ao contrário do que possa parecer, o livro não carrega a dureza de um tratado filosófico e suas intrincadas veias teóricas e semânticas; o livro de Barthes se abre em perspectivas cínicas, áspera em dados momentos, em que cuida de dar forma àquilo que não se comporta em definições simples.

Barthes se utiliza de recursos inteligentes no formato do livro. Em verbetes, os conceitos e comportamentos do discurso amoroso se exemplificam por diversas referências de clássicos da literatura universal, da psicanálise, da filosofia e de experiências pessoais. Essa leitura transversal e semiológica do discurso amoroso feita por Barthes produz uma assombrosa identificação no leitor (essa experiência foi comprovada por esse humilde crítico diversas vezes em conversas com os leitores desse livro). Tal conexão se dá pela abordagem de temas gerais do discurso amoroso e por diversas situações práticas presentes no texto. É inevitável, mesmo para o rigoroso leitor acadêmico, não se tocar com a escrita de Barthes. A sua análise do discurso amoroso, do impacto que tem na vida do que ama, do “objeto de amor” e todos os envolvidos nesse processo, é feita completamente numa linguagem cristalina no concatenamento das ideias. A obra não é de conclusões, é de reflexões, de percepções, de impressões. Talvez nisso esteja grande parte da força singela do livro do filósofo francês: a fluidez espontânea na hora de pensar o discurso amoroso.

Um livro simples, curto e denso na exata proporção da estrutura fragmentária que tem, “Fragmentos de Um Discurso Amoroso” é uma potente surpresa para o leitor interessado em toda complexidade que a palavra-signo “amor” pode carregar.

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