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Trumbo – Bruce Cook

18/07/2016

CORPOtrumbo-bruce-cookO jornal The Hollywood Reporter divulgava em 1947 a lista de profissionais da indústria cinematográfica que supostamente estavam envolvidos com o monstro vermelho chamado Comunismo. Era uma das décadas auge do macartismo, da perseguição aos comunistas e a tudo que fosse semelhante a perspectivas de esquerda. Dessa lista, que ficou conhecida como “Os dez de Hollywood” um dos mais destacados nomes foi o de Dalton Trumbo, roteirista, escritor e membro do Partido Comunista, que foi investigado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas. Como se recusou a fornecer qualquer tipo de informação que ajudasse nas investigações, Trumbo foi preso, em 1950, por desacato ao Congresso Norte Americano. A Era McCarthy de caça às bruxas estava na sua fase inicial.

Bruce Cook, conhecido jornalista e crítico que morreu em 2003, resolve contar a história de Dalton através da biografia “Trumbo” publicado no Brasil pela Intrínseca com tradução de Catharina Pinheiro. Para confeccionar o seu livro, Cook fez diversas entrevistas com Trumbo, já debilitado e no fim da vida, e seus amigos, além de pessoas que tiveram envolvimento no processo de acusação do roteirista.

O biógrafo, que talvez se envolva demais na forma prefere narrar a vida do biografado quase que se tornando um personagem do próprio livro, conta em algumas irritantes minúcias – que algumas vezes, chegam a se repetir três ou quatro vezes durante a leitura, como se faltasse linhas e ele as precisasse preencher assim – a trajetória do jovem de Grand Junction que alimentava o sonho de ser escritor, mas que não vinha de família abonada – seus pais, de origem humilde, lutavam para manter a casa com o mínimo que tinham. A sede de Trumbo pela escrita fez com que ele seguisse a trilha do jornalismo, com pequenas colaborações e artigos que permitiram que seu nome fosse ganhando espaço. Antes disso, ele teve que improvisar da forma que era possível. Trabalhou por alguns anos cuidando do estoque da padaria Davis Perfection, e chegou a se envolver no tráfico de álcool durante o período da lei seca (e a sua técnica de venda era infalível: pedia num dos pontos de venda proibida uma bebida, bebia e cuspia fazendo caretas e dizendo em voz alta “isso aqui é horrível!” e pedia para o vendedor beber da bebida que ele tinha e dizer se ela era melhor ou não do que aquela. Ela era. Tudo isso na frente de todos, que logo se interessavam pelo “produto” vendido por Trumbo).

Através de Frank Daugherty, Trumbo consegue espaço para escrever por um salário razoável e começa a mirar na carreira de escritor – que nunca decolou de fato, e teve como ponto alto Jhonny vai à guerra, que é um livro de qualidade mediana. Trumbo, em busca do sonho de tornar-se escritor, vê na carreira de roteirista a oportunidade de exercitar a escrita e também poder desafiar-se em outras linguagens. É aí que ele se encontra. Com a grande habilidade de poder escrever e consertar roteiros alheios numa velocidade bem acima da média, Trumbo destaca-se na função passando por grandes companhias como a MGM e Warner.

De caráter forte e de posições fincadas, Trumbo se tornou um alvo fácil da sana anti-comunista que atacava o país naquelas décadas. Teve que enfrentar o afastamento e a proibição do exercício do trabalho de roteirista, tendo que atuar na clandestinidade através do mercado negro do mercado cinematográfico. Tudo isso tendo que enfrentar a forte cobrança social do seu meio e também as dificuldades financeiras. Contudo, a qualidade do seu trabalho não era menor por isso. Mesmo precisando executar seu trabalho por um preço bem abaixo da tabela que costumava cobrar, teve alguns de seus roteiros premiados – claro que sob o crédito de outro nome. Também foi dele o feito de ser o primeiro da lista negra a receber o crédito por um roteiro já no arrefecimento da era McCarthy.

A biografia escrita por Cook tem alguns pecados já ditos por aqui: o excesso de repetição de algumas informações – como se o leitor não absorvesse o que está lendo -, esse envolvimento exagerado como personagem na vida do biografado, um zelo descomedido na proteção de Trumbo – mesmo nos trabalhos mais ruins do roteirista, Cook se esforça em dizer que “não era tão ruins assim”; o que compromete muito a leitura e a percepção da história que se lê.

Contudo, a biografia de Dalton Trumbo é um importante documento de registro de um dos mais relevantes momentos da história da indústria do cinema e exemplifica a tacanhice que pode permear os meandros de grandes empresas comandadas por capitalistas de poucos escrúpulos. Ali, o que vale é o lucro, a arte é parte que vem em segundo plano.

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