Skip to content

Lugares Escuros – Gillian Flynn

10/06/2016

CORPOlugares-escuros-gillian-flynnOs Estados Unidos é notabilizado não apenas pelo seu crescente, corrosivo e parasitário capitalismo, mas também por seu extenso histórico de crimes bárbaros, incompreensíveis e, diversos deles, inconclusos. Muito deles se tornaram lendas mundo afora e os seus sobreviventes transformam-se em mitos vivos. ­Para que surja grupos interessados em versões não-oficiais dessas histórias não há empecilho. E como os EUA talvez seja um dos mais vastos repositórios de loucura do planeta, esses grupos de investigadores amadores são formados por pessoas no mínimo estranhas e, várias delas, bizarras. E tão aficionadas nos crimes quanto aqueles que são remunerados para isso. Esses grupos excursionam pelo país em busca de provas e versões alternativas, e dispendem vultosas quantias de recursos financeiros para financiar suas investigações. Alguns desses grupos acabam por conseguir chafurdar informações que nem os agentes da lei alcançam. Eles formam uma outra tradição – estadunidensemente estranha – dentro desse panorama de casos de crimes hediondos e intrincados.

É num desses grupos que Libby Day pode encontrar sua saída para a sinuca de bico financeira em que se encontra. Libby, protagonista e narradora de Lugares Escuros (Intrínseca, 2014. Tradução de Alexandre Martins), é a única sobrevivente de um massacre que aconteceu na fazenda de sua família. No crime, sua mãe e irmãs foram brutalmente assassinadas. O acusado, e que cumpre como culpado a sentença, é seu irmão – figura reclusa e calada. Na época do crime, Libby tinha apenas sete anos. O crime, como era de se esperar, chocou o país inteiro e foi manchete nos principais jornais do mundo. O que alçou Libby no mórbido mundo das celebridades criminais. Durante alguns anos ela contou com a piedosa ajuda financeira de desconhecidos que sensibilizaram-se com seu abandono. Porém, os anos se passaram, outros crimes tão sangrentos quantos o da família Day tomaram os noticiários, fazendo com que Libby caísse no esquecimento, no ostracismo veloz. Por ter sido alvo dos mais diversos auxílios desde tenra idade, Libby nunca foi afeita a qualquer emprego, e sequer enxergava-se executando qualquer tipo de tarefa. Contudo, sua nova situação despertava preocupação, porque, assim como o interesse pelo seu caso, as doações também arrefeceram.

Buscando alternativas, junto ao insólito advogado que cuidava de suas necessidades sociais e jurídicas, Libby então se depara com uma feira que agregava diferentes grupos de investigadores informais de crimes clássicos do país. O seu caso tinha um grupo específico. Libby identificou nisso uma oportunidade de pegar algum dinheiro. Entretanto, ao conhecer o grupo, foi confrontada com dados que botavam sua versão do crime em cheque. Dentro do grupo havia diversas mulheres que admiravam seu irmão e lhe imputavam a inocência, com base em fatos indiscutíveis. Com suas lembranças postas na berlinda, Libby é empurrada a ver os fatos que cria como verdadeiros em retrospecto. O que descobre a partir daí muda todo o panorama do crime que testemunhou e transforma a trama numa intrincada busca pela verdade, não somente a do caso, mas também da sua.

Gillian Flynn utiliza um recurso muito semelhante ao que usou para compor seu mais famoso romance, o Garota Exemplar: o intercalar de capítulos. Com habilidade, ela mescla os desdobramentos detetivescos de Libby com cenas e acontecimentos do dia do crime. Isso permite que o leitor consiga montar seus próprios esquemas de interpretações do caso de Libby. Além disso, uma dos talentos de Gillian é a composição psicológica de suas personagens. Libby é, ao mesmo tempo, alvo da empatia e antipatia do leitor. Geniosa, está sempre em conflitos com suas memórias, com o trauma que viveu e se tudo aquilo que ela acreditou por quase toda vida é ou não verdadeiro. Os limites da verdade são factualmente confrontados o tempo todo durante o percurso do livro. As certezas se dissolvem na medida que se avança no encadeamento do enredo. O humor macabro – que, no final das contas, é um recurso óbvio para uma trama assim – perpassa todas as pouco mais de trezentas e cinquentas páginas. Um dos bons trunfos de Gillian como escritora de romances psicológicos é a habilidade na manipulação do leitor. Ela é quem conduz, a seu bel prazer, quem está defronte de suas páginas. Além de suscitar uma importante questão: até onde nossa memória é confiável? Com essa premissa é que o leitor deve chegar, já se precavendo do que pode vir, na história da norte-americana. Seu romance é rápido (com alguns deslizes em saídas fáceis, como clichês bobos ao falar de aspectos pessoais e sexuais de Libby – mas que não comprometem o todo) e quando menos se espera, acabou. Por isso vale a precaução: use cinto de segurança ao pegar o livro de Flynn, porque pode ser que alguns impactos tire você da poltrona. Mesmo que em dados momentos a sensação de inverossimilhança tome conta de quem está perscrutando o enredo de Gillian, o soco de realidade sempre volta na página seguinte. Talvez porque de fato a realidade supere a ficção. Por isso espero que você, leitor desprevenido, supere esse livro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: