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Ligue os pontos – Gregório Duvivier

20/06/2016

Ligue-os-pontosDesconfie sempre de livros que precisam estar embrulhados em elogios. No seu segundo livro de poesia, Ligue os pontos: poemas de amor e big bang (Companhia das Letras, 2014), Gregório Duvivier tem todas as defesas para que o leitor desavisado, antes de ler qualquer poema, já o considere um bom livro. Isso porque na orelha há elogios – usando os tão habituais medalhões, como Millôr Fernandes e Ferreira Gullar, para chancelar o trabalho do jovem roteirista e ator -, na contracapa também outras rasgadas sedas. Enfim, um embrulho grande para um presente que não chega a superar qualquer expectativa.

A poesia pode ser um dos mais complexos gêneros literários – considero que seja, de fato. Cada palavra imprime um peso, um ritmo, uma fluidez na leitura e na compreensão do poema lido. Há poetas que destacam-se pelo profundo desafio que suas obras propõem, como João Cabral de Melo Neto – para ficar em apenas um exemplo; há outros que traduzem o cotidiano de forma desconstrucionista (na acepção literal do termo) e iconoclasta, tendo como um dos mais portentosos exemplos dessa vertente o curitibano Paulo Leminski. Já na poesia impressa pelo paulista Duvivier, há uma vergonhosa carência de charme ou mesmo de força poética. O livro divide-se em dois eixos temáticos: “Cartografia Afetiva”, em que elabora uma leitura sentimental e existencial dos pontos da cidade do Rio de Janeiro e seus enraizados trejeitos sociais. Nesse primeiro núcleo, alguns poemas destacam-se – apesar de que destacar-se num contexto em que os trabalhos que o avizinham sejam de baixa média, pode não significar muita coisa. E alguns bons versos brotam ocasionalmente aqui e ali durante a leitura: “(…) há / lugares em que / você sabe que / não vai ser / feliz mas / vai.”.

Na segunda parte da obra, “Aprender a gostar tanto”, o percurso sentimental do poeta se faz mais claro, porém não mais habilidoso. O uso dos lugares-comuns como raízes de desconstrução de seu significado cotidiano acaba por resultar em versos fracos, que assemelham-se muito mais à redação publicitária mediana do que em poesias de alguma validade. Os destaques desse núcleo são bem poucos, com esparsos versos que mostram-se mais cuidadosos com a linguagem poética. O poema que sobe em relação ao nível dos demais, é o poema-título “Ligue os pontos”:

“enquanto você dormia

liguei os pontos sardentos das suas costas

na esperança de que a caneta esferográfica

revelasse a imagem de algum ser mitológico de nome proparoxítono

o mapa detalhado de algum tesouro submerso

formasse quem sabe alguma constelação ruiva

oculta na epiderme

e me deparei com o contorno de um polígono arbitrário que não me fornecia metáforas

não apontava direções

simplesmente dizia: você está aqui.”

Entende-se até o certo ensejo de engrandecimento do fazer poético de Duvivier, que apresenta-se como artista multifuncional, seja por sua popularidade em decorrência do trabalho desenvolvido junto à equipe do canal Porta dos Fundos ou pelos trabalhos no cinema. Mas é necessário que a leitura de sua obra, aconteça a partir da exposição do que ela carrega em si, e seja isenta de fatores que não dizem nada sobre sua poesia. Talvez por isso – e ponha bastante peso nesse “talvez” – o livro tenha sido envelopado em elogios, que têm a funcionalidade da compra do produto livro escrito por um famoso autor (famoso por qualidades alheias à sua produção literária, que se diga), mas que não ecoam na leitura do seu trabalho. Porque se o leitor mais atencioso pegar-se lendo o que há entre as duas capas de Ligue os Pontos, logo verá que os elogios são melhores escritos do que a obra que elogiam.

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