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Sidarta – Hermann Hesse

01/07/2016

CORPOsidarta-hermann-hesseQuando ler um livro transforma-se na leitura de si. Alguns afirmam que toda leitura tem esse poder. Há controvérsias. Raras obras conseguem provocar essa sensação. É uma espécie de espelho que o leitor encara embasbacado com o fato de haver tanto de si nas linhas que perscruta. É um estranhamento. Ver-se assim, tão desnudo, sempre pega – mesmo o leitor mais atento e profissional – de surpresa. Esse é o mérito incontestável de Sidarta (BestBolso, 2012. Tradução de Herbert Caro) do alemão Nobel de Literatura, e autor de Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

O pequeno livro de Hesse encaixa-se na definição de romance filosófico. E não por menos. Hesse inspira-se na vida do assim considerado fundador do Budismo, Sidarta Gautama (a grafia do primeiro nome de Gautama varia de acordo com a fonte, mas aqui manteremos a forma mais simplificada). Em 1911, o escritor alemão fez uma viagem à Índia e pôde vivenciar as experiências religiosas, antropológicas e espirituais que o país oferta de forma tão natural. Com base nessa vivência compôs seu romance. A premissa da história é bastante básica: Sidarta, um jovem ainda em processo de descoberta de si, abandona o lar para atingir novos patamares de imersão espirituais e em busca de uma forma segura e justa de autoconhecimento. É nesse caminho que o leitor segue Sidarta. O clima dessa busca em todo o livro é de calma. Os ambientes retratados por Hesse sempre remetem a lugares tranquilos. Sidarta define-se por uma personalidade extremamente parcimoniosa. Os diálogos travados durante o enredo sempre carregam a força da profundidade – o que fica bem exemplificado no tom formal e respeitoso com que os personagens conversam.

Com a companhia, nas primeiras cenas, do amigo Govinda, Sidarta tem o objetivo de aprender a “tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado […]”. Para alcançar esse grau de elevação, Sidarta dispõe-se a passar por diversas experiências, seguir mestres religiosos e passar por momentos de privação como forma de trilhar com serenidade o caminho espiritual que escolheu para si. Durante todo esse percurso, vê-se o desdobramento e amadurecimento do personagem, que passa a transitar por/em si de acordo com as lições que apreende tanto dos mestres quanto das vivências pessoais. Sidarta atinge picos de desapego – sem moradia fixa, sem estrutura financeira alguma, sem roupas, totalmente imerso e conectado com o ambiente isolado que o rodeia; como também afasta-se desses princípios. Essas oscilações são orquestradas no enredo com a habilidade de Hesse e o seu amplo conhecimento dos ensinamentos religiosos do período histórico vivido por Sidarta. Não existe complexidade narrativa alguma na obra de Hesse – e não compreenda isso como demérito; a força da obra está exatamente imiscuída na forma simples com se apresenta. O livro todo é perpassado pelo espectro da simplicidade. É uma história simples e de tom sereno.

Não parece ser preocupação de Hesse influir de seu livro qualquer moral da história. Ele permite que ela aconteça – a história, não a moral dela – por si. As lições que a obra carrega vêm em pequenas pílulas de sabedoria – e com estilo de escrita muito superior aos dos livretos espirituosos carregados de frases prontas: “Não me cumpre julgar a vida de outrem. Devo opinar, escolher, rejeitar unicamente o que se refere a mim mesmo”, afirma Sidarta em dado momento do enredo. E, acertadamente, Hesse não escamoteia o lado humano do seu protagonista. Sidarta tem seus intercursos amorosos, físicos e sexuais, e deles também extrai lições de vida, como nessa cena de encontro com Kamala, uma espécie de prostituta religiosa: “A Sidarta que, em matéria de amor, era ainda menino e tendia a lançar-se cegamente, com apetite insaciável, ao gozo, como que num abismo, ela ensinava, desde os princípios, o fato de que não se pode receber prazer sem dar prazer; que cada gesto, cada carícia, cada aspecto, cada parte do corpo esconde em si um segredo, cuja descoberta causará enorme prazer a quem a fizer. Dela, aprendia Sidarta que os amantes não devem separar-se após a festa do amor sem que um parceiro sinta a admiração do outro; sem que ambos sejam vencedores tanto como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente”.

Das primeiras páginas à última, Hesse preocupa-se com a estrutura do espelho mental do leitor. Mesmo que Sidarta seja o protagonista das páginas que se seguem uma após a outra, é o leitor que lê a si em cada uma delas. As indicações de possíveis caminhos para a vida que o escritor alemão faz, ecoam no leitor após a última página. O peso – consciente – da escrita de Hesse é sentido quase que visceralmente. Com nenhuma surpresa se vê com tanta frequência a afirmação de que a pequena obra de Hesse é “para a vida”. Não creio em bons livros que deixam o leitor da mesma forma como ele a abriu. Se ele passa incólume por ela, é porque ela não possuía validade alguma. Ficar impassível diante das poucas páginas de Sidarta é uma impossibilidade. Não acontece. O leitor passará a se ver, assim como o protagonista, de outra maneira. Assim como Sidarta, as transformações internas também acontecerão com o leitor que se aventura nesse livro. É uma leitura de si e para si, quando então, quem sabe, alcança-se o estado de poder ver por si e em si. Um romance além do romance e carregado de uma forte potência transformadora. Poderosíssimo.

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