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O Informe de Brodie – Jorge Luis Borges

03/06/2016

CORPOo-informe-de-brodieO escritor argentino está entre as grandes sumidades da literatura mundial. Há poucos críticos que tentam enveredar em sua obra com intenções negativas a respeito de qualquer trabalho da vasta lavra de Borges. A grande parte da crítica sobre o escritor, que ficou amplamente conhecido por sua capacidade e intelectualidade leitora e de bibliófilo, debruça-se sobre seus trabalhos sempre à guisa de descobertas sobre novas possibilidades interpretativas. A obra do argentino é larga e comporta diferentes gêneros executados com igual maestria. Se notabilizou pelo labiríntico percurso que apresenta ao leitor com suas histórias fantásticas e (im)plausíveis. Contudo, ao final da vida, já consumido pela cegueira crescente, mas ainda com o intelecto renovado, crítico e atento, propôs a si o desafio de compor narrativas curtas e diretas, hábito alheio aos seus afazeres literários. O desafio foi excelentemente bem executado, como comprova-se na leitura das onze histórias que montam a estrutura de “O informe de Brodie” (Companhia das Letras, 2008. Tradução de Davi Arrigucci Jr.).

No prólogo, Borges apresenta-se plenamente consciente – como apenas poucos empregados desse ofício poderiam estar – do desafio que impôs a si. “Tentei, não sei se com felicidade, a redação de contos diretos. Não me atrevo a afirmar que são simples; não existe na Terra uma única página, uma única palavra, que o seja, já que todas postulam o universo, cujo o atributo mais notório é a complexidade”, afirma o escritor. Essa consciência demonstra-se em cada uma das narrativas posteriores. O leitor não terá dificuldades em navegar os ambientes e personagens do livro. Simples, submissos às regras de seu círculo social, as figuras que integram o panorama montado por Borges são fortes representantes da latinidade fervente dessa parte do globo. Argentina, ambiente geral de quase todos os contos, é mostrada em suas entranhas, com seus conflitos sociais e políticos metaforizados em dramas nas histórias de “O duelo” e “Outro duelo”, que sintetizam magistralmente a belicosidade que paira nas veias da América Latina. Já as tramas familiares e amorosas são postas em contos como “A intrusa”, sobre o inferiorizado papel do feminino no interior da latino-américa na imagem da personagem Juliana, que foi o estopim da inveja e ciúme entre os dois irmãos que a disputavam e por quem eram apaixonados. Outra narrativa que traz os conflitos familiares para o seu núcleo histórico é “A Velha senhora”, que nos relata a história de María Justina Rubio de Jáuregui, filha de tradicionais militares que está prestes a completar cem anos e um arquivo vivo sobre o passado do pai, guerreiro da Independência argentina. Os contos de Borges fluem numa escrita completamente dialética, num constante domínio no diálogo com o leitor. Seja iniciando o enredo e depois dando voz à história de um outro ou dominando a primeira voz desde a primeira linha, o narrador na coletânea de Borges é fruto da experiência de um escritor capaz de compor obras do calibre de “O Aleph” e “O Livro de Areia”.

O poder de sugestão que cada conto traz, por sua sucinta composição e mesmo pela forma lacônica que alguns enredos se desenrolam, um poderoso chamado ao leitor para dar atenção ao que a obra não diz. Nessa interação necessária, o papel do leitor é fundamental para que a profundidade do trabalho de Borges seja devidamente percebido. Contudo, e inteligentemente, os contos do livro não trazem dificuldade alguma para o leitor neófito da obra borgeana. Todas histórias dão conta, e muito bem, a leituras de diversos pesos.

“Informe de Brodie” é uma coletânea de maturidade. É um mestre da narração se propondo a narrar de uma forma distinta a sua usual. É um livro-desafio, para o escritor e o leitor. Mas finda suas parcas folhas, o leitor sente-se em sobressalto, com seus fins abruptos, repentinos, e com supostas pontas soltas que não interessam de qualquer forma saber como se amarram, o livro inteiro é perpassado pelo símbolo da grandeza da simplicidade. É um êxtase a contemplação do controle completo do que se quer dizer em cada conto de “O informe de Brodie”. Para leitores que preferem degustar livros a lê-los, a textura sonora da obra de Borges é um prato mais que farto.

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