Skip to content

Alçapão – André Ladeia

27/08/2016

CORPOalçapãoA poesia é como pedra esculpida: precisa ser forjada a duros golpes para que o resultado seja satisfatório. É nela que se imiscuem os mais densos desejos da alma humana. É o gênero mais complexo da Literatura – essa de L maiúsculo – por excelência. Por isso estranha sempre que ainda haja quem nela se aventure. É preciso uma dose de certa petulância e outra, essa cavalar, de ingenuidade para o exercício da poesia. Ou pode ser que todas as afirmações anteriores estejam equivocadas e é preciso apenas muita vontade para fazer poesia. Porém, mesmo que essa última premissa se comprove, ela não se basta. Apenas vontade não é suficiente, porque poesia é fruto do laborioso suor no fazer, no moldar, no ver, no projetar as palavras. Não é inspiração, aquela luz que brota e ilumina o coração do jovem poeta. É trabalho, e dos mais difíceis. Com esse desafio posto foi que André Ladeia, poeta carioca, botou esse seu Alçapão no mundo, publicado pela editora Oito e Meio. O curto livro de Ladeia chega aos olhos com alguma singeleza. Seja pelo tamanho apequenado, pela palavra Alçapão que domina toda a capa e deixa uma pequena brecha para a entrada. Na epígrafe, a sentença: “Chora/Que a dor é só o começo”. Então, antes mesmo dos poemas em si, um poema-dedicatória elenca para quem o livro foi escrito. Escravos, mineradores, insurgentes que arrancaram fora a cabeça de seus senhores, os que lutaram e se envergonham “da nossa abjeta história”. Pode ser que o leitor comum não se sinta incluído na lista de Ladeia, mas é necessário calma. Calma, leitor.

A partir de então, Ladeia segue seu caminho e vagueia por alguns rumos desarrumados. Poesia-síntese, poema-resumo. É dessa forma que André traça suas linhas. Algumas ainda precisam de um lapidar melhor, mais cuidadoso, porque parecem terem sido paridas às pressas e tinham que ser apresentadas e não havia tempo para lavá-las e arrumá-las. É preciso calma, poeta. As palavras carregam o seu tempo e se deixam melhorar nesse tempo delas. Outra rusga pequena que causa certo incômodo ao olho mais atento é a disposição de alguns poemas, pululam como janelas indesejadas no meio da leitura. Como se o leitor estivesse conversando com Cabral de Melo Neto e no meio da conversa se metesse Quintana. O leitor lê e depara-se com a fluidez de “Andorinhas” e logo em seguida aparvalha-se ao ler o “Indelicadeza”. Ainda que na divisão “Perspectivas” – uma das seis nas quais se dividem o livro -, causa certa confusão essas mudanças tão abruptas no fluxo de leitura.

De qualquer forma, o trabalho de Ladeia apresenta uma potência boa. Enxerga-se, entre suas linhas, um poeta em salutar transformação. Esse seu Alçapão, como título adequado, é uma armadilha poética: entra-se ingênuo, sai-se desconfiado. Exemplo disso é o poema-sátira que encerra o livro. No diálogo de “Domingo em Rigel Kent” a lógica dos dias e das horas se alteram ao bel-prazer do poeta e os personagens imbricam-se em labirintos de sentidos que o leitor segue atordoado sem saber muito bem em que terreno pisa. Isso entremeado de humor, de ironia delicada, traçado de finas costuras. Sinal excelente de poeta que sabe do ofício, mas que, contudo, necessita de aprimoramentos – como todo bom operador de palavras. Mas parece-me que André Ladeia possui essa consciência e espera-se que dessa lavra ainda saiam (outras) boas linhas.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: