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Carta a D. – André Gorz

24/05/2016

CORPOcarta-a-DO subtítulo da carta de Gorz é a “História de um amor”. Justificadamente. O pequeno livro talvez seja uma das mais pungentes declarações que encontraremos nesse mar de pregações amorosas rápidas, líquidas – para se usar um termo da moda -, e acentuadamente rasas. André Gorz, jornalista, filósofo, escritor e um dos proeminentes articuladores do ideário dos movimentos de esquerda da década de 60, profundamente conhecido pela clareza de suas ideias, nessa carta para sua companheira abre os vincos mais recônditos daquela parte da anatomia do corpo que ignoramos: o coração.

O relacionamento de André com Dorine Keir durou cinquenta e oito anos. Mais da metade de um século que foi suficiente para que a ligação de ambos atingisse outro patamar de conexão amorosa. A carta é de extrema intimidade, afetuosidade, apresentando o lado humano que o amor traz. A missiva é delicada, mostrando o quanto André era ligado à Dorine e o quanto lhe observava com os olhos de amante. Nessa curta narrativa, André cai na dura percepção de o quanto, em seus escritos, pouco há de Dorine: Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida?” Essa constatação também nos atinge a fundo. Diz muito sobre o quanto ignoramos o que – e quem – pode estar conosco, realmente, até o fim da vida. Essa pouca importância parece ser fruto da marginalização que as correntes de pensamento tão profundamente esmiuçadas por Gorz dão a esse sentimento tão historicamente burguês que é o amor. Mas no fim das contas, nos vemos ali presos por essa força que o outro exerce em nós. Com Gorz e Dorine não houve exceção.

Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.

A carta de Gorz faz uma justiça tardia à dedicação de Dorine na relação de trabalho do casal. É já na casa dos oitenta anos, a ver a esposa adoentada (Dorine sofria intensas dores de cabeça em decorrência de um erro médico, o que lhe custaria a vida e faz com que a proximidade da morte amplifique, em Gorz, a sua importância), o pensador austríaco reconhece a grandeza da companheira, afirmando, inclusive, que ela fora maior e melhor que ele em tudo. O casamento, essa instituição burguesa reguladora da vida a dois, tomava, finalmente, conotações apoteóticas para Gorz. Era ali que ele se realizava, nesse “pacto para a vida inteira”.

Talvez mais do que qualquer outro aspecto importante, o que ressalta-se a vistos olhos nas linhas da carta de Gorz é o quanto a relação de ambos foi importante para sua obra. Dorine foi o braço direito intelectual fundamental para a composição do trabalho de Gorz. E a percepção da injusta figura que ele lhe impunha também vem à baila nessa autorreflexão que o filósofo faz do relacionamento.

Por que, em Le Traître [sua primeira obra], passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.

Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes? Por que eu não disse o que me fascinou em você? Por que eu a apresentei como uma coitadinha, “que não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês e que sem mim teria se destruído”, se você tinha o seu círculo de amigos, fazia parte de um grupo de teatro de Lausanne e era esperada na Inglaterra por um homem determinado a se casar com você?

A partir desse trecho pode-se inferir diversas reflexões a respeito do papel social imposto aos gêneros no trabalho intelectual (basta ver a forma como as companheiras de grandes intelectuais e escritores são desmerecidas ou têm sua imagem diminuída na relação de trabalho com seus cônjuges). Mas esse não é o objetivo desse texto e o espaço não comportaria essas proposições. Contudo, é alentador ver Dorine, enfim, posta no lugar que lhe compete – e por quem mais necessitava fazer isto.

Após a publicação do livro na França, no dia 22 de setembro de 2007, o casal é encontrado morto e de mãos dadas na cidade de Vosnon em sua casa. Aplicaram-se um injeção letal e deram adeus ao mundo juntos, do mesmo jeito que viveram mais da metade de suas vidas. Porém, é um engano entender a carta de Gorz como uma carta suicida. É, a bem da verdade, o doce poder de relembrar, de poder enfim olhar para trás e enxergar o encanto das boas lembranças e fazer jus ao que precisava de justiça. Nela há trechos de emocionante beleza.

Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas.

Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: “Não tenho chance nenhuma com ela”. E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: “He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest”.

Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.

E um dos mais belos primeiros parágrafos de todos os tempos.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

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